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UM VELHO MOÇO

  • Carlos A. Buckmann
  • 27 de abr.
  • 3 min de leitura

UM VELHO MOÇO

(Da série A FILOSOFIA NA MPB)

            Na busca por canções que carreguem o peso da filosofia, minha memória resgatou Taiguara.

            Não o mito distante, mas o compositor inquieto, nascido no Uruguai em 1945 e criado no Brasil, que fez do piano e da voz um ofício de interrogar a existência.

            Exilado pela ditadura, retornou com a mesma coragem com que enfrentava as perguntas sem resposta. Sua obra, que se encerrou precocemente em 1996, é um testamento de sensibilidade social e metafísica. E foi justamente essa a canção que me escolheu: “O Velho e o Novo”(*). Uma análise lírica e cortante sobre a finitude humana.

            “Deixa o velho em paz / Com as suas histórias de um tempo bom / Quanto bem lhe faz / Murmurar memórias num mesmo tom / A sua cantiga, revive a vida / Que já se esvai / Uma velha amiga, outra velha intriga / E um dia a mais”

            Deixar o velho em paz é respeitar o gesto de murmurar o que já foi.

            A repetição das histórias não é senilidade, mas um modo de tecer coesão na duração.

            Bergson nos diria que a memória é a sobrevivência do passado no presente, uma forma de o espírito se furtar à mera sucessão mecânica. Reviver a vida que se esvai na cantiga é um ato de resistência contra o aniquilamento. As “velhas amigas” e “velhas intrigas” são os contornos de um mundo que insiste em permanecer, enquanto o dia a mais é a pequena eternidade concedida a cada novo amanhecer.

            “Vão nascendo as rugas / Morrendo as fugas a as ilusões / Tateando as pregas / Se deixa entregue às recordações”

            As rugas são o mapa da facticidade. Elas inscrevem no corpo o que Heidegger chamou de ser-para-a-morte: a certeza de que somos tempo e de que toda fuga é vã.

            Morrem as ilusões de permanência e a entrega às recordações não é fraqueza, mas o recolhimento autêntico de quem já não precisa projetar-se para longe. Tatear as pregas é tocar a própria história, aceitar os sulcos como testemunhas de que a vida foi vivida.

            “Em seu dorso farto / Carrega o fardo de caracol / Mas espera atento / Que o céu cinzento lhe traga o sol”

            A espera atenta pelo sol, vinda do céu cinzento, lembra Camus: é preciso imaginar Sísifo feliz, mesmo na náusea do absurdo. A esperança aqui não é juvenil, mas madura; é a espera que brota da lucidez e não das ilusões. O sol basta, mesmo que tarde.

            “Ele sabe o mundo / O saber profundo de quem se vai / O que não faria / Pudesse um dia voltar atrás”

            O saber da despedida é o mais profundo, porque nasce do irrevogável. Quem está de partida vê o mundo do limiar, com a clareza de quem já não tem tempo a perder.

            O lamento pelo que não foi feito ecoa a máxima de Sêneca: “Uma grande parte da vida se esvai fazendo o mal, a maior parte fazendo o nada, toda a vida fazendo o que não se devia”.

            O desejo de voltar atrás é o reconhecimento trágico de que a existência é irrepetível. Kierkegaard o chamaria de a angústia da possibilidade perdida.

            “Range o velho barco / Lamento amargo do que não fez / E o futuro espelha / Esse mesmo velho que são vocês”

            O barco a ranger é a própria vida em seu crepúsculo. Cada rangido é um “não” ao que ficou por realizar.

            Mas a estrofe dá um passo para além da melancolia: o futuro espelha o velho nos que agora escutam. O velho é o novo que está por vir. É o “memento mori” dirigido não ao passado, mas ao jovem que crê na eternidade.

            Taiguara nos lembra que todos somos este velho em gestação, e que talvez a única forma de apaziguar o lamento seja viver de modo que o barco, ao ranger, cante um hino em vez de um lamento.

            Fecho os olhos e revejo Taiguara. Partiu aos 51 anos, na idade em que muitos apenas começam a murmurar memórias.

            Ele não teve o dorso farto do velho da canção, mas carregou o fardo lúcido de quem sabia do tempo.

            Sua voz, que cantou a finitude, é hoje a velha amiga que me visita enquanto escrevo.

            Eu, o cronista, também sou o presente do velho que sou, e o novo que ainda range.

            Que o céu cinzento de minhas horas traga o sol da urgência: viver antes que o espelho me mostre o que não fiz.

(*) Assista o vídeo no YouTube

 
 
 

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