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A ARTE DE COMPREENDER (E Não Fazer Tempestade em Copo de Ego)

  • Carlos A. Buckmann
  • 19 de jun. de 2025
  • 4 min de leitura

A ARTE DE COMPREENDER (E Não Fazer Tempestade em Copo de Ego)

            Tantas vezes olho para o outro e percebo que, antes mesmo de ele abrir a boca, eu já lhe atribuí intenções, posturas, preferências e, que ironia, até pecados que nunca cometi. Formamos juízos com a pressa dos que esquecem o tempo, e com a empáfia dos que jamais se olharam honestamente no espelho. O entendimento do outro, dizia-me uma voz interior já rouca, é sempre um exercício de suspensão do ego, esse nosso teatro interno que não admite plateia.

            A ausência de empatia não é apenas uma falha ética, mas uma tragédia prática. No cotidiano individual, julgar apressadamente nos afasta de amigos e confunde desafetos. Em sociedade, esse impulso míope molda preconceitos, fabrica estigmas, endurece fronteiras. Nos negócios, onde se deveria cultivar o discernimento, o julgamento rápido converte oportunidades em conflitos, talentos em ameaças e divergências em rupturas.

            Foi diante dessas inquietações, ao buscar refúgio na filosofia, que me deparei com a sabedoria de Baruch Spinoza, filósofo racionalista do século XVII. Nascido em Amsterdã, filho de judeus sefarditas, expulsos de Portugal, Spinoza foi excomungado ainda jovem por desafiar dogmas religiosos. Em sua solidão reflexiva, lapidou ideias tão revolucionárias quanto serenas, dentre elas esta que reverbera com atualidade estonteante:

            “Não rir, nem lamentar-se, nem odiar, mas compreender.”

            Essa frase me acometeu como uma brisa entre palavras duras. E nela encontrei um mapa para navegar o mar revolto dos afetos humanos. Spinoza propunha não a indiferença, mas a superação emocional pela razão; não deixar de sentir, mas compreender o que se sente e por que se sente.

         A máxima “spinozana” não é um convite à apatia, mas sim a um engajamento mais profundo e autêntico com a realidade. Rir do outro, lamentar-se por suas vicissitudes ou odiá-lo são reações emocionais que nos mantêm aprisionados em nossas próprias paixões, impedindo a apreensão da verdade objetiva. A compreensão, ao contrário, é um ato de libertação. É a busca pela inteligibilidade das causas que levam o outro a ser e a agir como o faz, desnudando a complexidade de suas motivações, de seus medos, de suas esperanças.

            Spinoza não esteve só nessa travessia. Marco Aurélio, imperador estoico, anotou em suas Meditações:

            “Se alguém peca contra ti, compreende que o faz por ignorância.”

 E Viktor Frankl, psiquiatra e sobrevivente de campos de concentração, escreveu:

             “Tudo pode ser tirado de um homem, exceto a última das liberdades humanas: escolher a própria atitude em qualquer circunstância.” 

Nessa linhagem, o entendimento do outro torna-se não só possível, mas necessário à própria sanidade.

            Edmund Husserl, pai da fenomenologia, influenciou profundamente o pensamento sobre empatia ao propor que a consciência do outro é acessada por meio da intencionalidade, ou seja, não apenas sentimos, mas sentimos com o outro. Sua discípula, Edith Stein, desenvolveu essa ideia em profundidade, tratando a empatia como uma forma de conhecimento direto da experiência alheia.

            Theodor Lipps foi outro pioneiro, associando empatia à estética e à psicologia: para ele, empatizar é projetar-se no outro, quase como um ato de imaginação emocional. Já Max Scheler via a empatia como uma forma de captar os sentimentos do outro sem confundi-los com os nossos — uma distinção sutil, mas essencial.

            Entre os clássicos, Arthur Schopenhauer dizia que “a empatia é a base da moralidade”, enquanto Immanuel Kant via a capacidade de colocar-se no lugar do outro como um imperativo ético. Martin Buber, com sua filosofia do “Eu-Tu”, defendia que a verdadeira relação humana só nasce quando reconhecemos o outro como sujeito, não como objeto.

            E não podemos esquecer Carl Rogers, psicólogo humanista, que fez da empatia uma pedra angular da escuta terapêutica, e Paulo Freire, que via na empatia uma ponte para a educação libertadora.

            E eu? Tento praticar esse entendimento, com os vizinhos barulhentos (no apartamento em frente ao meu, tem um cão que late a cada movimento no corredor que nos separa), com o motorista impaciente, com o amigo que desapareceu, e até com os algoritmos que me oferecem propaganda de meias fluorescentes (com base, sabe-se lá, em que partes da minha alma digital).

         "Compreendi verdadeiramente?" Um algoritmo que nos lembrasse que a maior complexidade não reside nos big data, mas na inesgotável profundidade da alma humana. E que, talvez, a eficiência verdadeira não esteja na velocidade da resposta, mas na profundidade da compreensão.

 

            Porque, afinal, compreender o outro é reconhecer que somos todos protagonistas de histórias que ninguém mais leu desde o prefácio. E que rir, lamentar-se ou odiar pode até render bons tweets, mas compreender... ah, compreender nos poupa de uma eternidade de mal-entendidos, e talvez até de usar meias fluorescentes por engano.

            Começo da prática. Ou ao menos, da tentativa honesta. Porque, como dizia um velho amigo estoico, “até a paciência tem paciência com quem a cultiva”. E arrematou: A vida é como uma cebola: descasque uma camada de cada vez, e às vezes, até chore."

         Eu, no meu algoritmo particular, prefiro pensar que a vida é como um bom vinho: quanto mais tempo você dedica a compreendê-lo, mais prazeroso ele se torna. E se, porventura, ainda assim o vinho não descer bem, não ria, não lamente, não odeie... apenas peça uma cerveja. Afinal, a compreensão, às vezes, também pode ser uma questão de bom gosto, e o bom humor, uma forma sublime de transcendência.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
 

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