A ALMA DE UMA NAÇÃO
- Carlos A. Buckmann
- 28 de jun. de 2025
- 4 min de leitura

A ALMA DE UMA NAÇÃO.
Sempre me perguntei onde reside o verdadeiro esteio de uma civilização. Uns diriam que é o ouro nos cofres, outros, a pujança das armas ou a amplitude dos territórios. Desde que iniciei minhas andanças intelectuais, outra pergunta sempre me acompanhou como sombra teimosa: o que é, afinal, cultura? Não apenas no sentido superficial das belas artes, da música erudita ou do refinamento dos costumes, mas no sentido profundo, como cimento invisível que sustenta o edifício das civilizações.
Zygmunt Bauman, com sua lucidez líquida, já advertia que a cultura, outrora instrumento de coesão e identidade, tornou-se mercadoria, um bem de consumo efêmero, fluido, sujeito às leis do mercado. Para ele, a cultura perdeu a missão de formar e passou a apenas entreter. Edgar Morin, por sua vez, via na cultura o entrelaçamento complexo de saberes, valores, mitos e práticas, o tecido simbólico que une uma comunidade. E Clifford Geertz a definia como "um sistema de significados herdados expressos em formas simbólicas", nos quais os homens depositam sua experiência.
É por essa razão que me detenho hoje na frase proferida por Xi Jinping no 19º Congresso do Partido Comunista Chinês:“A cultura constitui a alma de um país e de uma nação. Se a cultura for próspera, o país se tornará próspero; se a cultura for forte, a nação se tornará poderosa.”
A história oferece exemplos de sobra para validar tal proposição. As cidades-estado da Grécia Antiga, embora pequenas em território, foram imensas em espírito. Atenas, com sua filosofia, teatro e democracia nascente, moldou a base do pensamento ocidental. Roma não apenas dominou militarmente o mundo conhecido, mas espalhou sua cultura jurídica, sua língua e seus valores que ainda ressoam nos códigos civis contemporâneos.
Mais tarde, a Renascença italiana floresceu onde a cultura foi patrocinada como valor supremo. O Iluminismo francês preparou o terreno para as revoluções que transformaram o mundo. E não é coincidência que as nações que lideraram os grandes movimentos culturais tenham, invariavelmente, exercido hegemonia econômica, científica ou militar em seu tempo.
Contudo, o mesmo movimento que leva ao apogeu pode precipitar o declínio. Quando a cultura se fossiliza, ou pior, quando é destruída, corrompida ou manipulada, a civilização entra em colapso. Os impérios ruem não só por guerras ou crises econômicas, mas porque perdem o eixo de sua identidade.
Volto então meus olhos para o Brasil, essa nação de riquezas abundantes e de povo criativo, mas vítima de um empobrecimento cultural que se alastra como doença crônica. Nossa cultura, fragmentada entre o culto ao improviso, à esperteza e à alienação, perdeu seu vigor como força transformadora. A educação pública está relegada a segundo plano. O debate intelectual foi trocado pela polarização histérica. E o senso estético do cotidiano se viu reduzido ao espetáculo da vulgaridade televisiva e do algoritmo das redes sociais.
Enquanto isso, povos como os da Noruega, Suécia e Dinamarca demonstram, de forma quase silenciosa, o que uma cultura bem cultivada pode fazer. Lá, a cultura do coletivo se sobrepõe ao individualismo desagregador. A valorização da leitura, da ética pública, do debate democrático e da solidariedade formam um “ethos” nacional que gerou políticas públicas eficientes, baixíssimos níveis de corrupção e a quase extinção da miséria material.
Não foi milagre. Foi cultura. Cultivar o espírito é tão necessário quanto semear o trigo.
Por isso, creio que a transformação do Brasil não virá apenas de reformas econômicas ou políticas, mas de uma revolução cultural, no sentido mais profundo do termo. Uma mudança que comece nas escolas, nas famílias, nas mídias e nos hábitos cotidianos. Uma cultura que valorize o mérito sem descuidar da compaixão. Que cultive o conhecimento, o diálogo e a responsabilidade cívica. Que recupere o orgulho de pensar, não de repetir.
E se hoje há uma batalha cruenta ocorrendo no mundo, ela não é apenas por territórios ou mercados, mas por narrativas. O maior perigo que enfrentamos não é a escassez de recursos, mas o colapso dos significados. A cultura do poder sem limites, do ego inflado, do consumo sem freio e da verdade manipulada ameaça empurrar a humanidade rumo a um abismo ético e existencial.
Num mundo cada vez mais entregue à cultura do consumo, do algoritmo e da dominação sem freios, temo que estejamos trocando sabedoria por eficiência, verdade por influência, e liberdade por vigilância voluntária. O poder, quando sem limites e sem cultura, se torna cego, e cega a todos à sua volta.
Por isso escrevo, nesta manhã silenciosa, não como quem ensina, mas como quem implora: cultivemos a alma do país antes que ela se torne apenas ruína sem nome.
Cabe a nós, escritores, professores, cidadãos atentos, soprar brasas sobre as cinzas da cultura adormecida. Pois, como advertiu Xi Jinping, e agora repito com convicção: se a cultura for forte, a nação será poderosa. Se a cultura definhar, pereceremos como sombras de um passado que não soubemos honrar.
Beto Buckmann
Crônicas entre ideias e pólvora




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