VENTANIA
- Carlos A. Buckmann
- 2 de mai.
- 5 min de leitura

VENTANIA (*)
(Da série A FILOSOFIA NA MPB)
Vandré soube, na carne e na memória, que certas palavras pesam mais que ferro.
Não foi apenas o lápis dos censores que tentou apagar seus versos: houve salas sem janelas, mãos que batiam antes de perguntar, o zumbido elétrico da máquina opressora do DOI-CODI tentando arrancar-lhe a canção do peito.
Mas a canção sobreviveu, ventania não se prende em gaveta.
O homem que perdeu o cavalo continuou andando, e nesse andar germina uma filosofia inteira. Proponho irmos juntos, meus senhores, minha senhora, por essa estrada que a letra abre.
“Andei pelo mundo afora / Querendo tanto encontrar / Um lugar pra ser contente / Onde eu pudesse mudar”.
Aqui mora a grande ilusão geográfica, a crença de que o deslocamento é cura. Heráclito já nos alertava que ninguém se banha duas vezes no mesmo rio, mas esquecemos que tampouco o viajante é o mesmo.
Mudar de lugar não muda a vida se o coração viaja empacotado. O cronista anônimo de Vandré descobre na sola do pé a verdade áspera: o nomadismo sem transmutação é fuga, não caminho.
“Mas a vida não mudava / Mudando só de lugar”.
Que ironia tão contemporânea! Abarrotamos aeroportos, migramos de cidade em cidade, de avatar em avatar, e repetimos os mesmos gestos vazios. Heidegger chamaria de “decaída” essa agitação que apenas entretém. A vida exige outra mudança: a que faz do espaço um lugar habitado por sentido.
“Que a morte que eu vi no campo / Encontrei também no mar”.
Se a finitude é horizonte comum de vaqueiros e jangadeiros, então todo labor convive com o mesmo esperar. O destino não se esconde na paisagem: está na condição humana. Camus enxergaria ali uma solidariedade essencial, o absurdo compartilhado não suprime o sofrimento, mas nos impede de estarmos sós diante dele.
“Boiadeiro, jangadeiro iguais / No mesmo esperar / Que um dia se mude a vida / Em tudo e em todo lugar”.
Ernst Bloch forjou a imagem do “princípio esperança”: o ainda-não-consciente que nos empurra adiante. Quem canta não anuncia um paraíso provável, e sim a teimosia onírica de que a vida pode ser outra coisa. O esperar se revela verbo ativo, força coletiva que desassossega o presente.
“Já soltei o meu cavalo / Já deixei a plantação / Eu já fui até soldado / Hoje muito mais amado / Sou chofer de caminhão”.
É o instante da metamorfose. Soltar o cavalo é despir a armadura de ontem, abandonar o posto fixo, a lavoura, o quartel, para enfrentar o mundo sem garantias.
Nietzsche diria que o espírito deixou de ser camelo carregando fardos e de leão a rugir contra o “tu deves”; agora, talvez, ensaia a criança que joga. O caminhão não é só veículo: é o corpo do homem que trocou o lombo do animal pela roda, o plantio pela travessia, a obediência castrense pela solidariedade das estradas.
“Já gastei muita esperança / Já segui muita ilusão / Já chorei como criança / Atrás de uma procissão”.
A desilusão é filosófica. Todo filósofo genuíno já viu seus ídolos tombarem e suas certezas virarem cinza. Mas o choro de criança atrás de procissão não é fraqueza; é reconhecimento do anseio que não morre. Kierkegaard diria que só quem experimenta o desespero íntimo toca a possibilidade da fé autêntica, ou, aqui, da coragem de andar sem imagens santas à frente.
“Mas já fiz correr valente / Quando tive precisão”.
A valentia não é virtude de heroísmo estampado, e sim resposta ética à necessidade concreta. É a coragem do cotidiano que, segundo Hannah Arendt, nasce no espaço entre os homens, quando agimos juntos por um mundo comum. O “valente” da canção não guerreia por glória: corre porque a precisão, a urgência do outro, convoca.
“Saudade vira poeira / Na estrada e no coração”.
O tempo tritura memórias. Mas a poeira não é esquecimento; é matéria leve que gruda na pele e avisa de onde viemos. A estrada acolhe a saudade e a transforma em paisagem. O vento da direção levanta essa poeira como uma névoa que lembra sem aprisionar.
“Amor pra moça bonita / Respeito pra contramão”.
Respeitar a contramão é afirmar a pluralidade do real. O pensamento único é estrada reta que conduz ao abismo. O caminhoneiro ama a vida e reconhece o direito à diferença. É uma ética do encontro: o mão e contramão se cruzam sem se colidir, desde que haja atenção e não traição.
“Riso franco, peito aberto / Vou cantar minha canção / Se você não vive certo / Se não ouve o coração / Não se chegue muito perto / Não perdoo traição”.
Aqui se esculpe uma fidelidade a si mesmo que transborda em convívio. Sócrates aconselhava: “conhece-te a ti mesmo”. Vandré canta: “ouve o coração”. Quem não cumpre esse mandamento interior torna-se um perigo, uma presença que trai por não ser inteira. A canção é o abrigo dos que riem com o peito aberto.
“De setembro a fevereiro / O que vir não vou negar / Rodando país inteiro / Norte, sul, sertão e mar / Aprendi ser tão ligeiro / Que ninguém vai segurar”.
É uma fenomenologia da estrada: acolher o que vem, sem fuga, mas também sem fixar-se em parada definitiva. A rapidez ligeira não é pressa, é disponibilidade, a ligeireza de quem aprendeu a dançar com as curvas do tempo. Gilbert Simondon falaria de uma “transdução” contínua, um vir-a-ser que amplia o ser.
“Fui vaqueiro e jangadeiro / No campo e no litoral / Cantador serei primeiro / Cantando não por dinheiro / Por justo anseio geral”.
A gratuidade do canto confessa sua raiz política. Não se canta por mercado, canta-se porque o justo anseio geral queima na garganta. É o que o jovem Marx vislumbrava: uma atividade que não fosse trabalho alienado, e sim expressão da humanidade livre. O cantador é primeiro, porque a voz não pede licença e o desejo de justiça não espera calendário eleitoral.
Disse no início que Vandré perdeu o cavalo e continuou andando. Mas a verdade maior é que ele soltou o cavalo por vontade própria, ao perceber que a liberdade tem cascos mais largos que a propriedade.
O caminhão agora cruza a nação carregando não mercadoria, e sim a ventania de uma canção que jamais sossega. A máquina opressora tenta parar o homem que canta, mas o vento é mais forte que o motor da repressão.
Ventania: sopro que levanta poeira de saudade, faz girar cata-vento de esperança e arranca portas de armários onde escondem corpos torturados.
Nesse redemoinho filosófico, o cantor se despede com os olhos na estrada.
O cavalo se foi.
A plantação ficou para trás.
Mas o homem continua andando, e seu caminhão é a própria música atravessando noites e censores, com riso franco e peito aberto, a lembrar que nenhum opressor segura o que o coração inteiro põe em movimento.
(*) Assista o clip no YouTube




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