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VIVER É UMA ARTE

  • Carlos A. Buckmann
  • 20 de abr.
  • 3 min de leitura

VIVER É UMA ARTE

            Tenho notado, nestes dias, um certo envenenamento no ar.

            As pessoas já não conversam. Gritam. Xingam. Preferem o ódio ao diálogo. Esquecem que vivemos sob o mesmo céu, as mesmas leis, o mesmo país. As religiões se atacam. As famílias se despedaçam.

            Diante disso, senti falta de ar. E fui buscar refúgio onde sempre esteve: na minha própria estante.

            Reli, então, um velho amigo de papel. “A Arte de Viver”, do monge vietnamita Thich Nhat Hanh.

            Ele morreu há poucos anos, mas seus ensinamentos parecem mais vivos do que nunca. Ou talvez mais necessários.

            Aos dezessete anos entrou para o monastério. Tornou-se poeta, acadêmico, ativista da paz. E nos deixou uma ciência, sim, ciência, chamada “mindfulness”. Consciência plena.

            Não se engane: este não é um livro de autoajuda.

            Autoajuda nos promete felicidade em dez passos. Thich Nhat Hanh nos ensina algo mais difícil: que a felicidade permanente é uma utopia. O que podemos ter é uma vida boa, plena. E isso se conquista com prática, não com promessas.

            O que nos impede? Nossa errônea visão de que somos seres isolados. Reduzidos a esse corpo que chamamos de “eu”. E que buscamos o amor e a alegria lá fora, como se fossem objetos perdidos.

            O monge nos apresenta três chaves para a libertação.

            A primeira: a vacuidade.

            Palavra assustadora, não? Mas ele a desfaz com delicadeza: “Vacuidade significa estar repleto de tudo, mas vazio de uma existência isolada.”

            Ou seja: não somos ilhas. Somos oceanos. “O planeta inteiro é uma célula gigante, viva”, escreve. Todas as partes unidas em simbiose.

            Enquanto pensamos no passado ou no futuro, nossa mente sai do corpo. Não vivemos o agora. Por isso ele corrige Descartes: “Penso demais, logo existo, mas não vivo minha vida.”

            A segunda chave: a ausência de imagem.

            Aprendemos então que a morte não é o fim. É transformação. Continuação.

            “A morte é essencial para tornar a vida possível.”

            Confesso que faz tempo que não temo a morte. Entendi, com os anos, que ela é apenas o fim de uma jornada. Toda jornada tem um fim. Não podemos mudar isso.

            O que importa é o aqui. O agora. O instante em que estamos vivos e conscientes de nossa finitude.

            Thich Nhat Hanh vai além: “Se sentimos medo, raiva ou tristeza frente à morte, significa que continuamos presos a noções incorretas de vida e morte. Seu corpo não é seu eu. Você é muito mais do que o seu corpo.”

            A terceira chave: a ausência de objetivo.

            Parece contraditório num mundo que nos cobra metas, resultados, conquistas. Mas ele é claro: “Você já é o que pretende se tornar. Você é uma maravilha. Você é um milagre.”

            Isso não significa ausência de propósito.

            Não precisamos correr atrás de nós mesmos. Já estamos aqui. A prática da consciência plena nos ensina a parar de buscar e começar a ser.

            Eis o que aprendo com esse monge de olhar sereno: a arte de viver não é uma coleção de técnicas para ser feliz. É uma ciência da presença. Um treinamento da atenção.

            Quando estou plenamente consciente, não sou escravo do passado nem refém do futuro. Sou, enfim, livre.

            E que liberdade é essa? A de saber que sou parte de um todo. Que meu corpo não me aprisiona. Que a morte não me aniquila, mas me transforma.

            Mas, e aqui faço minha crítica, vivemos tempos que cultivam exatamente o oposto.

            As redes sociais nos empurram para fora de nós mesmos. O ódio é performático. A raiva é compartilhada em corrente. Ninguém medita, todos gritam.

            E o pior: confundem-se agressividade com autenticidade. Calma com covardia. Silêncio com omissão.

            Thich Nhat Hanh nos lembra, com sua suavidade inabalável, que a paz não é passividade. É a forma mais ativa de estar no mundo.

            É preciso coragem para não odiar. É preciso força para não xingar. É preciso alma para dialogar.

            Talvez a única saída seja mesmo a mais difícil:

            Parar.

            Sentar.

            Respirar.

            Não como fuga.

            Como resistência.

            Como a mais profunda forma de dizer: eu existo, eu vivo, eu escolho a consciência plena.

            Porque, no fim, a arte de viver é simples: é estar inteiramente onde se está. Com o corpo e a mente no mesmo lugar. Com o coração aberto, mesmo quando o mundo insiste em fechar o seu.

            Thich Nhat Hanh me ensinou isso.

            Eu, destes meus oitenta anos, só posso agradecer.

            E tentar praticar.

            Um instante de cada vez.

 
 
 

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