A ACEITAÇÃO COMO BERÇO DA VERDADEIRA HUMANIDADE
- Carlos A. Buckmann
- 17 de nov. de 2025
- 3 min de leitura

A ACEITAÇÃO COMO BERÇO DA VERDADEIRA HUMANIDADE
Nasci nu de carne, mas também nu de sentido.
Quando meus pulmões, pela primeira vez, ousaram beber o ar do mundo, não foi só oxigênio que buscavam, era pertencimento.
Acho que todos nós chegamos assim: desamparados, mas com um grito silencioso por acolhimento. E foi nos braços daqueles que nos viram antes de nós mesmos nos vermos que esse grito encontrou eco. O seio materno, mais que alimento, era promessa: “Você pertence”. Esse gesto primitivo de aceitação, o calor do toque, o olhar que não julga, o colo que não questiona, é o primeiro solo onde a alma planta suas raízes. Sem ele, o mundo exterior se torna hostil antes mesmo de ser compreendido.
Carl R. Rogers, psicólogo humanista, escreveu com rara sensibilidade:
“Seres humanos necessitam de aceitação, e quando essa lhes é dada movem-se em direção da autorrealização.”
Esta frase, aparentemente simples, carrega o peso de uma verdade existencial: só florescemos quando somos vistos, não como deveríamos ser, mas como somos. Não como idealizações, mas como seres concretos, falhos, pulsantes, contraditórios.
Jacques Lacan, por sua vez, ao falar do “estádio do espelho”, mostrou que nossa identidade se forma na relação com o olhar do Outro. Não somos apenas nós mesmos; somos também o que o outro vê em nós. Se esse olhar é hostil, distorcido, condicionado a exigências irreais, nossa imagem interna se quebra. Se, ao contrário, é um olhar acolhedor, não ingênuo, mas compassivo, então nos damos permissão para existir plenamente.
Emmanuel Levinas diria que nesse encontro ético com o rosto do outro reside a própria condição da humanidade: aceitar o outro em sua alteridade é o ato mais revolucionário que podemos praticar.
Mas a aceitação não é passividade, nem complacência.
Aceitar alguém não é ignorar suas falhas, mas reconhecê-las como parte de sua jornada, e acreditar, mesmo assim, em sua capacidade de crescer.
No cotidiano, isso se traduz em escutar sem interromper, em validar sentimentos sem julgá-los, em permitir que o outro erre sem apagar sua dignidade. É no silêncio compreensivo de um amigo após uma confissão, na paciência de um professor diante de um aluno lento, no respeito de um colega por uma opinião divergente, aí reside a verdadeira aceitação.
A aceitação também se revela nos espaços digitais e sociais onde mais sentimos sua ausência. As redes sociais, por exemplo, transformaram-se em arenas de julgamento instantâneo, em que o “cancelamento” substitui o diálogo e a divergência vira motivo de exclusão. Nos ambientes virtuais de trabalho, a pressão por performance muitas vezes sufoca a singularidade de cada colaborador, como se todos precisassem caber em um molde único. Até mesmo nas relações cotidianas, vemos a intolerância travestida de pragmatismo: opiniões divergentes são descartadas, vulnerabilidades são ridicularizadas, e a diferença é tratada como ameaça. É justamente nesses cenários que a aceitação se torna mais urgente, não como indulgência, mas como resistência ética contra a desumanização.
No mundo do trabalho, é onde mais se sente sua ausência, e sua urgência. Muitas empresas ainda tratam o colaborador como recurso, não como ser. Confundem produtividade com perfeição, e exigência com exigência desumana.
Mas os gestores mais lúcidos, e os profissionais de RH mais humanos, sabem que um time só se autorrealiza quando cada membro sente-se acolhido em sua totalidade: com suas forças, sim, mas também com suas vulnerabilidades, com seus modos próprios de pensar, sentir e fazer.
Viktor Frankl, sobrevivente de Auschwitz e fundador da logoterapia, ensinou que o ser humano precisa de sentido para viver, mas esse sentido só se revela quando há espaço para ele ser ele mesmo. Em ambientes onde a aceitação reina, as pessoas não apenas produzem mais; elas inovam, colaboram, criam. Porque, finalmente, respiram.
Aceitação plena do outro, com suas limitações, suas contradições, seu jeito único de tropeçar e levantar, é um ato de coragem. É reconhecer que ninguém é um projeto inacabado a ser corrigido, mas um mistério a ser habitado com respeito.
E nesse reconhecimento, ambos, quem aceita e quem é aceito, evoluem. Crescemos juntos, não apesar das diferenças, mas por causa delas.
Vivemos em tempos de intolerância mascarada de pragmatismo, de meritocracia disfarçada de exclusão. Precisamos resgatar a aceitação como valor central, não como sentimentalismo barato, mas como política existencial.
Porque só na aceitação o ser humano encontra o caminho de volta a si mesmo.
E, talvez, seja esse o maior gesto de humanidade que podemos fazer: devolver ao outro o direito de existir, inteiro, imperfeito e livre.
Beto Buckmann
Crônicas entre ideias e pólvora




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