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A BARRA E O COLO

  • Carlos A. Buckmann
  • 21 de mai.
  • 4 min de leitura

A BARRA E O COLO (*)

(Da série A FILOSOFIA NA MPB)

            A dura realidade, eu a constato todas as manhãs: o trabalhador depende de um emprego como o náufrago depende da tábua.

            Mal remunerado, quando o é. Sem garantia de continuidade, pois o amanhã é um fantasma que o patrão não assina. Acordamos, pagamos condução, vendemos o tempo que não nos pertence, e chamamos isso de vida.

            Sobreviver, nesse regime, é um ofício que exige mais do que músculos: exige a negação da própria fragilidade.

            Mas a MPB, essa filósofa de voz rouca, nos lembra do que a lógica do trabalho insiste em esconder.

            Gonzaguinha, por exemplo, não cantou para heróis; cantou para os homens que sangram em silêncio. E a primeira estrofe já desaba sobre nós como um tijolo:

            “Um homem também chora / Menina morena / Também deseja colo / Palavras amenas”

            Chamar a isso de fragilidade é pouco. Schopenhauer já sabia: a vontade de viver se traveste de força, mas por baixo da armadura há um corpo que treme. O guerreiro do asfalto, que enfrenta ônibus lotados e chefes que o tratam como número, também deseja um colo. Só que o colo não consta no contrato de trabalho. Ele deseja palavras amenas num mundo onde as palavras são todas duras, métricas, produtivas.

            “Guerreiros são pessoas / Tão fortes, tão frágeis / Guerreiros são meninos / No fundo do peito”

            Pascal diria que o homem é uma cana pensante, a mais frágil da natureza, mas uma cana que pensa. O guerreiro menino pensa, sim. Pensa na conta que vence, no filho que pergunta, na mulher que espera.  É por pensar que sangra. A força que ele exibe na rua é a mesma que o desaba no quarto escuro.

            Heráclito, das contradições, sabia que o mesmo caminho sobe e desce. O guerreiro sobe todos os dias a ladeira do expediente; desce todas as noites para dentro de si, onde o menino chora.

            “Precisa de um descanso / Precisa de um remanso / Precisa de um sono / Que os tornem refeitos”

            Epicuro, esse sábio do jardim, ensinava que o maior prazer é a ausência de dor e, o sono sem pesadelo, é a primeira das riquezas. Mas como dormir refeito quando o despertador é uma faca? O trabalhador não precisa de lazer; precisa de remanso. Palavra antiga, quase inútil no dicionário do capital. Remanso é o lugar onde a água para de correr, e o homem, para de ser rio carregado para nenhum mar.

            “É triste ver meu homem / Guerreiro menino / Com a barra do seu tempo / Por sobre seus ombros / Eu vejo que ele berra / Eu vejo que ele sangra / A dor que tem no peito / Pois ama e ama”

            A barra do seu tempo. Que metáfora cruel. O tempo, que deveria ser duração bergsoniana, fluxo criador, vira peso sobre os ombros.

            Cronos devorador de sonhos. Camus, ao descrever Sísifo, não imaginava um rochedo, mas um ponto eletrônico. O homem berra, não com a boca, que aprendeu a calar para não perder o emprego, mas berra com os olhos, com as costas curvadas, com a mão que treme ao levar o café à boca.

            E sangra por amar. Porque amar exige presença, e o trabalho exige ausência.

            “Um homem se humilha / Se castram seu sonho / Seu sonho é sua vida / E vida é trabalho”

            Aí está a filosofia mais ácida. Marx sentenciou: o trabalho alienado rouba do homem o seu ser genérico. Mas Gonzaguinha vai mais fundo: se o sonho é a vida, e a vida é trabalho, então castrar o sonho é matar em vida.

            O homem se humilha, pede aumento, aceita hora extra, engole sapo, veste o uniforme da submissão. E não por covardia, mas porque a honra foi sequestrada pela carteira assinada.

            “E sem o seu trabalho / O homem não tem honra / E sem a sua honra / Se morre, se mata”

            Hegel, na dialética do senhor e do escravo, mostrou que o reconhecimento é a moeda da dignidade. Num mundo onde o senhor é o mercado, o escravo só se reconhece quando produz. Sem produção, ele é invisível. E o invisível, para a sociedade do espetáculo, não merece nem luto.

            Por isso o homem se mata, não só no gesto extremo, mas nas pequenas mortes diárias: no cigarro que acelera o pulmão, na bebida que embala o fim de semana, no silêncio que substitui o grito.

            “Não dá pra ser feliz”

            Repete três vezes. Não como vitória, mas como constatação.

            Espinosa diria que a felicidade é o aumento da potência de agir. Mas o trabalho castrado diminui essa potência até o zero. O homem não é feliz porque lhe negaram o direito de ser triste. Ele aprendeu que choro é fraqueza, que colo é luxo, que abraço é perda de tempo. E assim, guerreiro menino, segue lutando contra o que mais ama: a própria candura.

            A dura realidade não mudou. O emprego continua ali, mal remunerado, incerto, exigindo mais do que o corpo pode.

            Mas a crônica, que é um gênero também de colo, me permite dizer: o homem que chora ainda é homem.

            O guerreiro que pede descanso ainda é guerreiro.

            E talvez, nesse paradoxo, na barra sobre os ombros e no menino no peito, resida a única filosofia possível: a de que a vida, mesmo não dando para ser feliz, dá para ser sentida.

            Sentida com a crueza de quem sabe que o amanhã pode não ter emprego, mas terá, ainda, a coragem de um abraço.

            Ou a memória dele.

(*) Assista o clip no YouTube:

 
 
 

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