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A FÉ E A RAZÃO

  • Carlos A. Buckmann
  • há 1 dia
  • 6 min de leitura

A FÉ E A RAZÃO

(Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS)

            A noite tinha a textura de um sonho que se lembra de si mesmo.

            A luz não vinha de lugar algum, mas pousava sobre as mesas de mármore como poeira de estrelas, criando pequenas ilhas de claridade no mar de sombras que compunha o ambiente. O balcão era de madeira antiga, tão polida que refletia os rostos dos clientes como um rio escuro, e as xícaras, cada uma um pouco diferente das outras, pareciam ter sido esquecidas por viajantes do tempo.

            A música de fundo era uma peça para cravo de Couperin, “Les Barricades Mystérieuses”, cujas notas se enrolavam umas nas outras como galhos de uma árvore que cresce para dentro. Os acordes repetidos criavam uma sensação de eterno retorno, um labirinto sonoro onde cada volta era a mesma e, no entanto, nunca a mesma. Era a música certa para a noite em que dois filósofos do tempo se sentariam frente a frente.

            No canto, uma mulher de chapéu de plumas escrevia em um caderno com uma caneta-tinteiro que parecia vazar. Mais adiante, um homem de sobretudo cinza gesticulava para um interlocutor que só ele podia ver, descrevendo círculos no ar com a ponta dos dedos. Do lado de fora, embora não houvesse propriamente "fora", uma neblina espessa se movia com a lentidão de um pensamento que ainda não encontrou suas palavras.

            Santo Agostinho chegou primeiro, como sempre fazem os que carregam o peso da memória. Seus olhos percorreram o ambiente com a curiosidade de quem procura por vestígios, não de coisas, mas de lembranças de coisas. A túnica branca que vestia tinha a simplicidade de quem já não precisa provar nada a ninguém, mas sua mão direita, pousada sobre o balcão, parecia ainda contar os grãos de areia de uma ampulheta que só ele via.

            “Um lugar curioso, disse, mais para si mesmo do que para mim.  Onde o tempo não passa, mas deixa marcas. Como se o presente fosse uma ferida que nunca cicatriza, mas também nunca sangra.”

            Servi-lhe uma xícara de café preto, o mais escuro que tinha. Ele olhou o líquido como quem examina uma memória recente, e por um instante seu rosto refletiu a luz ambígua do café.

            “Agradeço, murmurou. Mas não me sirva algo que possa me fazer esquecer de perguntar o que já sei.”

            Daniel Dennett entrou sem fazer barulho, mas sua presença preencheu o espaço como uma equação que se resolve sozinha. Seu sorriso era de quem encontra graça no fato de que até a graça pode ser explicada. Usava um paletó cáqui sobre uma camisa azul-claro, e seus óculos redondos pareciam duas pequenas janelas para um mundo onde tudo era legível.

            “Agostinho de Hipona, disse, estendendo a mão. O pai da introspecção ocidental. Seu ‘Confissões’ é um dos primeiros manuais de como o cérebro, com todo respeito, a alma, engana a si mesma.

            Agostinho apertou a mão com a lentidão de quem está acostumado a medir cada gesto.

            “Daniel Dennett. O homem que acredita que pode explicar o eco sem a montanha.”

            Sentei-me a uma mesa próxima, o caderno de guardanapos aberto diante de mim, um caderno onde escrevo tudo o que merece ser lembrado, mesmo que não possa ser compreendido.

            “Dizem que o senhor acredita que a consciência é uma ilusão, começou Agostinho, tomando um gole de café.”

            “Não exatamente, respondeu Dennett, ajustando os óculos. A ilusão não está na consciência, mas na ideia de que ela é um teatro onde um pequeno espectador assiste ao espetáculo. O que chamo de ‘Teatro Cartesiano’. O senhor sabe melhor do que ninguém que há mais de um espectador nesse palco. O que o senhor chamou de ‘distentio animi’, essa extensão da alma que é o tempo, não é um fluxo contínuo, mas um emaranhado de rascunhos concorrentes. O presente não é uma linha, Agostinho, é uma orquestra onde todos os instrumentos tocam ao mesmo tempo, e só depois decidimos qual melodia era a principal.”

            Agostinho inclinou a cabeça, seus olhos perdidos em algum ponto entre as xícaras e a memória.

