A AUSÊNCIA DE INTERROGAÇÃO
- Carlos A. Buckmann
- 29 de set. de 2025
- 3 min de leitura

A AUSÊNCIA DE INTERROGAÇÃO
Há alguns minutos, enquanto observava uma pessoa atravessar o saguão do prédio com a pasta debaixo do braço e os olhos fixos no chão, como se o caminho até o elevador fosse um ritual pré-programado por alguma inteligência invisível, perguntei-me: quantas vezes, ao longo do dia, nos detemos para questionar o que estamos fazendo? Não apenas o quê, mas por quê? E mais profundamente ainda: quem somos nós nesse fazer?
É estranho constatar como as pessoas, em geral, movem-se pelo mundo como autômatos programados por hábitos que já não lembram ter escolhido.
O médico que receita sem escutar; o professor que repete a mesma aula há vinte anos como se o tempo não tivesse passado; o executivo que toma decisões baseadas em “isso sempre funcionou assim”. Há uma espécie de inércia existencial que domina nossas profissões, nossas relações, nosso modo de ser. A ação se torna reflexo condicionado, e a reflexão, quando surge, é tratada como intrusa.
Nessa automação cotidiana, cometemos erros que parecem banais, mas são estruturais.
O primeiro deles é a confusão entre eficiência e sentido. Fazemos as coisas rápido, bem, com técnica apurada, mas raramente nos perguntamos se aquilo ainda nos pertence, se ainda corresponde a quem desejamos ser. É o que Erich Fromm chamaria de “homem da roda”, girando incessantemente, produzindo, consumindo, obedecendo, sem jamais parar para ver se ainda está vivo.
O segundo erro é a alienação dos próprios gestos: agimos como se nossas mãos pertencessem a outro corpo, como se nossas palavras saíssem de uma voz alheia. Perdemos o direito à autorreflexão.
Foi nesse vácuo que me deparei com a frase de Pierre Bourdieu:
“Parece necessário você se interrogar sobre a ausência de interrogação.”
Uma sentença quase circular, mas profundamente cortante.
Bourdieu, sociólogo francês do século XX, foi um dos grandes pensadores da “habitus”, esse conjunto de disposições internalizadas que moldam nossa percepção e ação sem que percebamos. Ele mostrou como nossos comportamentos são frequentemente respostas automáticas a estruturas sociais invisíveis: classe, educação, tradição. Mas, ao mesmo tempo, insistiu na necessidade do “trabalho de si sobre si”, da lucidez crítica diante das próprias inclinações.
Sua obra dialoga com outras vozes: Sócrates, que dizia que “uma vida não examinada não vale a pena ser vivida”; Foucault, que falava da “ética do cuidado de si” como prática de liberdade; e Jung, que via no inconsciente coletivo os arquétipos que repetimos sem consciência. Todos, à sua maneira, nos alertam: há um perigo maior do que errar, é agir sem saber que estamos agindo.
Interrogar a ausência de interrogação não é um exercício intelectual vazio. É um imperativo ético.
No plano individual, significa retomar a autoria da própria vida. Em vez de repetir padrões por medo, conforto ou conveniência, assumimos o risco da dúvida.
Na esfera social, essa atitude rompe com a tirania do óbvio, aquela violência sutil que impõe normas sob o disfarce da naturalidade.
Nos negócios, empresas que não se questionam morrem de inanição criativa, engolidas por concorrentes que ousam perguntar: “Para que serve isso? Para quem? Vale ainda?”
Precisamos, então, cultivar a interrogação como um músculo. Exercitá-la diariamente. Diante de cada decisão, grande ou ínfima, fazer a pergunta silenciosa: “Por que faço isso? Quem me ensinou isso? Ainda faz sentido?”
Não se trata de duvidar de tudo, mas de manter aberta a possibilidade de transformação. A ausência de pergunta é o berço da conformidade; a presença dela, por mínima que seja, é o primeiro passo da liberdade.
Eu digo isso também a mim mesmo, neste exato momento em que escrevo estas linhas, não tenha medo de parar. De suspender o automatismo. De encarar o desconforto do não saber. A verdadeira sabedoria não está nas respostas que acumulamos, mas nas perguntas que ainda temos coragem de formular.
Parece necessário, sim, você se interrogar sobre a ausência de interrogação.
E talvez, nesse simples ato, você encontre não apenas sentido, mas finalmente, a si mesmo.
BETO BUCKMANN
Crônicas entre ideias e pólvora.




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