A APOSTA QUE NOS MOVE
- Carlos A. Buckmann
- 18 de jun. de 2025
- 3 min de leitura

A APOSTA QUE NOS MOVE
Folheio os Pensées de Pascal como quem recolhe fragmentos de uma grande tapeçaria filosófica. Não sigo ordem numérica, não busco um sentido encadernado, porque Pascal não escreveu um tratado, mas sim um convite ao pensamento errático, à reflexão dispersa, à contemplação inesperada. Cada “pensée” é uma centelha, e ao lê-las aleatoriamente, permito-me ser surpreendido por chamas de lucidez que ardem na escuridão da dúvida.
Em meio a essas chamas, surge uma das mais intrigantes proposições de Pascal: A APOSTA. Não é um argumento teológico convencional, não se baseia em dogmas ou revelações, mas sim na fria racionalidade dos cálculos. Se Deus existe, e eu creio, ganho infinitamente; se não existe, perco apenas o tempo devotado à fé. Se não creio e estou certo, aproveito prazeres finitos, mas, se estou errado, perco infinitamente. A racionalidade, portanto, convida ao salto de fé, não porque prova Deus, mas porque calcula o risco.
E aqui está o grande paralelo com a vida e os negócios: vivemos apostando. Cada projeto que iniciamos, cada sonho que cultivamos, cada decisão que tomamos é, em si, uma aposta semelhante à de Pascal. Empreender é crer num futuro que não se vê; investir em um sonho é arriscar-se ao ridículo e ao fracasso, mas também à grandeza. Nietzsche, ao exaltar a Vontade de Potência, falava de uma aposta contínua na superação do próprio ser. Schopenhauer, ao descrever o sofrimento como intrínseco à vida, apontava que apostar é inevitável: mesmo quem desiste do jogo já está fazendo uma escolha.
No livro “Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar,” Daniel Kahneman apresenta dois sistemas de pensamento que influenciam nossas decisões: o Sistema 1, rápido e intuitivo, e o Sistema 2, lento e deliberativo. Muitas de nossas escolhas são feitas pelo Sistema 1, que se baseia em heurísticas (atalhos mentais) e vieses cognitivos, levando-nos a apostas inconscientes. Por exemplo, o viés da ancoragem faz com que nossa percepção de valor seja influenciada pela primeira informação recebida, enquanto a aversão à perda nos leva a evitar riscos mesmo quando a aposta racional seria aceitá-los. Assim, nossas decisões diárias, sejam financeiras, profissionais ou pessoais, são apostas moldadas por padrões mentais que nem sempre percebemos.
Mas, voltemos um pouco mais a Nietzsche e Schopenhauer:
Nietzsche não fala diretamente em apostas, mas sua ideia de Vontade de Potência sugere que a vida é um jogo de riscos e superação. Para ele, a existência não deve ser vivida na passividade, mas sim como um processo dinâmico de transformação, onde o indivíduo busca constantemente expandir suas forças e afirmar sua existência. Esse impulso vital nos leva a apostar em desafios, a enfrentar o desconhecido e a criar novos valores. O conceito de Übermensch (Além-do-Homem - o Super Homem) reforça essa ideia: aquele que se arrisca e transcende suas limitações torna-se um criador de si mesmo. Nietzsche vê a aposta como um ato de coragem, onde o fracasso não é um fim, mas uma etapa necessária para a evolução.
Schopenhauer, por outro lado, vê a vida como uma aposta inevitável entre sofrimento e grandeza. Em sua visão pessimista, a existência é dominada pela Vontade, um impulso irracional que nos faz desejar incessantemente, gerando frustração e dor. Para ele, viver é arriscar-se ao sofrimento, pois a felicidade é efêmera e ilusória. No entanto, essa aposta não é apenas negativa: o sofrimento também pode levar à profundidade intelectual e à grandeza artística. Schopenhauer sugere que a arte e a contemplação são formas de transcender temporariamente essa dor, permitindo que o indivíduo encontre significado em meio ao caos. Assim, sua filosofia nos lembra que, mesmo na adversidade, há espaço para a grandeza.
Seja na tomada de decisões cotidianas, na busca pela superação ou na aceitação do sofrimento, a vida é uma aposta constante. Kahneman nos alerta sobre os vieses que influenciam nossas escolhas, Nietzsche nos incentiva a arriscar e superar, e Schopenhauer nos lembra que até o sofrimento pode ser uma aposta válida.
A aposta de Pascal transcende a questão religiosa e se impõe como metáfora da existência: não há vida sem risco, não há sucesso sem salto, não há certeza sem a coragem de abraçá-la. No fim, não apostar pode parecer prudente, mas é, ironicamente, a única maneira de garantir a perda.
E se alguém me perguntar sobre o desfecho da aposta, eu apenas sorrirei e direi: o segredo não é evitar o jogo, mas aprender a blefar com a vida.




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