top of page

A AGONIA DA ESPERANÇA

  • Carlos A. Buckmann
  • 21 de mai. de 2025
  • 3 min de leitura

A AGONIA DA ESPERANÇA

            Confesso que sempre desconfiei da esperança. Não por desprezar seus encantos — tão doces e luminosos quanto as promessas da infância —, mas por saber o quanto ela pode se transformar em cárcere. Esperar é, por vezes, um modo elegante de adiar o inevitável, ou pior, de recusar o real. A esperança, quando excessivamente cultivada, torna-se uma ilusão bem-vestida, sentada no sofá da alma, tomando chá enquanto o mundo desaba pela janela.

            Essa ambiguidade não é nova. Vem desde os antigos gregos. Conta-se que Pandora, a primeira mulher criada por Zeus, abriu uma caixa — ou um jarro, segundo traduções mais rigorosas — da qual escaparam todos os males do mundo: a dor, a guerra, a velhice, a doença, a miséria. Mas algo permaneceu preso no fundo: a esperança. Há quem diga que ela ficou retida como último consolo, uma dádiva a suavizar as dores humanas. Outros — mais céticos, mais nietzschianos — acreditam que ela permaneceu ali como o mais cruel dos males, pois nos mantém presos ao sofrimento com promessas de alívio que nunca se cumprem.

            Foi Simone de Beauvoir quem me lançou esta inquietação definitiva: “É horrível assistir à agonia de uma esperança.” A frase, que encontrei sublinhada em um antigo exemplar de A Força das Coisas, me sacudiu com a força de um espelho honesto. Simone, a filósofa existencialista, escritora e ícone do feminismo do século XX, nasceu em 1908 e fez de sua vida uma revolução constante contra o papel passivo reservado às mulheres — e, por extensão, a todos os que apenas esperam. Companheira de Sartre, com quem partilhou ideias e rupturas, Beauvoir desafiou convenções e escreveu como quem lança âncoras na tempestade.

            Desde que li essa sentença, não consigo mais pensar na esperança como algo puro e inofensivo. É verdade que ela nos aquece nas noites frias da dúvida. É ela que sussurra, quando tudo desaba: “ainda não acabou”. No entanto, há um ponto perigoso em que a esperança se recusa a morrer, mesmo quando tudo em volta já está morto. E ali, nesse ponto, começamos a definhar com ela.

            As vantagens de ter esperança são claras: ela é a faísca que acende projetos, o farol que guia navegadores perdidos, o sopro que empurra os cansados. Ela alimenta os sonhadores, inspira os criadores e consola os aflitos. Mas quando se torna morada permanente, em vez de ponte para a ação, degenera-se. Esperar demais é abdicar de agir. É como tentar atravessar o oceano esperando que a maré faça todo o trabalho.

            Na vida pessoal, já me vi muitas vezes esperando: por reconhecimento, por mudanças alheias, por um momento ideal que nunca chegou. Em sociedade, a esperança excessiva é irmã gêmea da apatia. Quantos povos esperam por justiça enquanto ela é fabricada com as mãos de poucos? No mundo dos negócios, esperar pode ser fatal. O empreendedor que aguarda o “melhor cenário” para agir pode ver o mercado passar diante dos olhos como um trem que não para. O caminho da superação exige que se transcenda a espera e se adote a iniciativa. Individualmente, devemos transformar esperança em estratégia e movimento. Em sociedade, é necessário cultivar a cultura da ação e da inovação. Nos negócios, a expectativa deve ser acompanhada do planejamento e da execução audaciosa.

            Outros pensadores também denunciaram esse engodo esperançoso. Nietzsche dizia que “a esperança é o pior dos males, pois prolonga o sofrimento do homem”. Sêneca advertia: “A esperança é o alimento dos que sofrem.” Ambos, como Beauvoir, sabiam que a virtude da esperança só vale se andar de mãos dadas com a ação. Jean-Paul Sartre, filósofo e companheiro intelectual de Beauvoir, compartilhava desse pensamento ao afirmar que "o homem está condenado a ser livre"—ou seja, livre para agir e moldar o próprio destino. Voltando a Nietzsche, em sua obra, este rejeitava a passividade da esperança vazia, conclamando o indivíduo a tornar-se um criador, e não um espectador.

            É preciso, então, converter a esperança em energia. Individualmente, devemos cultivar o que chamo de “esperança operante” — aquela que não se contenta em aguardar, mas provoca, move, transforma. Em sociedade, temos de exigir, participar, construir — sem esperar por um “alguém” que nunca vem. E nos negócios, a chave está na ousadia de testar, errar, corrigir e seguir — porque mercado não espera sonhadores: ele premia realizadores.

            Ao final, compreendo que a esperança, para não morrer em agonia, precisa realizar seu destino: ser o primeiro passo, não o último. Ser verbo, não substantivo.

            E se me perguntarem o que fazer quando a esperança parece estar nas últimas, respondo com um sorriso: dê a ela uma xícara de café e ponha-a para trabalhar. E, parafraseando um certo otimista inveterado, digamos que a esperança é a última que morre, mas se depender só dela, a defunta já está marcando hora extra no caixão.

 

 

 
 
 

Comentários


CONTATO

Porto Alegre, RS 

​​

Tel: (51) 9 9259-6364

Skype: betobuckmann​

betobuckmann@yahoo.com.br

Nós recebemos a sua mensagem, aguarde contato.

  • LinkedIn - Círculo Branco
  • Facebook - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle
  • YouTube - Círculo Branco

© 2023 por Hugin. Criado orgulhosamente com Wix.com

bottom of page