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A ANSIEDADE COMO FRAGMENTAÇÃO MODERNA

  • Carlos A. Buckmann
  • 17 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

A ANSIEDADE COMO FRAGMENTAÇÃO MODERNA

            Na semana passada, li duas notícias que, à primeira vista, pareciam desconexas.        

            A primeira: um jovem executivo de trinta e dois anos, aparentemente bem-sucedido, carro novo, apartamento no centro, contas no Instagram com milhares de seguidores, desmaiou no metrô durante o horário de pico. Foi diagnosticado com surto de ansiedade aguda.

             A segunda: uma professora aposentada, de sessenta e oito anos, foi encontrada em seu apartamento após vizinhos notarem o silêncio incomum. Estava viva, mas imóvel, em estado catatônico de esgotamento emocional. Não havia violência, nem tragédia explícita, apenas o peso invisível de uma vida que, de tanto se dividir entre obrigações, redes sociais e solidão disfarçada de rotina, simplesmente desistiu de se manter inteira.

            Do ponto de vista da psicologia clínica, esses casos seriam lidos como manifestações de transtornos de ansiedade, talvez generalizada no caso da professora, talvez de pânico no do executivo.

            Beck diria que ambos sofrem de distorções cognitivas: pensamentos catastróficos, exigências irracionais de perfeição, medo constante do fracasso.

            Já a psiquiatria, com seu olhar bioquímico, apontaria desequilíbrios nos níveis de serotonina, noradrenalina ou cortisol, e prescreveria, com razoável eficácia, inibidores seletivos ou ansiolíticos. Não há dúvida de que essas abordagens salvam vidas. Mas salvam quais vidas? A do corpo? Sim. A da alma? Talvez não inteiramente.

            A filosofia, por sua vez, não se contentaria com o diagnóstico.

            Perguntaria: por que agora? Por que aqui?

            Heidegger diria que esses indivíduos perderam o cuidado, o “Sorge” (termo alemão que significa cuidado) pelo seu próprio ser. Vivem no “man” (o “eles”, o impessoal), repetindo gestos que não lhes pertencem, falando uma linguagem que não é sua.

            Foucault, com sua lente genealógica, veria nesses corpos ansiosos os efeitos de uma sociedade disciplinar que transformou a subjetividade em produtividade: ser é valer, valer é produzir, produzir é nunca parar.

            E Nietzsche? Ele diria que ambos esqueceram de dançar, de afirmar a vida mesmo diante do caos. Para ele, a ansiedade moderna é o lamento de um corpo que não consegue mais dizer sim ao mundo.

            É nesse entrelaçamento entre o sintoma e o sentido que surge a psicofilosofia, essa ciência híbrida que não apenas escuta o grito do corpo, mas também lê a poesia escondida nele.

             A psicofilosofia não pergunta apenas como o executivo chegou ao desmaio, mas o que ele deixou de viver para chegar lá. Não se limita a estabilizar a professora com medicação, mas busca restituir-lhe um projeto de existência: o que ainda a faz querer acordar? Aqui, a escuta é clínica e contemplativa ao mesmo tempo; o cuidado é terapêutico e ético. Inspiramo-nos em Viktor Frankl, que, mesmo nos campos de concentração, descobriu que o ser humano pode suportar quase tudo, menos a falta de sentido. E em Spinoza, que via a liberdade não como ausência de determinações, mas como compreensão delas, transformar a paixão em ação.

            No contexto atual, em que somos simultaneamente hiper conectados e profundamente fragmentados, a psicofilosofia se torna urgente. Vivemos em um tempo em que o EU é multiplicado em perfis, diluído em algoritmos, esvaziado em rotinas sem ritual.

            A ansiedade não é apenas um transtorno individual; é o sintoma coletivo de uma civilização que perdeu o fio da própria narrativa. Precisamos, então, de uma abordagem que cure não só a mente, mas o modo como habitamos o mundo.

            Eis a crítica: continuamos tratando os efeitos como se fossem causas, medicando a alma como se ela fosse um órgão isolado.

             Mas eis também a esperança: cada vez mais vozes, nas clínicas, nas ruas, nos silêncios, clamam por uma vida mais inteira.

            A psicofilosofia não promete curas milagrosas, mas oferece algo mais raro: a possibilidade de reencontrar a unidade entre o que sentimos, pensamos e vivemos.

            Nesse reencontro, talvez o metrô não seja mais um túnel de angústia, mas um lugar onde, mesmo entre tantos corpos apressados, alguém consiga, enfim, respirar, com alma e consciência.

 
 
 

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