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UM PÉ DE VENTO

  • Carlos A. Buckmann
  • 20 de abr.
  • 3 min de leitura

UM PÉ DE VENTO

            Eis que me recolho, enfim, em férias, essas tréguas que a alma concede ao corpo depois de tantas batalhas miúdas.

            Levo comigo um livro. Apenas um.

            Escolhi Maya Angelou, Poesia Completa. Não por acaso. Talvez porque, no fundo, todo viajante procure menos uma paisagem nova do que uma nova maneira de ver o que já trazia dentro de si.

            Sou homem de rotinas. Não por medo do imprevisto, mas por necessidade de chão.

            O espírito, quando não encontra ritmo, esfarela-se como areia. Uma dessas minhas pequenas cerimônias é esta: antes de qualquer leitura, seja ela de filosofia, de ficção ou de contas a pagar, leio um poema. Apenas um. Como quem acende um fósforo para enxergar o quarto antes de nele entrar.

            Nestes dias de descanso, os poemas foram todos de Maya. E ela me bastou.

            Quem foi Maya Angelou? Pseudônimo de Marguerite Ann Johnson. Nasceu em 1928, no Missouri. Morreu em 2014. Negra, mulher, poeta, professora, ativista. Aos quinze anos, motorista de ônibus. Primeiro emprego. Já ali, nesse fato mínimo, há uma filosofia inteira: aos quinze, com o corpo ainda frágil de adolescente, ela já conduzia máquinas pesadas por ruas hostis. Conduzia-se a si mesma.

            Amiga de Malcolm X. Companheira de Martin Luther King.

            Mas não me apego às biografias. O que importa, para mim, é o que fica na página. E o que fica é uma poesia telúrica, negra em sua essência, não por cor, mas por resistência. Porque ser negro na América do século XX era, e ainda é, recusar-se a desaparecer.

            Ela escreveu, entre tantos versos:

"Você queria me ver destroçada? 

Com a cabeça curvada e 

Os olhos baixos? 

Ombros caindo como lágrimas, 

Enfraquecidos pelos meus gritos 

De comoção? 

(...) 

Você pode me fuzilar com 

Suas palavras. 

Você pode me cortar com seus olhos, 

Você pode me matar com seu ódio, 

Mas ainda, como o ar, eu vou me 

levantar.”

            Como o ar. Não como rocha, não como aço.

            Como ar. Porque o ar não se defende, ele simplesmente está. E, estando, ocupa todo o espaço que lhe negam. Levantar-se como o ar é a forma mais silenciosa e definitiva de vitória.

            Dela guardo uma frase que me encontrou desprevenido. E que, desde então, me acompanha como um eco estoico, daqueles que Sêneca talvez assinasse:

            "A gente só é livre quando vê que não pertence a lugar algum, mas sim a qualquer lugar, lugar algum mesmo. O preço é alto. A recompensa é ótima."

            Penso nisso agora, nestas férias que se despedem, eu que já morei em dezenas de cidades desse imenso Brasil. O preço alto: não ter um chão definitivo, uma identidade fixa, uma bandeira para enrolar o corpo nas noites frias.

            A recompensa ótima: poder ser, em qualquer lugar, inteiramente si mesmo. Porque quem não pertence a lugar algum não pode ser expulso de parte alguma.

            Mas permitam-me um giro crítico, já que esta crônica precisa fechar-se como um círculo.

            Volto ao início. Às férias. Ao livro de cabeceira. Ao ritual matinal de ler um poema antes da meditação.

            Pois bem: quantos de nós, em nome da produtividade, abolimos esses pequenos rituais? Quantos de nós acreditamos que ler um poema é perda de tempo, enquanto o tempo, justamente ele, nos escorre pelos dedos como água?

            Vivemos uma era de pertencimento obrigatório.

            Pertencemos a plataformas, a métricas, a prazos, a opiniões alheias. Pertencemos a tanto que esquecemos o preço que pagamos: a liberdade de não pertencer.

            Maya Angelou, aos quinze anos, motorista de ônibus, já sabia. Sêneca, na corte de Nero, já sabia. O estoico não é aquele que resiste ao mundo com violência, mas aquele que, como o ar, simplesmente se levanta, e ocupa o espaço que lhe é devido.

            Minhas férias acabam. O livro voltará à estante. Mas toda manhã, antes de qualquer leitura, um poema. Uma fósforo. Um respiro. E então, como o ar, me levantarei.

            A recompensa, ainda que o preço seja alto, é ótima.

 
 
 

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