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O DUPLO CANTO DA SOMBRA

  • Carlos A. Buckmann
  • há 11 minutos
  • 7 min de leitura

O DUPLO CANTO DA SOMBRA

(Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS)

            Aquela noite, tinha o ar parado de um jardim antes da tempestade. As luzes, que nunca sabiam de onde vinham, pendiam como frutas maduras sobre as mesas, derramando uma claridade âmbar que fazia as sombras parecerem mais densas do que os corpos. O balcão de madeira, onde eu polia uma xícara com um pano que nunca se sujava, tinha uma rachadura que ninguém se lembrava de quando aparecera, mas que todos os frequentadores respeitavam como uma cicatriz no rosto de um velho amigo.

            A música de fundo era um prelúdio de Chopin, aquele em ré bemol maior que os pianistas chamam de "Gotas de Chuva". As notas caíam como pingos espaçados, cada uma carregando o peso de uma ausência. Não era tristeza, exatamente, era a tristeza que a alegria tem quando se lembra de que vai acabar.

            Num canto, uma mulher de cabelos grisalhos desenhava em um guardanapo espirais que se fechavam sobre si mesmas, como caracóis de tinta. Em outra mesa, um homem de terno azul-escuro lia um jornal cujas letras se moviam lentamente, trocando de lugar como formigas em um formigueiro distraído. Perto da janela, que não dava para lugar nenhum, uma menina de vestido branco segurava uma flor que não murchava, e a observava com a atenção de quem espera uma revelação.

            Federico García Lorca chegou com o barulho de uma guitarra que ainda não foi tocada. Seus olhos escuros varriam o espaço como quem procura por uma mancha de sangue no asfalto, não porque quisesse encontrá-la, mas porque sabia que ela estava lá. Vestia um terno claro, um pouco desalinhado, e nos dedos trazia um anel de prata que parecia absorver a luz em vez de refleti-la. Sentou-se sem esperar permissão, como quem ocupa um lugar que sempre foi seu.

            “Há um cheiro de jasmim neste lugar, disse, com a voz que era quase um canto. E de luto. O luto que as coisas têm quando sabem que são belas demais para durar.”

            Servi-lhe um café com leite, que ele aceitou com um gesto de mão que era ao mesmo tempo um agradecimento e um afastamento.

            “Estou esperando alguém, disse olhando o líquido como se lesse uma cartomancia. Um poeta que nunca conheci, mas que sempre esteve comigo. Como a noite, que está sempre ali, mesmo quando não a vemos.”

            Rainier Maria Rilke chegou sem que eu tivesse visto a porta se abrir. Sua presença era a de um homem que já esteve em todos os lugares sem nunca ter saído de seu quarto. Os olhos pálidos, de um azul que parecia desbotado pelo uso, percorreram o ambiente com a lentidão de quem está acostumado a contar as horas pela queda das pétalas. A barba grisalha, o casaco escuro, as mãos que descansavam sobre a mesa como dois animais que haviam desistido de caçar.

            “O senhor é Lorca, afirmou sem ser pergunta. Eu li seus poemas em traduções que nunca faziam jus à música. Mas a música, eu aprendi, não se traduz. Ela apenas espera.”

            “E o senhor é Rilke, respondeu Lorca, com um sorriso que tinha a gravidade de uma ferida recente. Eu li suas Elegias de Duino, e soube que não era possível ler poesia depois delas. Só era possível recomeçar do zero, como quem aprende a andar depois de um naufrágio.”

            Rilke inclinou a cabeça, e o movimento trouxe à luz uma ruga que ele tinha entre os olhos, uma ruga que parecia ter sido desenhada por um lápis de carvão.

            “Recomeçar do zero é a única coisa que o poeta faz, Federico. Cada poema é um primeiro poema. O que escrevemos antes não nos ajuda; nos atrapalha. Porque o poema não vem da experiência, mas da falta de experiência. Da sede que a experiência não sacia.”

            O silêncio entre eles não era vazio; era como a pausa entre dois acordes que ainda não decidiram se vão se harmonizar ou se desmentir.

            A falta, disse Lorca, mexendo o café com uma colher que parecia dançar.  Eu falo em presença. Mas talvez sejam a mesma coisa. Na Andaluzia, aprendi que a ausência é a forma mais pura da presença. O luto não é a falta do morto, é a presença da falta. Como um quarto vazio que está mais cheio do que qualquer quarto habitado.”

            Rilke olhou para a janela, mas não viu a neblina que se movia do lado de fora. Viu, talvez, a torre de Duino, o castelo à beira do mar onde as elegias nasceram.

            “Escrevi as Elegias porque precisava entender por que o belo é tão terrível, Federico. Não no sentido moral, mas no sentido ontológico. Por que a beleza nos atravessa como uma lança? Por que ela nos faz chorar quando deveria nos fazer sorrir? Aprendi que a beleza é apenas o começo do terror que ainda podemos suportar. E isso, meu caro, é a definição mais precisa do sublime que encontrei.”

