A ALMA DA TRISTEZA
- Carlos A. Buckmann
- 16 de mai.
- 3 min de leitura

A ALMA DA TRISTEZA (*)
(Da série A FILOSOFIA NA MPB)
Adoniran Barbosa, o poeta das esquinas do Bexiga. Filho de italianos que trouxeram na bagagem a saudade e a cachaça, João Rubinato, seu nome de batismo, transformou o lirismo das ruas em filosofia popular.
Ali, entre os becos de paralelepípedos e os bares de mesa de fórmica, ele aprendeu que a tristeza não é inimiga, é vizinha de quarto, que bate à porta sem pedir licença.
Suas canções, dessas que a academia ignora mas o povo guarda no peito, ensinam algo que os tratados de ética frequentemente esquecem: a dor, quando bem acompanhada, vira sabedoria.
Pegue uma dessas canções. “Bom dia, Tristeza”. A filosofia ali não está nos conceitos, mas nos gestos.
“Bom dia, tristeza / Que tarde, tristeza / Você veio hoje me ver / Já estava ficando até meio triste / De estar tanto tempo longe de você”
O poeta cumprimenta a tristeza como quem cumprimenta um velho amigo.
Espinosa diria que toda afecção da alma é uma passagem a uma potência maior ou menor. Mas Adoniran vai além: a ausência da tristeza também dói. É a nostalgia da melancolia.
Quantos de nós, em meio ao frenesi feliz das redes sociais, não sentem falta de uma tarde chuvosa e silenciosa? A tristeza, por paradoxal que pareça, nos lembra que somos vivos. Sem ela, a alegria vira histeria. Por isso o lírico boêmio a recebe com “bom dia”, porque já estava cansado de uma alegria superficial, dessas que vendem em pacotes de viagem.
“Se achegue, tristeza / Se sente comigo / Aqui nesta mesa de bar”
Eis o ritual filosófico por excelência: convidar a dor para sentar-se à mesa. Os estoicos recomendavam o controle das paixões. Schopenhauer, a resignação. Adoniran, mais sábio que ambos, convida a tristeza para beber.
Porque o bar é o lugar onde as máscaras caem.
Ali, sob a luz amarelada e o cheiro de cigarro, não há performance. Há apenas um copo e um ombro. O poeta não foge da tristeza, ele a acomoda no banco ao lado. Isso é mais corajoso do que qualquer estoicismo: é aceitar que a noite escura da alma também merece companhia.
Atualidade? Olhe ao redor. Quantos não sentam sozinhos em bares, diante do celular, com medo de encarar o próprio vazio? Adoniran já sabia: o primeiro passo é dizer “se chegue”.
“Beba do meu copo / Me dê o seu ombro / Que é para eu chorar”
Nietzsche escreveu que é preciso ter caos dentro de si para gerar uma estrela dançante. Mas o caos, quando partilhado, deixa de ser abismo e torna-se encontro.
A troca de copo e ombro é a forma mais primitiva e mais alta de comunhão: dar da sua própria substância e receber o amparo do outro.
A filosofia acadêmica chama isso de intersubjetividade. O bêbado do Bexiga, chama de amizade. E quanta filosofia há nisso! Porque chorar sozinho é desespero; chorar sobre o ombro da tristeza é catarse. E a tristeza, nesse instante, vira mãe, irmã, amante.
“Chorar de tristeza / Tristeza de amar”
Amar é condenar-se à perda. Platão sabia: o amor é filho da falta. Freud completou: o objeto amado é sempre substituído.
Mas Adoniran reduz a equação a cinco palavras. Tristeza de amar não é arrependimento, é a certeza de que valeu a pena. O choro, aqui, não é vitimismo. É liturgia. É o rito de passagem de quem entende que a alegria plena não existe, mas o afeto verdadeiro deixa cicatrizes que merecem ser choradas.
Eternamente atual: quantas músicas de hoje falam do “sofrimento por amor” com a mesma dignidade? Poucas. A maioria romantiza a dor; Adoniran a celebra como parte da existência, sem vergonha nem exibicionismo.
Adoniran, chapéu de palha e olhos cansados, sentado à mesa do bar. Ele não escreve poemas, escreve bilhetes para a vida. Sua filosofia popular é essa: a tristeza não precisa ser curada, apenas acolhida. Ela chega sem avisar, mas se for bem recebida, ensina mais do que mil livros.
Hoje, ao acordar, eu também disse “Bom dia, tristeza”. Ela puxou a cadeira, pediu um gole do meu café e ficou em silêncio.
Não chorei. Mas, se chorasse, sei que ela me emprestaria o ombro. Porque, no fundo, a tristeza não abandona quem a reconhece como parte de si.
Adoniran, lá do seu eterno boteco no céu do Bexiga, deve estar sorrindo, com lágrimas nos olhos, claro, ao ver que ainda há quem saiba dar bom dia a Tristeza.
(*) Assista o clip no YouTube




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