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UM FANTASMA CHAMADO FUTURO

  • Carlos A. Buckmann
  • 22 de abr.
  • 4 min de leitura

UM FANTASMA CHAMADO FUTURO

(Da série A FILOSOFIA NA MPB)

            Eu, cronista de um PAÍS que aprendeu a falar por códigos, lembro dos anos de chumbo como quem lembra de uma noite sem lua.

            Era o tempo em que o silêncio tinha endereço, e a palavra era uma clandestina.

            Em plena ditadura militar, quando o medo vestia farda e a arte era vigiada como subversiva, Paulo Cesar Pinheiro, esse alquimista do verso, conseguiu o que poucos conseguiam: passar pela censura como a água passa pelas fendas de um muro.

            Ele não gritou; ele sussurrou verdades em forma de canção. E PESADELO* é um desses sussurros que, ouvido hoje, soa como um tiro. Porque a filosofia, meus caros, começa onde a palavra é proibida: na fresta entre o dito e o não dito.

            “Quando o muro separa uma ponte une / Se a vingança encara o remorso pune / Você vem me agarra, alguém vem me solta / Você vai na marra, ela um dia volta / E se a força é tua ela um dia é nossa”

            Eis a dialética em três tempos.

            O muro e a ponte não são opostos, mas faces de um mesmo desejo: o de separar e o de transpor.

            O filósofo alemão Hegel nos ensinou que o senhor só é senhor porque o escravo o reconhece; mas, ao reconhecer, o escravo já está minando a servidão.

            Quando Pinheiro canta que “a força é tua, ela um dia é nossa”, ele não profetiza vingança, ele anuncia a reversão inevitável do tempo. A força do opressor é um pulso que cansa; a resistência do oprimido é um rio que não seca. O remorso pune a vingança porque a justiça não é olho por olho, mas a consciência de que toda mão que aperta o pescoço um dia treme.

             E o muro? Ah, o muro só existe porque a ponte já foi projetada.

            “Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando / Que medo você tem de nós, olha aí”

            Aqui, eu me torno espectro. O “dia de ontem” não é o passado morto; é o passado que insiste em bater à porta como um credor.

            O medo do tirano não é do que fazemos agora, mas do que lembramos. Porque a memória é a primeira trincheira. Quando o regime militar tentou enterrar os mortos e apagar os arquivos, a MPB fez o contrário: transformou cada verso em lápide e cada melodia em exumação.

            “Que medo você tem de nós?” pergunta o compositor, como Sócrates perguntava aos juízes que o condenaram. O medo, no fundo, é a confissão da culpa.

            “Você corta um verso, eu escrevo outro / Você me prende vivo, eu escapo morto / De repente olha eu de novo / Perturbando a paz, exigindo troco”

            A imortalidade do espirito criador. Cortar um verso é como tentar estancar a chuva com uma tesoura. A censura militar rasgava letras, queimava discos, prendia compositores. Mas Paulo Cesar Pinheiro, e tantos outros, descobriram algo que os filósofos existencialistas já sabiam: a liberdade não está no corpo, mas no gesto. “Eu escapo morto”, essa é a frase que faz o carcereiro suar frio.

            Porque o morto, na cultura brasileira, é justamente o que nunca vai embora: vira santo, vira saudade, vira verso de toada. O compositor que morre pela canção se torna a própria canção. E a canção não tem celas. Ela é um fantasma que atravessa paredes e “perturba a paz” dos tiranos, essa paz podre, feita de silêncio forçado e esquecimento armado.

            “Vamos por aí eu e meu cachorro / Olha um verso, olha o outro / Olha o velho, olha o moço chegando / Que medo você tem de nós, olha aí”

            O cachorro é o companheiro que late para a injustiça sem saber o nome dela. O velho e o moço são a cadeia da tradição: o que aprendeu a sofrer e o que ainda vai aprender a lutar.

            A repetição do “olha aí” é um gesto quase zen-budista: a presença plena, o dedo que aponta para a lua da resistência. O medo do opressor, agora, já não é mais do indivíduo, é do coletivo. “Nós” é o povo que aprendeu a se reconhecer na ponte, não no muro. “Nós” é a multidão que desaprendeu o medo.

            “O muro caiu, olha a ponte / Da liberdade guardiã / O braço do Cristo, horizonte / Abraça o dia de amanhã”

            A queda do muro não é um fato histórico datado, é um imperativo ético. O muro de que fala Pinheiro não era só o de concreto e arame farpado; era o muro na cabeça, o medo interiorizado, a autocensura que nos tornávamos guardas de nós mesmos.

            Quando ele cai, a ponte se revela: ela sempre esteve ali, coberta de hera e poeira. E o “braço do Cristo”, não o Cristo das patentes e dos generais, mas o Cristo aberto, o horizonte que acolhe, abraça o “dia de amanhã”.

            Não o amanhã utópico, mas o amanhã possível, o que nasce do encontro entre a memória de ontem e a coragem de hoje.

            “Olha aí / Olha aí / Olha aí”

            Então, volto àquele tempo em que o medo era uma moeda corrente, e Paulo Cesar Pinheiro escreveu “Pesadelo” como quem escreve uma carta para o futuro.

            Agora, olhando o presente, onde novos muros se erguem, novas pontes são ameaçadas, percebo que a filosofia nunca foi um exercício de fuga, mas de insistência.

            O “olha aí” final é um grito de alerta e um gesto de carinho.

            É a língua do povo que aprendeu a dizer: “Estamos aqui. Ainda. Sempre.” Porque o pesadelo não é o opressor, é a nossa própria paralisia diante dele.

            E a canção, essa senhora antiga, continua a nos lembrar: o muro caiu, a ponte está aí.

            E o medo, agora, é todo deles.

            Olha aí.

 

 *Para ouvir a música, acesse o link abaixo:

 

 
 
 

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