UM DIÁLOGO SOBRE A VELHICE
- Carlos A. Buckmann
- 20 de abr.
- 4 min de leitura

UM DIÁLOGO SOBRE A VELHICE
A mesa de café está manchada por círculos de caneca, e a luz da tarde recorta sombras alongadas no mármore frio. Minha amiga folheia distraidamente um guardanapo enquanto eu insisto:
“A VELHICE é um livro fundamental. Não um manual de autoajuda, mas um soco no estômago”.
Ela ergue os olhos, com aquela curiosidade serena que lhe é peculiar.
“Simone de Beauvoir? Certamente não é um livro alegre”.
Rio sem humor.
“Alegria é o que ela desmonta. É uma arqueologia do que fazemos com aqueles que já não são ‘úteis’”.
Ela apoia o queixo nas mãos, o olhar perdido no movimento dos carros lá fora.
“O que me impressiona”, diz ela, como se estivesse pensando em voz alta, “é como ela destrói a ideia de que a velhice é um problema biológico. Ela mostra que é um disfarce. Por trás do declínio do corpo, está um escândalo econômico e social. O velho é o expulso, não o doente”. Pausa. “É corajoso, porque ela mesma estava envelhecendo ao escrever. Não é a palavra de quem observa de longe, mas de quem já sente no próprio corpo o peso do olhar alheio.”
Fico em silêncio, tomado por uma admiração súbita. Ela acertou o cerne.
“Continua”, peço.
Ela toma um gole de café, o gesto lento, didático.
“Ela nos lembra que não envelhecemos sozinhos. A sociedade nos impõe uma ‘idade’ antes mesmo de a sentirmos. Cria-se um abismo entre o que ainda somos por dentro, e o que nos obrigam a ser por fora. É o ápice da má-fé, como Sartre diria: transformam nossa situação em essência.”
Sorri, um sorriso amargo.
“Dizem: ‘você é velho’, como se isso fosse uma alma imutável, e não um estado em relação ao mundo.”
A fala dela ecoa em mim como um palimpsesto, revelando camadas que eu já havia lido, mas não assim, ditas em voz baixa, em meio ao rumor dos talheres.
Lembro-me de Cícero, em Sobre a Velhice, tentando provar que a idade avançada era um tempo de virtude e sabedoria, uma apologia necessária, mas ainda presa à ideia de que o velho precisa provar seu valor. Beauvoir vai além: ela não pede que a velhice seja honrada; ela denuncia que a própria estrutura social a transforma em exílio.
Minha amiga parece ler meus pensamentos.
“O que ela faz de mais radical”, continua, “é recusar a consolação. Ela não romantiza a sabedoria dos cabelos brancos, nem finge que a decadência física é uma ilusão. Mas mostra que a verdadeira violência está em isolar o velho, em tratá-lo como uma categoria à parte, como se ele não fosse mais um sujeito da própria história.”
Seus dedos batem suavemente na mesa.
“É por isso que ela cita tão frequentemente a figura do ‘velho embalsamado’, aquele que é reduzido a um antepassado vivo, a um relicário, enquanto sua liberdade é anulada.”
Concordo, mas sinto a necessidade de acrescentar.
“Ela dialoga com a fenomenologia, com Merleau-Ponty. Não é apenas o corpo que envelhece, é o ‘corpo vivido’. A forma como o mundo nos responde muda. Você estende a mão para um aperto e recebe um gesto de proteção. Você expressa uma opinião e é ouvido com a condescendência reservada a uma criança. A velhice, para ela, é esse descompasso entre a intencionalidade do sujeito e o reflexo que a sociedade lhe devolve.”
Minha interlocutora se recosta na cadeira, os olhos apertados como se fitasse o sol.
“E é aí que está o ponto mais belo e mais cruel. Ela diz que a velhice revela a falência de toda uma existência que foi vivida apenas como projeto para o futuro. Se passamos a vida nos preparando para algo que nunca chega, quando o horizonte se contrai, restamos vazios. Mas se, ao contrário, a vida foi um fim em si mesma, um exercício contínuo de liberdade, então a velhice não é um naufrágio, mas uma forma possível, ainda que dolorosa, de estar no mundo.”
O ruído do café parece se afastar por um instante. Fico pensando em Montaigne, que dizia que a morte não é um problema, pois quando ela chega, nós não estamos mais lá.
Beauvoir, no entanto, nos força a olhar para o intervalo entre o declínio e a morte, esse território esquecido pela filosofia. Ela nos mostra que a grande mentira da sociedade ocidental é a promessa de que, se obedecermos às regras, seremos recompensados com um envelhecimento digno. Mas a dignidade, para ela, não é algo que se recebe; é algo que se exige, e que nos é sistematicamente roubado quando nos transformam em objeto de caridade, de piedade ou de esquecimento.
Terminamos o café em silêncio, mas um silêncio pleno. Ao nos levantarmos, minha amiga pega o guardanapo rabiscado e o dobra com cuidado.
“O que ela nos lega”, diz por fim, “é a recusa do pacto. O pacto que nos obriga a desaparecer em vida para não incomodar.”
Caminhamos até a calçada, e a luz da tarde agora é dourada e oblíqua. É início do outono.
Penso, então, na solidão do velho que Beauvoir descreve com uma precisão cirúrgica.
Não uma solidão metafísica, mas uma solidão política. É o indivíduo que, tendo sido moldado por uma cultura que só reconhece o valor na produtividade, no vigor, na reprodução do sistema, descobre que sua existência, agora ‘improdutiva’, não encontra mais lugar no discurso social. A velhice, em Beauvoir, deixa de ser uma questão geriátrica para se tornar a grande questão política do nosso tempo: saber se uma civilização que exclui aqueles que não podem mais ‘contribuir’ nos moldes do capital pode, de fato, se chamar civilizada.
Caminho sozinho depois que despedimo-nos. Com a mão direita, me apoio mais firme na bengala, para ultrapassar um buraco na calçada.
As palavras dela ainda soam em mim, um eco preciso. Lembro do trecho em que Beauvoir cita a frase de um velho: “Não sou velho, sou um homem velho”.
A sutileza é tudo. Ser “um homem velho” é ainda ser um homem, com toda a opacidade e a liberdade que isso implica.
Ser reduzido a “velho” é ter a substância roubada.
E contra essa conspiração, o único remédio é o mesmo que ela praticou com a sua obra: a recusa feroz de calar.




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