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UM CAVAQUINHO FILOSOFAL

  • Carlos A. Buckmann
  • 4 de mai.
  • 3 min de leitura

UM CAVAQUINHO FILOSOFAL (*)

(Da série A FILOSOFIA NA MPB)

            Quando João Bosco dedilha e Aldir Blanc escreve, não há como saber onde termina o compositor e começa o poeta.     São dois artistas que fundem suas almas numa terceira, imaterial, feita de cordas e palavras.

            Dessa simbiose nascem obras que recusam o envelhecimento. Ao ouvir “Kid Cavaquinho”, me vejo diante de um objeto filosófico que pulsa.

            “Oi,  que foi só pegar no cavaquinho / Pra nego bater / Mas seu contar o que é que pode um cavaquinho / Os home não vão crer.”

            Pergunto com Espinosa: o que pode um corpo pequeno, de madeira e quatro cordas? Os “home”, representantes do senso comum e da força bruta, duvidam. Pois o poder não reside no tamanho, mas na potência de afetar e ser afetado.

            O cavaquinho é um quase nada que, nas mãos certas, vira acontecimento. Quantos “nadas” cotidianos, um olhar, uma frase, um silêncio, não movem montanhas maiores que escavadeiras?

            A atualidade disso: hoje, como ontem, o mundo ainda subestima o leve, o mínimo, o que cabe no colo.

            “Quando ele fere, fere firme / E dói que nem punhal / Quando ele invoca até parece / Um pega na geral.”

            A ambiguidade da arte: ela não apenas alegra; ela corta.

            Schopenhauer sabia que a música é a filosofia em estado bruto porque expressa a própria “Vontade”, incluindo sua fúria. O cavaquinho que “dói que nem punhal” é o artista que, ao invocar, desmascara.

            Em qualquer esquina de nosso tempo, o samba de protesto, o rap, a canção dissonante ainda cumprem essa função: ferir a consciência adormecida. “Pega na geral” é a revolta que se espalha, o incêndio que ninguém contém.

            “A mulher do vizinho / Sustenta aquele vagabundo.”

            Sartre diria: o inferno são os outros, sobretudo os que vigiam de sua janela. Esse verso expõe o julgamento moral que recai sobre o músico, o boêmio, o que vive de arte. A vizinha sustenta “aquele vagabundo”, mas quem é o vagabundo?

            Talvez o trabalhador honesto que carrega nas costas o fardo de uma vida sem ritmo. A filosofia aqui é a da hipocrisia social: condena-se no outro aquilo que se deseja em segredo. Nas redes de hoje, essa mulher do vizinho virou exército anônimo, pronto para crucificar qualquer Kid Cavaquinho que ouse não se curvar à produtividade.

            “Veneno é com meu cavaquinho / Pois se eu to com ele / Encaro todo mundo.”

            Nietzsche celebra a vontade de potência. Aqui, porém, não se trata da força do dominador, mas da coragem do frágil armado de sua arte. O cavaquinho vira escudo e lança.

            Quem enfrenta a plateia hostil, o patrão tirano, o amor não correspondido com um verso ou um acorde? O cronista vê diariamente: o artista de rua, a escritora de periferia, o ator sem palco, todos eles “encaram todo mundo” porque carregam seu cavaquinho interior. Veneno, sim, mas veneno que cura ao expor os venenos do mundo.

            “Se alguém pisa no meu calo / Puxo o cavaquinho / Pra cantar de galo.”

            Calo é onde a vida mais doeu. E a resposta não é o soco, nem o processo judicial, nem o xingamento anônimo. É o canto. “Cantar de galo” é assumir a própria crista, a própria voz, mesmo desafinando.

            Relembro Epicteto: não controlamos o que nos pisam, mas controlamos como respondemos. A resposta do Kid Cavaquinho é filosófica por excelência: transformar a agressão em criação. Em nossa época de ódio retórico, quem ainda responde ao insulto com uma canção?

            Esses são os sábios.

            Porque João Bosco e Aldir Blanc, feitos um só ser, não escreveram apenas uma letra. Escreveram um tratado sobre a resistência cotidiana.

            O cavaquinho é pequeno, como os gestos que esquecemos: dar bom-dia, ouvir o outro, tocar um acorde para uma criança chorar menos.

            Sua filosofia é a do fragmento que sustenta o todo.

            Enquanto o mundo lateja com suas guerras e seus números, sugiro: pegue seu cavaquinho, mesmo que seja apenas uma caixa de fósforos e dois elásticos, e cante de galo.

            Porque, como no princípio dessa crônica, quando dois artistas se encontram, nasce uma terceira coisa que o tempo não alcança:

            A coragem de ser pequeno e ainda assim ferir firme.

(*) Assista no YouTube

 
 
 

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