A ARTE ALÉM DA LENHA
- Carlos A. Buckmann
- 19 de mai. de 2025
- 3 min de leitura

A ARTE ALÉM DA LENHA
"Há quem passe por um bosque e só veja lenha para a fogueira," incrustada em sua obra Diários — um compêndio de reflexões íntimas e filosóficas do autor russo, Liev Tolstoi, ressoa com uma profundidade filosófica que transcende a singeleza da imagem campestre. Nela, o insigne escritor russo, nascido em 1828 na propriedade de Lasnaia Poliana e falecido em 1910, cuja vasta produção literária inclui clássicos atemporais como "Anna Karenina" e "Ressurreição," condensa uma crítica mordaz à estreiteza da percepção humana, à incapacidade de vislumbrar a beleza intrínseca e o potencial latente que permeiam o mundo. Tolstoi, com sua rica biografia marcada por uma profunda crise espiritual e uma subsequente busca por uma existência mais autêntica e voltada aos preceitos cristãos primitivos, legou-nos uma obra que frequentemente explora a dicotomia entre a superficialidade da vida mundana e a profundidade da experiência genuína.
Conhecido mundialmente por obras monumentais como Guerra e Paz e Anna Karenina, Liev Tolstói (1828–1910) foi não apenas um dos pilares da literatura russa, mas também um pensador inquieto e reformador moral. Após uma juventude marcada por luxos e inquietações existenciais, Tolstói passou por uma profunda transformação espiritual, abraçando uma vida de simplicidade e ética inspirada em princípios cristãos. Seus escritos posteriores, como A Confissão e O Reino de Deus Está em Vós, refletem essa busca por uma vida mais autêntica e conectada com valores universais.
Interpretar essa filosofia é assumir um compromisso com a sensibilidade. Ver o bosque como apenas lenha é uma metáfora para a visão estreita da vida: enxergar o outro apenas como meio para um fim, o trabalho apenas como sustento, a natureza apenas como recurso. No entanto, viver de forma plena exige mais — exige ver o bosque como refúgio, como beleza, como lar de vidas múltiplas e silenciosas. É cultivar um olhar que reconhece a dignidade em cada detalhe, mesmo nos aparentemente inúteis.
No âmbito pessoal, essa filosofia nos convida a olhar nossos relacionamentos com mais ternura e atenção. Quantas vezes reduzimos nossos vínculos a conveniências? Em sociedade, o pensamento “tolstoiano” denuncia o modo como sistemas políticos e econômicos, muitas vezes, veem os cidadãos como números ou engrenagens. No trabalho, é o alerta contra o automatismo, contra a desumanização de rotinas onde se perde o propósito maior — criar, cooperar, transformar.
Esse olhar mais profundo encontra eco em muitos outros pensadores. Henry David Thoreau, em Walden, defende a simplicidade voluntária e a comunhão com a natureza. Albert Schweitzer, médico e filósofo, pregava a “reverência pela vida” como princípio ético supremo. Até mesmo Fernando Pessoa, em sua persona de Alberto Caeiro, via na contemplação sensível da natureza uma forma de sabedoria.
Na história, figuras como Francisco de Assis — que via irmãos em lobos e árvores — e Gandhi, com sua ênfase na não-violência e na simplicidade, praticaram esse olhar mais profundo. A Revolução Industrial, por contraste, nos mostra os perigos do contrário: quando o mundo passou a ser visto como pura lenha — matéria bruta para alimentar a fornalha do progresso.
É claro que não se trata de negar a utilidade das coisas — o bosque também pode aquecer —, mas de não nos tornarmos cegos à sua beleza e mistério. Há uma diferença entre colher e devastar, entre usar e consumir, entre viver e apenas funcionar.
Talvez o verdadeiro desafio seja esse: manter os olhos da alma abertos enquanto os da razão calculam. Ver o invisível que se esconde nas aparências. Cultivar a poesia enquanto pagamos boletos. Reconhecer que nem tudo serve para algo — e que aí reside, muitas vezes, seu valor mais precioso.
E, se depois de tudo isso, você ainda insistir em ver lenha no bosque... ao menos prepare um bom chá e convide alguém para a conversa. Filosofar aquece mais do que fogo de brasa!




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