            Lorca levou a mão ao peito, como se sentisse a ponta da lança.

            “Eu, Rainier, escrevi ‘Romanceiro Gitano’ porque precisava cantar o que não podia ser dito. O cante jongo, o canto profundo da minha terra, vem da garganta, não da lógica. Não é um poema sobre a morte, é a morte cantando. O senhor fala em terror; eu falo em duende. O duende é o que faz o artista tremer na hora de criar. Não é inspiração, é posse. É a sombra que entra no corpo e diz: Agora quem canta sou eu."

            A mulher dos espirais ergueu os olhos por um instante, como se ouvisse na conversa um eco daquilo que desenhava. A menina do vestido branco tocou a flor com a ponta dos dedos, e a flor pareceu se curvar ligeiramente em direção à voz de Lorca.

            Rilke pegou a xícara que eu lhe servira, um chá claro que fumegava como uma respiração fria e a segurou sem beber, como quem aquece as mãos em uma fogueira imaginária.

             “O duende, eu reconheço nele o anjo das elegias. Não o anjo dos altares, mas o anjo terrível que nos olha com olhos que já viram a totalidade. O anjo não nos consola; ele nos mostra o que somos, e o que somos é tão pequeno que só a poesia pode mediar o encontro.”

            Lorca riu, um riso que era quase um soluço.

            “O senhor e eu, Rainier, somos dois espelhos frente a frente. O senhor vê o infinito e descreve a distância que nos separa dele. Eu vejo o finito e canto a distância que nos une a ele. O senhor escreve para os que partem; eu escrevo para os que ficam. Mas ambos escrevemos para os que esperam. A espera, não a chegada, é o verdadeiro poema.”

            “E ainda assim, disse Rilke, pousando a xícara sem ter bebido, o senhor foi assassinado. Sua vida foi cortada como um verso que não se completa. Eu, que vivi mais, carrego o peso de ter sobrevivido a todas as elegias que ainda não escrevi. Qual de nós é mais poeta, Federico? O que morreu cantando ou o que continua cantando depois de tudo?”

            Lorca inclinou-se sobre a mesa, e seus olhos brilharam com uma luz que vinha de dentro.

            “O poeta não é o que morre nem o que sobrevive, Rainier. O poeta é o que o poema faz com quem o lê. Eu fui baleado no amanhecer, mas meu sangue escreveu nas pedras da Andaluzia o que a história não pôde apagar. O senhor viveu no exílio, mudou de língua, perdeu países, mas cada perda foi uma estrofe. A vida do poeta não está na vida, está na obra que a vida não conseguiu conter.”

            Rilke fechou os olhos, e por um momento pareceu ouvir a música de Chopin como se fosse a primeira vez.

 

            A menina do vestido branco, naquele instante, deixou a flor cair no chão. Mas a flor não fez barulho; ela apenas flutuou como uma pluma, e a menina sorriu, como se tivesse entendido algo que os adultos nunca entenderão.

            Rilke abriu os olhos, e neles havia uma umidade que não era lágrima, mas o orvalho da manhã sobre a grama de um cemitério.

            O prelúdio de Chopin chegou ao fim, e o silêncio que se seguiu era tão denso que eu podia ouvir o barulho das espirais no guardanapo da mulher grisalha, o virar das páginas do jornal que se moviam como barcos em um mar de palavras.

            Lorca e Rilke ficaram em silêncio por muito tempo. Não era o silêncio de quem não tem o que dizer, mas o de quem já disse tudo e agora apenas habita o que disse. Depois, Lorca levantou-se, ajustou o paletó, e foi em direção à porta que não levava a lugar nenhum. Antes de sair, virou-se:

            “Adeus, Rainier. O senhor é o poeta que eu gostaria de ter lido antes de escrever. Para saber que a solidão que eu sentia era uma forma de companhia.”

            “Adeus, Federico. O senhor é o poeta que me ensinou que o cante profundo não vem da garganta, mas do vazio que a garganta deixa quando o canto acaba.”

            E então ele se foi, e Rilke ficou sozinho com seu chá intocado, olhando para a janela como quem espera que o anjo terrível finalmente apareça, não para anunciar a chegada, mas para confirmar a partida.

            Mais tarde, quando o café se esvaziou e a neblina começou a engolir as mesas como se fossem ilhas em um mar de esquecimento, peguei meu caderno de guardanapos.

             Aprendi, naquela noite, que a poesia não é um gênero literário, é um modo de habitar a perda. Lorca e Rilke, cada um a seu modo, haviam me mostrado que o poema não responde à pergunta da vida; ele faz a pergunta mais bela que a vida jamais ousará fazer.

            Escrevi, com a caneta que sempre vazava tinta invisível:

            "A beleza não é o que vemos, é o que vemos e sabemos que não podemos guardar."

            E guardei o guardanapo no bolso, onde ele se juntaria a tantos outros, como as pétalas que a menina do vestido branco deixou cair, pétalas que, mesmo caídas, ainda florescem.

 
 
 

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