A ARTE DA CONVIVÊNCIA
- Carlos A. Buckmann
- 10 de mai. de 2025
- 3 min de leitura

A ARTE DA CONVIVÊNCIA
Baruch Spinoza, filósofo judeu-holandês do século XVII, foi um dos pensadores mais audaciosos de sua época. Dotado de um espírito inquisitivo e de uma mente tão afiada quanto intransigente perante dogmas, construiu uma filosofia que privilegiava a razão e a liberdade. Expulso de sua comunidade judaica devido às suas ideias consideradas heréticas, dedicou-se à construção de um pensamento baseado na necessidade de compreender antes de julgar. Eis a essência do seu ensinamento: "Compreender é o começo do concordar." A sentença cunhada por Baruch Spinoza, devido à sua visão panteísta de Deus e da natureza, paradoxalmente nos legou um farol de lucidez para a intrincada arte da convivência. Sua recusa em aceitar uma cátedra na Universidade de Heidelberg, temendo cercear sua liberdade de pensamento, já prenunciava a integridade intelectual que permeia sua obra magna, a "Ética".
Debruçar-me sobre essa assertiva “spinozana” evoca profundas reflexões acerca da complexidade de nossa existência, tanto no âmbito individual quanto no intrincado palco da sociedade. Quão frequentemente nos vemos enredados em discórdias, azedando relações e erigindo muros de incompreensão? A gênese de tais conflitos reside, invariavelmente, na ausência de um esforço genuíno para internalizar a perspectiva alheia. Julgamos apressadamente, imbuídos de nossas próprias convicções, sem nos permitirmos a laboriosa tarefa de desvendar os meandros do raciocínio do outro, as experiências que moldaram suas crenças e os anseios que motivam suas ações.
O desacordo não raro nasce da ignorância, da resistência infundada àquilo que desconhecemos. Mas quando nos dispomos a escutar, a estudar e a examinar outras perspectivas, percebemos que a distância entre os polos opostos nem sempre é tão grande. O conhecimento torna-se ponte, e o que antes parecia incompreensível passa a fazer sentido.
No microcosmo de nossa individualidade, a máxima de Spinoza ressoa com igual veemência. Quantas vezes nos encontramos em luta inglória contra aspectos de nossa própria personalidade, resistindo a reconhecer nossas falhas e limitações? A autocompaixão, esse bálsamo para a alma atribulada, floresce justamente quando nos dedicamos a compreender as raízes de nossos temores, inseguranças e reações. Ao invés de nos flagelarmos com autocríticas severas, a busca pela compreensão de nossos próprios processos internos pavimenta o caminho para a aceitação e, consequentemente, para a possibilidade de transformação.
No domínio empresarial, a filosofia spinozana revela-se um manancial de sabedoria estratégica. Líderes que cultivam a escuta ativa e a empatia, buscando genuinamente compreender as necessidades, os anseios e as preocupações de seus colaboradores, tendem a edificar equipes mais engajadas, coesas e produtivas. A imposição unilateral de decisões, desprovida de diálogo e compreensão das diversas perspectivas presentes na organização, invariavelmente redunda em ressentimento e resistência. A compreensão mútua entre os membros de uma equipe, assim como entre a empresa e seus clientes, forja laços de confiança e lealdade, pilares essenciais para a sustentabilidade e o sucesso a longo prazo.
A jornada rumo à concórdia, seja ela interna ou externa, invariavelmente se inicia com a disposição de atravessar a ponte da compreensão. Exige humildade intelectual para reconhecer a validade de outros pontos de vista e a paciência para desvendar as intrincadas camadas da experiência humana. E como diria o próprio Spinoza, se ao menos dedicássemos metade da energia que gastamos em discutir para realmente entender o ponto de vista do outro, talvez o mundo seria um lugar onde as reuniões de condomínio seriam mais amenas que uma tarde de domingo no parque.
Mas se nem mesmo depois de longa reflexão chegarmos ao consenso, há sempre a opção democrática de pedir mais um café e continuar o debate. Afinal, grandes ideias não surgem de copos vazios!




Comentários