A AUTONARRATIVA E A REESCRITA DO EU
- Carlos A. Buckmann
- 28 de out. de 2025
- 3 min de leitura

A AUTONARRATIVA E A REESCRITA DO EU
Falamos de nós mesmos o tempo todo, em silêncio, em confissões, em redes sociais, em consultórios, em lamentos noturnos ou em bravatas matinais.
Dizemos “sou fraco”, “nunca dou certo”, “sou um sobrevivente”, “não mereço”, “talvez ainda haja esperança”. Cada enunciado, por mais casual, carrega uma ontologia implícita: não apenas descreve quem somos, mas nos constitui. A linguagem com que nos nomeamos não é um espelho passivo da alma, é um ato performativo, uma escultura contínua do eu. Falamos, e, ao falar, nos tornamos.
A psicologia, especialmente a partir da virada narrativa, entende que a identidade é uma história que contamos a nós mesmos.
Jerome Bruner afirmava que somos “animais que contam histórias”, e que nossa subjetividade emerge da capacidade de tecer narrativas coerentes, mesmo quando a vida é caótica.
Já a psiquiatria observa como certos modos de “autonarrativa” se cristalizam em patologias: o depressivo repete “nada tem sentido”; o ansioso antecipa “vou falhar”; o narcisista proclama “sou excepcional” para esconder um vazio.
Lacan, com sua genialidade incômoda, nos lembrou que “não se fala com o outro, fala-se no outro”, e que o eu se formo no espelho da linguagem, muitas vezes distorcido pelo desejo e pelo trauma. Assim, o modo como falamos de nós não é secundário ao sofrimento; é parte constitutiva dele.
Se Lacan nos mostra como o eu se forma na linguagem do desejo e do trauma, a filosofia aprofunda essa relação ao tratar a linguagem não apenas como estrutura psíquica, mas como fundamento do ser. .
Heidegger diria que a linguagem é a “morada do ser”: não somos antes de falar; somos na e pela linguagem.
Foucault mostrou como os discursos dominantes nos ensinam a falar de nós mesmos como “doentes”, “anormais”, “produtivos” ou “falhos” e, ao internalizá-los, passamos a existir conforme essas categorias.
Ricoeur, com sua sensibilidade hermenêutica, propôs que a identidade não é uma essência fixa, mas uma “identidade narrativa”: somos aquilo que conseguimos contar de forma coerente sobre nós mesmos ao longo do tempo.
E Nietzsche? Ele nos desafiava a nos tornar “artistas de nós mesmos”, a reescrever nossa história com coragem estética, transformando o que foi sofrimento em estilo de vida.
É nesse ponto, entre a clínica da palavra e a ética da existência, que a psicofilosofia se afirma como prática transformadora. Ela não se contenta em interpretar os discursos do sujeito como sintomas a serem corrigidos, nem em desconstruí-los apenas como efeitos ideológicos. A psicofilosofia escuta a “autonarrativa” como projeto de si. Pergunta: Que mundo você constrói ao dizer “sou assim”? Que possibilidades você fecha ao repetir “sempre fui assim”? E, sobretudo: que outra história você poderia contar, não para negar a dor, mas para dar a ela um lugar que não a escravize?
Trata-se, então, de um trabalho de reescrita simbólica. Não de mentir sobre si mesmo, mas de ampliar o vocabulário da própria existência.
Substituir “sou um fracasso” por “fracassei, mas estou aprendendo”; trocar “nunca serei amado” por “ainda não encontrei o amor que mereço, mas continuo aberto a ele”. Essas não são meras mudanças retóricas, são atos de liberdade ontológica. A psicofilosofia ajuda o sujeito a se tornar autor, e não apenas personagem, de sua história.
Numa era de identidades prontas, de perfis curados e de discursos padronizados pelas lógicas do mercado e das redes sociais, essa prática é revolucionária. Vivemos cercados por modelos de como devemos falar de nós: otimistas demais, fortes demais, bem-sucedidos demais. A psicofilosofia resiste a essa tirania da “autonarrativa” idealizada. Ela acolhe a contradição, a ambiguidade, a ferida e, a partir delas, convida à criação de uma linguagem mais verdadeira, mais humana, mais própria.
Por isso, digo a você que se esconde atrás de frases feitas sobre si mesmo: Não tema reescrever sua história.
Você não está negando o passado, está libertando o futuro.
Cada palavra que você escolhe para se nomear é um passo em direção a quem ainda pode ser.
Você não nasceu pronto.
Está se escrevendo. E a caneta, por mais trêmula que seja, está em suas mãos.
Escreva com coragem. Escreva com verdade.
Escreva-se.




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