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A BANALIDADE DO MAL E O ESTADO EM RUÍNAS.

  • Carlos A. Buckmann
  • 6 de jun. de 2025
  • 3 min de leitura

A BANALIDADE DO MAL E O ESTADO EM RUÍNAS

            Hoje peço vênia aos que me seguem, para fugir um pouco da temática filosófica/empresarial e de gestão de negócios. Mas fui atingido em cheio, como uma bofetada no rosto, pela constatação da “BANALIDADE DO MAL”.

            A multidão se aglomerava em frente ao presídio de Bangu 3, olhos vidrados, celulares erguidos, gritos de exaltação. MC Poze do Rodo (eu nunca tinha ouvido falar dessa figura), recém-liberto, atravessava os portões como um herói retornando da guerra. A polícia, acuada, tentava conter o tumulto com gás lacrimogêneo e balas de borracha. Mas o espetáculo já estava armado: a libertação do funkeiro, acusado de envolvimento com o crime organizado, ele mesmo se declarou integrante do CV, transformara-se em um ato de resistência popular, uma celebração da impunidade.

            Hannah Arendt, ao observar o julgamento de Adolf Eichmann, percebeu algo aterrador: o mal não se manifesta apenas na figura do monstro sanguinário, mas também no burocrata medíocre, no homem comum que, sem reflexão, cumpre ordens e perpetua horrores. A “BANALIDADE DO MAL” não exige perversidade, apenas conformismo.

            E aqui estamos nós, décadas depois, testemunhando um fenômeno semelhante. O Estado, falido e submisso, assiste à ascensão de figuras que, longe de serem vilões clássicos, são apenas engrenagens de um sistema corrompido. O crime não se esconde mais nas sombras; ele desfila pelas ruas, ostenta riqueza, dita normas. A massa, desprovida de discernimento, aplaude.

            O filósofo Zygmunt Bauman alertava sobre a liquidez das relações sociais, sobre a fragilidade das instituições. O Estado, outrora pilar da ordem, dissolve-se diante da força do crime organizado, que se apropria de suas funções e impõe sua própria justiça. A polícia, incapaz de conter a maré, torna-se peça decorativa.

            A libertação de MC Poze do Rodo não é um evento isolado. É um sintoma. Um reflexo da falência do Estado e da normalização do inaceitável. O crime, antes combatido, agora é celebrado. A violência, antes temida, agora é entretenimento. A banalidade do mal se agiganta, e nós, espectadores passivos, seguimos compartilhando vídeos e curtindo postagens, enquanto o mundo desmorona ao nosso redor.

            A cultura pop tem um papel significativo na forma como o crime é percebido hoje. Filmes, séries, músicas e redes sociais frequentemente romantizam ou glamourizam figuras criminosas, tornando-as símbolos de status e poder.      Por exemplo, o funk ostentação no Brasil muitas vezes associa riqueza e sucesso a atividades ilícitas, influenciando jovens a enxergar o crime como um caminho legítimo para ascensão social. Além disso, a espetacularização do crime na mídia e nas redes sociais contribui para a normalização da violência, tornando criminosos figuras admiradas e até celebradas.

            A criminologia cultural também destaca como o crime é tratado como um produto cultural, influenciando políticas criminais e a percepção pública sobre justiça e punição. Essa abordagem sugere que o crime não é apenas um desvio social, mas algo moldado e reforçado pela cultura dominante.

            Diante desse cenário, é essencial adotar uma postura crítica em relação à forma como o crime é representado na cultura pop, promovendo valores que incentivem o sucesso por meios éticos e legais. Afinal, quando o crime se torna entretenimento, a sociedade corre o risco de perder sua capacidade de indignação.

            Mas ainda fica pior:  -       A aposentadoria compulsória do juiz Marcelo Bretas, determinada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), é um exemplo claro da fragilidade institucional que permeia o sistema judiciário brasileiro. Condenado por sua conduta na Operação Lava Jato, Bretas foi afastado definitivamente da magistratura, mas continuará recebendo salários proporcionais ao tempo de serviço, o que, na prática, significa um prêmio disfarçado de punição.

            O caso de Bretas ilustra um problema recorrente: a impunidade disfarçada de sanção. Enquanto cidadãos comuns enfrentam as consequências de seus atos sem benefícios, magistrados condenados por irregularidades ainda garantem remuneração vitalícia. Essa distorção do sistema reforça a percepção de que há uma elite jurídica intocável, protegida por mecanismos que garantem privilégios mesmo diante de condutas questionáveis. - O que nos leva a perguntar: O que liga esses dois casos?

            O filósofo Michel Foucault já alertava sobre a relação entre poder e disciplina, destacando como as instituições moldam narrativas para preservar seus próprios interesses. A aposentadoria compulsória de Bretas não é apenas um desfecho administrativo, mas um reflexo da banalização do mal dentro das estruturas de poder. O Estado, que deveria ser o guardião da justiça, se torna cúmplice da perpetuação de privilégios.

            Enquanto isso, a sociedade assiste, indignada, à normalização de práticas que corroem a credibilidade das instituições. A pergunta que fica é: até quando aceitaremos que punições sejam, na verdade, recompensas disfarçadas? Até quando criminosos serão tratados como mitos? O que nos resta?

             A indignação solitária, o grito sufocado, a consciência de que, talvez, já seja tarde demais.

 
 
 

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