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ILUMINISTAS

  • Carlos A. Buckmann
  • há 23 horas
  • 6 min de leitura

ILUMINISTAS

(Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS)

            O Café Entre Fluxos, naquela manhã chuvosa, parecia uma ideia à espera de nascer. A chuva fina que caía desde a madrugada não era daquelas que alagam ruas, mas da que molha devagar, como quem pensa. As gotas escorriam pelos vidros das janelas em caminhos imprevisíveis, cada uma seguindo sua própria geometria, como se a água também tivesse livre-arbítrio. O cheiro de terra molhada entrava pelas frestas, misturando-se ao aroma do café que eu ainda não tinha feito.

            Quando cheguei para abrir o estabelecimento, nove horas no relógio da matriz, três vultos aguardavam na porta. Não estavam abrigados, mas também não pareciam molhados, a chuva atravessava-os como se fossem feitos de uma matéria mais sutil, dessas que o tempo não consegue corroer. Reconheci-os antes que dissessem palavra: David Hume, com o seu ar de cético bem alimentado e a bondade nos olhos; Johann Wolfgang von Goethe, ereto como uma coluna alemã, os olhos que pareciam conter todas as cores; e Thomas Paine, o franzino, com o fogo revolucionário ainda aceso no olhar.

            Entraram antes que eu os convidasse, como quem já conhece o lugar de outras vidas. Escolheram a mesa redonda, a maior, a que fica debaixo do candeeiro que mais ilumina. Hume sentou-se com a desenvoltura de quem sabe que tudo é provável; Goethe, com a solenidade de quem sabe que tudo é significativo; Paine, com a impaciência de quem sabe que tudo é urgente.

            “Três cafés”, pediu Hume, olhando para os outros em busca de confirmação. “E um bolo, se tiver. A razão recomenda que se comece o dia com açúcar.”

            Os outros concordaram com acenos.

            Goethe acrescentou: "Com leite, se possível. A observação atenta dos fenômenos naturais ensina-me que o leite suaviza o amargor sem lhe roubar a verdade".

            Paine limitou-se a dizer: "Preto, como as manhãs de inverno em Filadélfia".

            Na vitrola, sem que ninguém tocasse, começou a ouvir-se uma sonata de Mozart, a número 16 em dó maior, essa que parece feita de luz e matemática. A música iluminista perfeita para três homens que foram luz num século que ainda aprendia a acender candeeiros.

            Os personagens daquela manhã eram poucos, mas escolhidos. Um livreiro que folheava um volume de enciclopédia com a devoção de quem reza. Uma jovem que escrevia cartas para destinatários incertos, talvez para o futuro. Um velho que lia Voltaire e ria sozinho, como se o mundo ainda fosse uma piada compreensível.

            “Então é verdade, começou Hume, após o primeiro gole, que o senhor, Goethe, escreveu um romance que fez jovens europeus vestirem-se de azul e amarelo e saltarem de pontes? Li sobre isso. ‘Os Sofrimentos do Jovem Werther’. Dizem que foi um fenómeno.”

            “Foi, sim, respondeu Goethe, com um sorriso que misturava orgulho e culpa. Escrevi-o em quatro semanas, num turbilhão de juventude. Quis mostrar como um coração sensível pode ser destruído pela desproporção entre o que sente e o que o mundo lhe oferece. O que não esperava é que tantos jovens lessem o livro como manual de autodestruição. Tive de escrever um segundo prefácio a dizer que não, que não era para se matarem.”

            “A literatura é uma pistola carregada, disse Paine, com a sua voz cortante. Quem a maneja sem saber o que faz, fere-se. O senhor, Goethe, feriu alguns. Mas também curou muitos. Mostrou que a sensibilidade extrema é uma forma de nobreza, não de fraqueza.”

            Hume saboreou o bolo antes de falar.

            “Eu, que passei a vida a mostrar que as paixões governam a razão mais do que a razão governa as paixões, li o seu Werther como uma confirmação. O rapaz não morre por falta de razão; morre por excesso de sentimento. E a sociedade, que devia acolher esses sentimentos, vira-lhe as costas. É aí que eu entro com a minha filosofia: se a moralidade nasce do sentimento, como defendo no ‘Tratado da Natureza Humana’, então uma sociedade que ignora os sentimentos é uma sociedade que ignora a própria moral.”

            Goethe inclinou-se para a frente, interessado.

            “O senhor, Hume, foi acusado de ateísmo, não foi? De querer destruir os fundamentos da religião?”

            “Fui, sim. Mas nunca fui ateu. Fui cético. Há diferença. O ateu afirma que Deus não existe; o cético limita-se a dizer que não podemos saber se existe. Os meus ‘Diálogos sobre a Religião Natural’ não negam Deus; negam a nossa capacidade de O conhecer pela razão. Se Deus existe, é matéria de fé, não de filosofia.”

