UM NÃO QUE NÃO SE CURVA
- Carlos A. Buckmann
- 20 de abr.
- 3 min de leitura

UM NÃO QUE NÃO SE CURVA.
Li ontem, num canto discreto do jornal, uma história miúda que não virou manchete, mas ficou latejando na alma.
Uma técnica de enfermagem, num hospital público do Recife, recusou-se a aplicar uma medicação sem identificação em um paciente. O médico chefe ordenou. Ela disse: “Não”. Ele ameaçou com advertência. Ela repetiu: “Não, enquanto não houver prescrição e rótulo”.
Foi afastada por insubordinação. Dias depois, o conselho regional lhe deu razão. O que me espanta não é a injustiça do poder, mas a serenidade com que ela sustentou o limite. Sem gritos, sem choro, sem desculpas. Apenas um “não” de pé.
Walter Riso ensina que dizer “não” não é grosseria; é inteligência emocional. É saber onde termina o que aceito e começa o que me desfaz.
A enfermeira não explodiu em cólera. Apenas reconheceu, com a frieza de quem encara um abismo, que naquela seringa sem nome estava o ponto do não negociável. Riso chama isso de indignação: uma cólera justa, contida na forma e precisa no fundo.
Os estoicos já sabiam disso. Sêneca dizia que a virtude está em não se deixar arrastar pelos afetos, mas agir conforme a razão. A técnica não agiu por raiva. Agiu por prudência. “É prudente ser prudente”, escreve Riso. E prudência não é covardia; é a coragem de pensar antes de se curvar.
Viktor Frankl, que entendeu de limites extremos, ensinou que entre o estímulo e a resposta há um espaço. Nesse espaço está nossa liberdade.A técnica de Recife ocupou esse espaço. Não reagiu ao medo da demissão. Escolheu a resposta que a mantinha íntegra. Dizer “não”, ali, foi um exercício de soberania mínima.
Meu pai, homem rústico, dizia com ironia pesada: “Quanto mais a pessoa se abaixa, mais aparece a bunda”.
Era o jeito dele de lembrar que a submissão excessiva expõe o que temos de mais vulnerável.
Riso, com outra elegância, afirma: “Para exigir respeito, devo começar por respeitar a mim mesmo”. A enfermeira respeitou-se. Não pediu licença para existir.
Mas cuidado: não se trata de um “não” por impulso.
Riso adverte que, sem prudência, a assertividade vira agressividade. A moça do hospital não xingou, não bateu a porta. Argumentou com calma, repetiu o fundamento ético. Isso é o que ele chama de avaliação e autoavaliação: olhar o outro e olhar-se ao mesmo tempo. Ela viu o erro do médico e viu a própria dignidade intacta.
O convívio social é feito dessas linhas tênues. Rompê-las por omissão é pior do que rompê-las por excesso.
Quem nunca diz “não” vai, aos poucos, perdendo a textura da própria alma.
Riso lembra que, no refúgio mais escondido da nossa humanidade, somos “tão cruamente iguais, tão desesperadamente humanos” que ninguém merece sentir-se inferior. Dizer “não” é, afinal, dizer “sim” à própria igualdade.
E volto à enfermeira de Recife.
O que ela fez, no fim das contas?
Não salvou o mundo.
Mas salvou aquele instante. E a soma de instantes assim, quando não nos ajoelhamos ao que nos diminui, é o que separa uma vida vivida de uma vida apenas tolerada.
O direito de dizer “não” é, talvez, o último muro antes da servidão.
Ela não o derrubou. Plantou-se nele.
E por isso, enquanto tantos calam, ela dorme sem pesar.




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