VIAGEM NA MADRUGADA
- Carlos A. Buckmann
- 21 de abr.
- 4 min de leitura

VIAGEM NA MADRUGADA
Na madrugada silenciosa, quando o mundo ainda dorme e os pensamentos, liberados das amarras do dia, ganham asas de libélula, ouvi a canção. “Viagem”, de Paulo Cesar Pinheiro.*
O vinho da melancolia já havia sido servido, mas a música entrou como um clarão discreto. E então, verso a verso, fui viajando comigo mesmo.
“Oh! Tristeza me desculpe, estou de malas prontas / Hoje a poesia veio ao meu encontro / Já raiou o dia, vamos viajar”
Peço perdão à tristeza, essa velha companheira de madrugadas. Mas hoje ela fica. A poesia, que muitas vezes se esconde nos interstícios do cotidiano, resolveu se revelar, não como busca, mas como encontro.
Eis o primeiro paradoxo filosófico: o que nos move não é a fuga da dor, mas a percepção de que a luz já rompeu o horizonte. Viajar, então, não é abandonar; é aceitar o convite do instante. O dia já raiou dentro de mim.
“Vamos indo de carona na garupa leve / Do vento macio que vem caminhando / Desde muito longe, lá do fim do mar”
Que peso carregamos, senão o da nossa própria resistência? O vento não pede documentos, não exige planejamento. Ele vem de onde o olhar não alcança, do fim do mar, que é o começo de tudo.
Montar em sua garupa é aprender a leveza como ato filosófico: desapegar da ilusão do controle. O vento caminha sem pressa, porque o tempo, para ele, é apenas uma curva no espaço. Assim quero seguir: sendo levado, mas atento.
“Vamos visitar a estrela da manhã raiada / Que pensei perdida pela madrugada / Mas que vai escondida querendo brincar”
Quantas estrelas julgamos extintas apenas porque a noite as cobriu?
A estrela da manhã nunca se perdeu; apenas brincava de esconde-esconde com minha miopia. Eis a lição socrática: o que buscamos desesperadamente já está ali, disfarçado de jogo. A madrugada, com seu manto escuro, me fez acreditar na ausência. Mas o raiar do dia revela que a perda era apenas um ponto de vista. Visitar a estrela é revisitar minha própria cegueira.
“Senta nessa nuvem clara, minha poesia / Anda se prepara, traz uma cantiga / Vamos espalhando música no ar”
A nuvem é instável, etérea, feita de vapor e promessa. E, no entanto, ela suporta.
A poesia senta-se ao meu lado como uma criança que não precisa de lógica. Preparar uma cantiga é organizar o caos em notas, tarefa de todo filósofo que não desistiu da beleza. Espalhar música no ar: ato gratuito, sem destinatário certo. Talvez a verdadeira sabedoria seja essa generosidade inútil, que enche o vazio de harmonia sem pedir nada em troca.
“Olha quantas aves brancas, minha poesia / Dançam nossa valsa pelo céu que o dia / Fez todo bordado de raio de Sol”
As aves brancas não sabem que dançam uma valsa composta por nós. Mas dançam. O céu é um bordado feito de raios de Sol, linhas de luz que o dia tece com paciência divina. Aqui me ocorre: a criação não é monopólio do homem.
O mundo já é poesia em movimento; nós apenas a nomeamos. Dançar com as aves é reconhecer que não somos donos da melodia, mas podemos, por um instante, acompanhá-la.
“Oh! Poesia me ajude, vou colher avencas / Lírios, rosas, dálias pelos campos verdes / Que você batiza de jardins do céu”
Colher flores é um ato de violência gentil. Arrancamos a beleza de sua raiz para contemplá-la de perto.
A poesia, então, me ajuda a não confundir posse com amor. Os campos verdes que ela batiza de “jardins do céu” são territórios do impossível, onde o efêmero vira eterno pela nomeação. Preciso da ajuda da poesia para não esquecer que toda colheita é também uma despedida.
“Mas pode ficar tranquila, minha poesia / Pois nós voltaremos numa estrela guia / Num clarão de Lua quando serenar”
A volta é promessa, não amarra.
Voltaremos não como quem retorna à gaiola, mas como quem reentra no próprio peito por uma porta nova. A estrela guia não é um mapa, é uma confiança. O clarão de Lua quando serena, momento em que a alma aquieta seus ventos. Serenar é verbo raro, quase esquecido. Significa deixar que o sal se dissolva na água mansa. Voltar, então, não é regredir; é amadurecer o círculo.
“Ou talvez até quem sabe nós só voltaremos / No cavalo baio, no alazão da noite / Cujo nome é raio, raio de luar”
E quem sabe não voltaremos nunca?
Ou voltaremos sempre, em cada raio de luar que corta a escuridão como um cavalo sem cavaleiro.
O alazão da noite tem nome de relâmpago silencioso, raio que não destrói, mas ilumina. Essa incerteza final é a mais filosófica das moradas: talvez a viagem nunca termine, e o retorno seja apenas uma nova partida disfarçada.
Montar nesse cavalo é aceitar que o destino é o próprio andar. A canção termina, mas a madrugada ainda é a mesma.
O silêncio volta a envolver a sala, porém diferente, agora povoado de ventos, estrelas brincantes, aves brancas e cavalos de luar.
Deixo a tristeza na cadeira, com um bilhete:
“Volto logo, ou talvez não. Mas, se não voltar, é porque encontrei o caminho de continuar indo.”
E, no fone ainda quente, a última nota se dissolve como um raio que se faz brisa.
Afinal, já raiou o dia. Vamos viajar.
*PAULO CESAR PINHEIRO (28/04/1949) escreveu essa letra aos 13 anos de idade e foi musicada pelo seu parceiro João de Aquino.
(Acesse o link para ouvir a música): https://youtu.be/VMllQZPcwhc?si=myGPv1w4tr0b4khc




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