            “A fé!” Paine quase cuspiu a palavra. “A fé é o que os tiranos usam para dominar os tolos. Eu escrevi ‘A Idade da Razão’ para mostrar que a razão basta. Deus deu-nos inteligência para a usarmos, não para a subordinarmos a mitos antigos. A minha religião é a justiça, a minha igreja é a revolução.”

            Hume ergueu a sobrancelha, mas não recuou.

            “O senhor, Paine, tem o entusiasmo dos que acreditam demais. Eu prefiro a moderação dos que duvidam um pouco. A sua revolução americana, a sua defesa dos direitos do homem, tudo isso é nobre. Mas cuidado: a razão sem dúvida vira tirania. O seu ‘Senso Comum é um panfleto brilhante, mas o senso comum, quando se arma, também pode enforcar.”

            A sonata de Mozart, entretanto, dera lugar a uma ária mais melancólica, talvez da "Flauta Mágica", o momento em que Pamina canta a sua dor. A música parecia querer lembrar-lhes que a razão também tem limites.

            “Fale-nos das suas obras, pediu Goethe a Paine. Eu conheço o ‘Senso Comum’, que li em Weimar com admiração. Mas o que mais escreveu?”

            "Os Direitos do Homem, em resposta a Burke, que chamou à revolução francesa um monstro. Mostrei que os direitos não são privilégios concedidos pelos reis, mas atributos naturais de cada ser humano. E A Idade da Razão, que já mencionei. Este último custou-me caro: fui chamado ateu, blasfemo, quase fui preso ao regressar a Inglaterra.”

            “E eu, disse Goethe, escrevi muito mais do que o Werther. O ‘Fausto’, em que trabalho há décadas, é a minha verdadeira obra. Um homem que vende a alma ao diabo não por dinheiro ou poder, mas por conhecimento. O Fausto sou eu, somos todos nós: a ânsia de saber que nos salva e nos perde.”

            “Conhecimento”, repetiu Hume. “O meu ‘Ensaio sobre o Entendimento Humano’ é sobre isso: o que podemos saber e o que devemos, humildemente, ignorar. A mente humana é limitada, meus caros. As nossas ideias vêm das impressões dos sentidos; o resto é fantasia. Causalidade? É hábito, não necessidade. O sol nasce todos os dias, mas não há garantia de que nascerá amanhã.”

            O diálogo alongou-se pela manhã dentro. Falaram de projetos: Goethe do seu interesse pela ciência, da teoria das cores com que pretendia corrigir Newton; Hume da história da Inglaterra que escreveu para ser lida, não para ser erudita; Paine do sonho de uma ponte de ferro que desenhou para unir comunidades, acreditando que a engenharia também era liberdade. Falaram das repercussões: Goethe da fama que o sufocava, Hume da indiferença inicial que deu lugar ao reconhecimento tardio, Paine da perseguição que o acompanhou até à morte.

            A manhã avançava e os outros clientes iam e vinham. O livreiro fechou a enciclopédia e saiu a sonhar com sabedoria; a jovem das cartas selou o envelope com um beijo e partiu para o correio; o velho que ria sozinho fechou Voltaire e saiu a murmurar que o mundo, apesar de tudo, ainda tinha graça. Só eles ficaram, os três gigantes, na mesa redonda debaixo da luz.

            No final da conversa, Hume sorriu, sarcástico:

            “Digo o mesmo que disse no meu tempo: duvidai. Duvidai dos que prometem certezas, duvidai dos que invocam Deus ou a pátria, duvidai até de vós mesmos. A dúvida é o único antídoto contra o fanatismo.”

            “Olhai”. Sentenciou Goethe. “Olhai a natureza, olhai a arte, olhai os outros. O saber não está só nos livros, está no mundo. O meu Fausto só encontra redenção quando aprende a ver o que está diante dos olhos.”

            Paine, com a voz vibrante, afirmou: “Lutai. Os direitos não se pedem, conquistam-se. A razão sem ação é estéril. O século das luzes não acabou; apenas adormeceu. Acordai-o.”

            A chuva lá fora tinha parado. Um sol tímido começava a espreitar por entre as nuvens, como se o tempo também quisesse fazer as pazes com a razão. Levantaram-se quase ao mesmo tempo. Hume deixou sobre a mesa uma moeda “para pagar a conta, que a razão recomenda a honestidade". Goethe deixou uma rosa, dessas que cultivava em Weimar. Paine deixou uma pena de escrever, gasta de tanto proclamar.

            Despediram-se com apertos de mão e por encanto, volatizaram-se, três homens que souberam que a liberdade se constrói devagar, com dúvida, com olhar, com luta.

            No meu livro de guardanapos, anotei com a caneta de tinta invisível a frase que Goethe deixou cair ao sair:

            "Saber não é suficiente; é preciso aplicar. Querer não é suficiente; é preciso fazer."

 
 
 

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