            “E, no entanto, Daniel, quando você diz ‘decidimos’, está invocando exatamente aquilo que nega. Para decidir, é preciso haver alguém que decida. Alguém que não seja apenas o produto de seus rascunhos. O senhor fala em múltiplos rascunhos, mas quem os lê? Quem escolhe qual rascunho se tornará a versão final?”

            Dennett riu. Um riso seco, como o de quem já ouviu essa objeção mil vezes.

            “Essa é a falácia do homúnculo, meu caro Agostinho. O senhor está colocando um pequeno leitor dentro do leitor, um pequeno tomador de decisões dentro do tomador de decisões. Não há quem leia os rascunhos, os rascunhos são o que somos. A escolha não é feita por um agente externo; a escolha ‘é’ o processo. O senhor mesmo, em suas ‘Confissões’, escreveu que o tempo é uma coisa que só existe na alma porque só a alma pode medir a distância entre o que foi e o que será. Mas eu pergunto: o que é essa ‘alma’ senão o próprio processo de medir?”

            A música de Couperin chegou a um trecho mais complexo, onde as vozes se sobrepunham como camadas de um palimpsesto. A mulher do chapéu de plumas ergueu os olhos por um instante, como se reconhecesse na música uma verdade que suas palavras não alcançavam.

            “É curioso, disse Agostinho, traçando círculos na borda da xícara, que o senhor, que fala tanto de evolução e de como a mente emergiu do cérebro, se recuse a ver que a alma também emerge. Não como uma substância separada, mas como uma direção. A alma é o que acontece quando o tempo que, como eu sei, não existe fora da mente, se encontra com a eternidade. Não a eternidade como duração infinita, mas como instante puro. O presente das coisas passadas, o presente das coisas futuras, o presente do presente... tudo isso cabe em um único átimo se o átimo for aberto o bastante.”

            Dennett inclinou-se para frente, o entusiasmo de quem encontra uma rocha digna de ser virada.

            O homem do sobretudo cinza, que há pouco gesticulava no ar, pareceu ouvir essa última frase e parou de se mover. Por um instante, ficou imóvel, como se aquela ideia tivesse sido uma pedra atirada em um lago e ele estivesse esperando as ondas chegarem à margem.

            “E o livre-arbítrio, Daniel? perguntou Agostinho, com a voz mais baixa agora, mais íntima. O senhor escreveu um livro inteiro sobre isso, ‘Quebrando o Encanto’, se não me engano. ‘As variedades do livre-arbítrio que valem a pena querer.’ Diz que podemos ser livres mesmo em um mundo determinado.”

            “Podemos e devemos, respondeu Dennett, com a convicção de quem já percorreu esse caminho muitas vezes.  Porque a liberdade que importa não é a de ter uma alma imune às leis da física. A liberdade que importa é a de responder a razões.” 

            Agostinho baixou os olhos para a xícara vazia.

            A música de Couperin se encerrou, e por um instante o silêncio foi mais musical do que qualquer nota. A mulher do chapéu de plumas fechou seu caderno. O homem do sobretudo cinza finalmente pareceu encontrar seu interlocutor invisível, ou talvez tê-lo perdido de vez.

            Levantei-me e fui até o balcão, onde o caderno de guardanapos me esperava. Não era a primeira vez que testemunhava um encontro desses no CAFÉ ENTRE FLUXOS, e sabia que as palavras que acabara de ouvir não eram apenas palavras. Eram as marcas que o tempo deixou em duas almas que, em séculos diferentes, haviam tentado domá-lo, uma com a humildade da fé, outra com a audácia da razão.

            E enquanto escrevia, pensei em Agostinho e sua “distentio animi”, na extensão da alma que é o tempo, e lembrei de sua frase: “Se ninguém me pergunta, sei; se quero explicar a quem pergunta, já não sei." Pensei em Dennett e em seu “Quebrando o Encanto, na liberdade que vale a pena querer, na consciência como um feixe de rascunhos paralelos. E percebi que ambos haviam dito a mesma coisa, apenas em línguas diferentes: que o tempo e a liberdade não são coisas que existem no mundo, mas coisas que criamos — Agostinho na alma, Dennett no cérebro, mas ambos no ato de perguntar.

            No guardanapo, escrevi a frase que guardaria para o livro:

            "Não há tempo que não seja um espelho onde a eternidade se pergunta o que é ser passageira."

            E então apaguei a luz, como quem apaga uma vela cuja chama já cumpriu seu destino de iluminar a escuridão.

 
 
 

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