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A ARTE DE DOMAR “FERAS” INTERNAS NOS NEGÓCIOS

  • Carlos A. Buckmann
  • 5 de abr. de 2025
  • 3 min de leitura

A ARTE DE DOMAR “FERAS” INTERNAS NOS NEGÓCIOS

     Aterrissar em Porto Alegre, com a brisa do Guaíba anunciando mais um desafio profissional, sempre me traz uma sensação curiosa. Foi justamente em um desses momentos de trânsito aeroportuário, entre um embarque e outro, que minhas mãos encontraram "A Grande Obra" de Luiz Alberto Hetem. Naquele 2017, rumo a um encontro da FEBRAFAR, mal sabia que aquele livro, adquirido ao acaso, traria reflexões tão pertinentes para o universo turbulento das pequenas e médias empresas.

     Ao mergulhar nas páginas de Hetem, percebi a pertinência do título. O autor, com a serenidade de um psiquiatra experiente, escrutina quatro "misérias humanas" que, longe de serem exclusividade dos consultórios, ecoam ruidosamente nos corredores de qualquer negócio, especialmente nas PMEs, onde a proximidade e a intensidade das relações são ainda maiores: orgulho, inveja, raiva e culpa.

     Pensemos no orgulho. Quantas vezes vemos decisões equivocadas serem mantidas a ferro e fogo, não por convicção estratégica, mas pela dificuldade em admitir um erro? Em uma PME, onde os recursos são limitados e cada passo é crucial, essa inflexibilidade pode ser fatal. O orgulho impede a escuta ativa de novas ideias, dificulta a delegação e, pior, cega líderes para a necessidade de adaptação em um mercado em constante mutação. A obra de Hetem nos lembra que reconhecer limitações não é fraqueza, mas sim o primeiro passo para o crescimento e a inovação.

     A inveja, sorrateira e muitas vezes disfarçada, pode corroer o ambiente de trabalho como uma ferrugem silenciosa. Em equipes pequenas, onde o sucesso de um pode ser interpretado como uma ameaça por outro, a inveja gera fofocas, boicotes velados e um clima de desconfiança que mina a colaboração e a produtividade. Nas PMEs, o capital humano é um dos seus maiores ativos. Permitir que a inveja o deteriore é como atear fogo ao próprio patrimônio. A lição de Hetem é clara: reconhecer a inveja em nós mesmos e nos outros é o primeiro passo para neutralizar seu poder destrutivo.

     A raiva, explosiva e imediata, é um veneno que se espalha rapidamente, deixando um rastro de ressentimento e mágoa. No calor de uma negociação difícil, diante de um erro de um colaborador ou sob a pressão de um prazo apertado, a raiva pode nos levar a decisões impulsivas e a palavras que ferem e desmotivam. Em uma PME, onde a coesão da equipe é fundamental, surtos de raiva podem desmantelar a moral e comprometer o engajamento. A obra nos convida a reconhecer a raiva como um sinal, um alerta de que algo não está bem, e a buscar formas mais construtivas de canalizar essa energia.

     Por fim, a culpa, um fardo pesado que muitas vezes carregamos sem necessidade. No mundo dos negócios, a culpa pode surgir de decisões difíceis, de erros cometidos ou da sensação de não estar fazendo o suficiente. Empreendedores de PMEs, comumente sobrecarregados de responsabilidades, podem ser particularmente suscetíveis a esse sentimento. A culpa paralisante impede a tomada de riscos calculados, mina a autoconfiança e dificulta o aprendizado com os próprios erros. Hetem nos ensina que a culpa, quando excessiva, é improdutiva e que o foco deve estar na reparação e no aprendizado, e não na autoflagelação.

     A grande sacada da análise de Hetem, e sua profunda relevância para o mundo dos negócios, reside na constatação de que essas "misérias" não são anomalias, mas sim parte intrínseca da nossa condição humana. Ignorá-las ou tentar reprimi-las é uma batalha perdida. O caminho, como bem aponta o autor, é o do entendimento, da aceitação e da busca por mecanismos para "domá-las", transformando-as em algo menos destrutivo.

     Para as PMEs, essa perspectiva é libertadora. Em vez de buscar uma utópica equipe de "super-humanos" imunes a essas emoções, o foco deve ser em criar um ambiente de trabalho onde a inteligência emocional seja valorizada e desenvolvida. Líderes que reconhecem suas próprias vulnerabilidades e incentivam a reflexão sobre as emoções de suas equipes construirão negócios mais resilientes, criativos e, em última análise, mais bem-sucedidos.

     Da próxima vez que o orgulho teimar em ditar uma decisão, a inveja sussurrar comparações amargas, a raiva borbulhar diante de um obstáculo ou a culpa paralisar sua capacidade de seguir em frente, lembre-se das lições aqui aprendidas. Você não está sozinho nessa jornada. Essas são as feras internas que todos nós enfrentamos. A verdadeira "Grande Obra" nos negócios, assim como na vida, reside na arte de aprender a conviver e a direcionar essas emoções, transformando potenciais obstáculos em motores para o crescimento e a prosperidade. E quem sabe, talvez a próxima leitura transformadora te espere em algum embarque futuro, nos aeroportos da vida.

 
 
 

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