UM COLETE DE MIL BOLSOS
- Carlos A. Buckmann
- 20 de abr.
- 4 min de leitura

UM COLETE DE MIL BOLSOS
Ele está ali, pendurado no espaldar da cadeira, diante da janela que dá para a rua, onde um pé de manacá resolveu florir fora de época.
Minhas inspirações vêm desse quintal que diviso no prédio visinho, do céu que se vê daqui, do rumor dos carros na avenida lá embaixo. Vêm também, e sobretudo, desse colete no espaldar da cadeira. Um colete de brim espesso, de um cinza que já foi azul, com bolsos. Centenas deles. Ou assim me parecem quando o visto com a paciência de quem se prepara para escrever.
Cada bolso guarda uma epifania. E eu, o cronista de mãos sempre frias, mergulho os dedos neles como quem procura uma chave no escuro. Não é um ato de busca, é um ato de fé. A epifania não se encontra, ela me encontra. Meu dedo roça um pedaço de papel, uma ficha de ônibus rabiscada, uma folha seca pressionada entre dois versos que já não me lembro de ter copiado. E então, o estalo.
A epifania, quando vem, nunca vem sozinha. Ela puxa um fio, e esse fio arrasta outro, e de repente estou diante de um fato antigo, daqueles que o tempo tentou empoeirar.
Foi assim com um botão de madrepérola que achei no bolso fundo. Dele nasceu a lembrança de minha avó ajustando o colarinho do meu avô, um gesto tão delicado que parecia um reparo na alma.
E desse gesto, fui parar nas páginas de “Em Busca do Tempo Perdido”, onde um pequeno gesto de Françoise continha a moral de uma sociedade inteira. O marca-texto amarelo ainda ali, na passagem que diz: “O verdadeiro paraíso é o paraíso que perdemos”.
Cada bolso é um portal. Um bolso lateral me entregou, certa feita, uma anotação sobre Heráclito e seu rio. Não me lembrava de tê-la feito. Mas ali estava, com a letra trêmula de quem escreve num ônibus em movimento. “Não descemos duas vezes no mesmo rio”, dizia o fragmento.
Ri sozinho, pois no bolso ao lado, como se respondesse ao filósofo de Éfeso, encontrei um guardanapo com uma frase de meu filho, aos sete anos: “Papai, a água do mar é a mesma, mas o meu pé que entrou hoje é outro pé.” Eis a filosofia que me basta.
Mas preciso ser honesto. Escrevo não apenas por deleite, mas por necessidade.
Se me faltar o ar, eu sufoco. Se me faltar a água, eu definho. E, de modo análogo, se me faltar a escrita, eu me desfaço.
O papel é o pulmão por onde minhas ideias respiram. A caneta é a torneira que mata a sede dessa coisa informe que pulsa dentro de mim, exigindo forma, exigindo margem. É como o pão que partilho no café da manhã, como o café que aquece minhas mãos antes que elas se aventurassem pelos bolsos do colete.
Houve uma epifania, devo contar, que rendeu um dos melhores textos que já escrevi. Foi num domingo chuvoso. Meu dedo encontrou um bilhete de loteria antigo, desses que não valem mais nada. Senti, de imediato, não a perda, mas a extraordinária leveza de algo que já cumpriu seu tempo.
Lembrei-me de um ensaio de Montaigne sobre a morte, em que ele aconselha: “Se você não sabe como morrer, não se preocupe; a natureza lhe dirá, no momento, plena e suficientemente.”
A partir daquele bilhete sem valor, escrevi uma crônica sobre as coisas que nos sobrevivem. Não sobre o que deixamos, mas sobre o que, ao deixar, nos completa. Foi um texto que li em voz alta para alguns amigos. Ao final, um deles, que há muito perdera o pai, apenas disse: “É isso. É exatamente isso.” E eu soube que a mão que havia mergulhado no bolso não era a minha apenas.
E assim vou vivendo. De manhã, visto o colete. À noite, o penduro. Há dias em que os bolsos parecem vazios, e eu ando pela casa inquieto, esbarrando em livros, relendo cartas, buscando um fio de Ariadne que me tire do labirinto da página em branco.
Nesses dias, a inspiração é um bicho arisco, mas a disciplina, essa sim, é minha companheira fiel. Sinto o peso do colete sobre os ombros, e aquele peso é um lembrete: estou pronto. A epifania, desconfio, é uma dama de cerimônias que só chega quando a mesa já está posta.
Ora, eis que agora, ao terminar este parágrafo, sinto um volume no bolso interno, rente ao peito. É um pedaço de papel já amassado, que não me lembro de ter guardado. Abro-o com a ponta dos dedos, temendo rasgar. Está escrito, com letra que reconheço como sendo minha, mas de um tempo em que eu sofria mais do que sofro agora: “Amar o que se faz é a única maneira de fazer com que o tempo, que tudo corrói, se transforme em um escultor, e não em um vândalo.”
Guardo este papel com cuidado. Ele servirá para um próximo texto. Ou talvez para este, agora, no fecho.
É disso que trata este colete, estas linhas, esta manhã de sol tímido lá na rua.
O amor pelo que fazemos não é um adorno; é a estrutura.
É ele que dá sentido à pequena loucura de sentar-se diante de uma folha em branco e vasculhar os bolsos do espírito em busca de uma verdade que, no fim, já estava ali o tempo todo: respirar, beber, comer e escrever são maneiras de estar vivo.
Mas é o amor, o amor que nos faz revisitar um mesmo bolso centenas de vezes, que nos faz reler um mesmo verso como se fosse a primeira vez, é ele que transforma a necessidade em festa.
Deixo o colete pendurado.
O manacá, lá fora, já soltou mais algumas flores.
E amanhã, antes do café, antes do pão, antes mesmo de abrir os olhos por completo, minhas mãos já buscarão, entre o brim e o forro, a centelha que me fará, mais uma vez, cronista.




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