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UMA FILOSOFIA AS AVESSAS

  • Carlos A. Buckmann
  • 12 de mai.
  • 4 min de leitura

UMA FILOSOFIA AS AVESSAS (*)

(Da série A FILOSOFIA NA MPB)

            Enquanto o dia se esgueira pelas frestas da janela, recordo de Rita Lee e Roberto de Carvalho, seu parceiro de vida e de arte.

            Compuseram juntos essa joia rara que é “Cor de Rosa Choque”. Rita, a musa mutante, a paulista que ousou rir do sarcófago do rock, e Roberto, o guitarrista silencioso que lhe deu a mão e a harmonia. Em meio a ditaduras e cinzas, eles fizeram florescer uma rosa que não se contenta com o jardim. Uma rosa que belisca.

            “Nas duas faces de Eva / A bela e a fera / Um certo sorriso de quem nada quer.”

            Eva, a primeira mulher fabricada por costela, carrega em si o estigma da maçã. A bela que desobedeceu, a fera que sentiu vergonha.

            O filósofo Søren Kierkegaard diria que todo instante humano se desdobra entre o infinito e o finito, o possível e o necessário. Nesse sorriso de “quem nada quer” há a potência do desapego, não por fraqueza, mas por uma sabedoria anticonsumista da alma.

            A mulher, Rita, nos canta, não precisa querer algo para ser inteira. Ela simplesmente é. Hoje, em tempos de produtividade histérica, esse sorriso é um manifesto.

            “Sexo frágil / Não foge à luta / E nem só de cama vive a mulher.”

            Que lógica perversa chamar de “frágil” quem sangra todo mês e ainda assim levanta de madrugada para cozinhar, trabalhar, amar, cuidar?

            Michel Foucault nos ensinou que o poder não se exerce apenas com porretes, mas com discursos, e o discurso do “sexo frágil” é uma jaula dourada.

            Rita estilhaça a jaula: a mulher não foge à luta porque a luta é sua sombra caminheira. E a cama, bem, a cama é apenas um dos móveis da casa. Simone de Beauvoir, décadas antes, já afirmara que não se nasce mulher, torna-se. E Rita completa: torna-se na briga, não no lençol.

            “Por isso, não provoque / É cor de rosa choque.”

            O rosa, essa cor condenada à infância e à doçura, é aqui injetada de adrenalina. Rosa choque: um neon que fere a retina masculina do bom senso.

            Quando Rita ordena “não provoque”, ela inverte a ameaça. O provocador, aquele que silva elogios cretinos na esquina, que toca a campainha do corpo alheio, torna-se objeto de uma provocação maior. O rosa choque é o olhar devolvido, é a resposta sem pedido de licença.

            O filósofo Emmanuel Levinas falava do rosto do outro como apelo ético. Aqui, o rosto (e o batom) é um alerta: cruze essa linha, e a rosa te morde.

            “Mulher é bicho esquisito / Todo o mês sangra / Um sexto sentido maior que a razão.”

            O sangue menstrual: o recibo da finitude e da renovação. A filosofia ocidental, tão afeita à luz grega e à transparência masculina, nunca soube o que fazer com esse “líquen” vermelho que não é ferida, mas ritmo.

            Julia Kristeva chamaria isso de “abjeto”, o que é expulso do sistema simbólico para que ele funcione. Rita, ao contrário, o exibe como um troféu. E o “sexto sentido maior que a razão”, eis aí uma provocação ao racionalismo cartesiano.

            Não há nada mais filosófico, afinal, do que desconfiar da razão sozinha. As mulheres, aprendemos com Rita, sentem o mundo pelas bordas. Não por intuição mística, mas por uma necessidade histórica de sobrevivência. Acostumaram-se a ler entrelinhas antes que as linhas fossem escritas.

            “Gata borralheira / Você é princesa / Dondoca é uma espécie em extinção.”

            A Cinderela, a órfã submissa às cinzas, escuta do outro lado da canção: você é princesa. Mas princesa aqui não é título de espera passiva. É reconhecimento de uma majestade que dispõe de castelos. E a “dondoca”, a mulher que se define por não fazer nada, que se adorna como troféu de um homem, essa, Rita anuncia com humor darwiniano, está em extinção. Não por acaso, mas por inutilidade adaptativa.

            O mundo contemporâneo, com suas chefes de estado, motoristas de aplicativo, cientistas e encanadoras, já não comporta o fóssil da parasita de salão.

            O filósofo Herbert Spencer (quem diria) falava da sobrevivência do mais apto. Rita ri de Spencer e troca “apto” por “autônomo”.

            Rita e Roberto. Dois que se encontraram na contramão do mundo. O rosa choque não é apenas uma cor. É o nome filosófico de um afeto que não se deixa domesticar.

            Quando Roberto dedilhava o acorde, Rita soprava a letra como quem sopra fogo.

            Essa parceria me lembra o philia dos antigos, o amor que não se consome no leito, mas se expande na criação.

            Eles fizeram da vida um estúdio, e da canção, uma trincheira florida.

 

            Ao ouvir “Cor de Rosa Choque”, entenda: não é apenas uma melodia. É um tratado de existência escrito com batom na parede do patriarcado.

            Não provoque. O rosa que você vê é o mesmo que, se acuado, sangra, sorri e luta.

            Como Eva, como a gata borralheira, como Rita.

            Sempre Rita.

            E Roberto ao lado, guitarra em punho, confirmando que a delicadeza também pode ser um escudo.

            Termino: com o cor-de-rosa latejando na retina.

            E um certo sorriso de quem tudo quer,

            Só que à sua própria maneira.

(*) Assista o clip no YouTube

 
 
 

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