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TENTAR MAIS UMA VEZ

  • Carlos A. Buckmann
  • 26 de abr.
  • 3 min de leitura

TENTAR MAIS UMA VEZ

(Da série A FILOSOFIA NA MPB)

            Procurando entre as canções de Raul Seixas que o Brasil guardou na memória afetiva, estive hesitante entre tantas, tão belas e tão profundamente filosóficas.

            Mas o Maluco Beleza me desafiou: continue tentando.

            A escolha se impôs, simples e luminosa: “Tente Outra Vez”. (*)

            Essa letra me fez entender que filosofia não vive apenas nos paradoxos herméticos; ela também se derrama no cotidiano de quem luta, cai e insiste. E esta canção é um tratado sobre a arte de recomeçar.

            “Veja / Não diga que a canção está perdida / Tenha fé em Deus, tenha fé na vida / Tente outra vez

            A canção se inicia com um chamado à percepção: “Veja”.

            É o convite para sair da cegueira do desalento. Dizer que a canção está perdida é decretar o fim antes do tempo, é sucumbir a um niilismo precoce.

            Mas a fé que Raul clama não é a submissão a um dogma. É um ato existencial. Como em Kierkegaard, a fé é o salto no absurdo que abraça a vida mesmo sem garantias. “Tenha fé em Deus, tenha fé na vida” justapõe o transcendente e o imanente, como se a fé fosse uma só: um estado de confiança radical no mistério do recomeço.

            “Beba / Pois a água viva ainda tá na fonte / Você tem dois pés para cruzar a ponte / Nada acabou, não, não, não, oh”

            “Beba” é o imperativo da nutrição da alma. A “água viva” remete ao fluxo incessante da existência, à fonte interior que o cansaço nos faz esquecer.

            Cada um tem os pés, os meios, para atravessar a ponte sobre o abismo.

            Essa ponte é o instante, o presente onde tudo se decide. “Nada acabou” é a negação de todo fim definitivo. Nietzsche diria que o homem é “algo que deve ser superado”. A ponte é o próprio homem em travessia.

            “Tente / Levante sua mão sedenta e recomece a andar / Não pense que a cabeça aguenta se você parar”

            A mão sedenta é a vontade que ainda pulsa, mesmo exausta. Recomeçar a andar é o gesto primordial da superação. A paralisia, porém, não é neutra: “não pense que a cabeça aguenta se você parar” revela que a estagnação adoece o pensamento.

            É a ação que cura a mente. Como em Camus, o absurdo não está no mundo, mas na recusa em viver. Empurrar a pedra montanha acima, como Sísifo, não é castigo se a luta em si mesma enche o coração de dignidade.

 

            “Há uma voz que canta, há uma voz que dança / Uma voz que gira bailando no ar”

            No meio da exortação, um sopro lírico.

            Essa voz que canta, dança e gira é a potência da vida celebrando a si mesma. É a arte, o êxtase dionisíaco que, para Nietzsche, justifica a existência. Não há argumento racional que a contenha. É a voz do devir, o chamado para participar da festa móvel do real, mesmo em meio à batalha.

            É o lembrete de que a luta não é só sofrimento: há beleza bailando no ar.

            “Queira / Basta ser sincero e desejar profundo / Você será capaz de sacudir o mundo / Vai, tente outra vez”

            “Queira” é o cerne da filosofia da ação.

            Raul não prega o pensamento positivo superficial, mas a sinceridade do desejo profundo. Querer de verdade é alinhar a essência à potência. É o “conatus” de Espinosa: o esforço de cada ser para perseverar no seu ser e expandir sua força. Quando o desejo é autêntico, ele se torna tão denso que “sacudir o mundo” não é metáfora vazia, mas consequência. A tônica é a mesma: tente outra vez, agora com a alma inteira.

            “Tente / E não diga que a vitória está perdida / Se é de batalhas que se vive a vida / Tente outra vez”

            A última estrofe é lapidar: a vida não é feita de vitórias, mas de batalhas. Se a vitória é o fim, a vida é o meio, e o meio é tudo.

            Dizer que a vitória está perdida é não entender de que matéria somos feitos.

            Somos guerreiros do instante.

            Como na teoria do eterno retorno, cada batalha vale por si, e viver cada combate como se fosse eterno é a suprema afirmação.

            O convite final ecoa como um mantra que não cessa, pois a tentativa é a própria respiração da existência.

            A cada instante, a voz gira bailando no ar, a água viva jorra, a ponte está diante de mim.

            Nada acabou.

            Tente outra vez!

 
 
 

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