TALVEZ EXISTAM ANJOS
- Carlos A. Buckmann
- 2 de mar.
- 8 min de leitura

TALVEZ EXISTAM ANJOS
O Café Entre Fluxos, naquela noite, parecia suspenso entre o céu e a terra. As mesas de madeira escura, gastas pelo uso de séculos imaginários, sustinham pequenas velas cujas chamas tremiam ao ritmo da respiração dos presentes, como se também elas fossem almas penadas à procura de paz. As cadeiras de espaldar alto, estofadas num veludo verde já desbotado, rangiam em protesto cada vez que alguém se acomodava, mas era um protesto antigo, desses que já não esperam resposta. Pelas janelas, a cidade lá fora era apenas um borrão de luzes indistintas, como se o mundo real tivesse resolvido dar uma trégua.
O aroma do café misturava-se com um cheiro de livros antigos e com um ligeiro odor de incenso, vestígio de algum frequentador que talvez rezasse a deuses esquecidos. As estantes, que ocupavam duas paredes inteiras, inclinavam-se ligeiramente para a frente, como se quisessem ouvir melhor as conversas. Os livros, velhos conhecidos, pareciam respirar baixinho, soltando partículas de sabedoria no ar.
Os frequentadores daquela noite eram diferentes dos habituais. Um rabino sem sinagoga folheava um volume da Cabala com a devoção de quem procura um nome escondido. Uma freira sem convento bebericava chá e sorria para ninguém, como se tivesse acabado de ouvir uma boa notícia. Um poeta sem poemas rabiscava versos invisíveis na toalha da mesa, com o dedo, como quem semeia palavras no vento. E, no canto, um velho filósofo lia Epicteto e acenava com a cabeça, concordando com os estoicos de dois mil anos atrás.
Na vitrola, alguém colocara um disco de violoncelo solo, Bach, a suíte número 1 em sol maior, aquela que começa com um prelúdio que parece uma prece. A música preenchia o espaço sem o ocupar, como a luz das velas, como a esperança.
Foi então que a porta se abriu e entraram três figuras que não podiam ser mais diferentes entre si e, no entanto, algo as unia, algo que eu não saberia nomear, mas que senti imediatamente na pele.
A primeira era uma menina. Não devia ter mais de quinze anos, mas os olhos diziam que vira mais do que muitos velhos. Trazia um diário debaixo do braço e um sorriso tímido, como quem pede desculpa por existir. Anne Frank, reconheci-a pelas fotografias que correm mundo, mas ali, ao vivo, parecia mais frágil e ao mesmo tempo mais forte do que qualquer imagem poderia transmitir.
Estranhei, confesso. Uma menina sozinha num café de filósofos e poetas? Mas logo vi que não estava sozinha. Atrás dela, duas figuras completavam o trio.
A segunda era uma mulher pequena, franzina, envolta num sari branco com bordas azuis. O rosto sulcado de rugas era um mapa de bondade, e as mãos, pequenas e gastas, pareciam ter segurado todos os moribundos do mundo. Madre Teresa de Calcutá. Não havia como não reconhecer aquela paz que irradiava dela, como um segundo corpo de luz.
O terceiro era um homem magro, quase esquelético, envolto num pano branco simples, os óculos redondos e o sorriso que era pura mansidão. Mahatma Gandhi. Caminhava descalço, mas cada passo era uma declaração de princípios.
Sentaram-se à mesa redonda, a maior, a que fica debaixo do candeeiro que nunca acende (preciso de um eletricista para resolver isso). Mas quando se sentaram, notei que a luz da vela sobre a mesa pareceu ficar mais intensa, como se a presença deles alimentasse a chama. Aproximei-me para servir chá, pareceu-me mais adequado do que café para almas tão diáfanas.
Chá para todos? perguntei.
“Sim, meu filho”, respondeu Madre Teresa, com a voz que parecia um abraço. “Chá une as pessoas. O café isola, cada um no seu copo. O chá partilha-se, cada um na mesma chaleira.”
Gandhi sorriu, concordando.
“A senhora tem razão, como sempre. O chá lembra-me a Índia, as manhãs em Sabarmati, os debates sobre a verdade. A verdade, Madre Teresa, também se partilha como o chá, não se impõe, oferece-se.”
Anne Frank segurou a chávena com as duas mãos, como quem agradece o calor.
“Na Holanda, também bebíamos chá, escondidos no anexo. Minha mãe dizia que o chá aquecia a alma quando o corpo já não tinha esperança. Eu não entendia bem, na altura. Agora entendo.”
O silêncio que se seguiu era denso de memórias. A suíte de Bach continuava, agora na sarabanda, lenta e grave.
“Menina Anne, disse Gandhi, com delicadeza, o que a traz a este lugar? Uma jovem como a senhorita devia estar a brincar, a sonhar, a viver.
“Vivi, Mahatma. Vivi intensamente, mesmo escondida. Escrevi. Escrevi para não morrer antes de morrer. O meu diário foi a minha resistência. E agora, onde quer que eu esteja, continuo a escrever. As palavras não morrem, não é verdade?”
“Não morrem não, respondeu Gandhi. As palavras são sementes. Podem levar tempo a germinar, mas um dia dão fruto. As minhas palavras sobre a não-violência, a “satyagraha”, demoraram a frutificar. Muitos disseram que era loucura, que os ingleses só entendiam a força. Mas a força da alma é maior do que a força dos canhões.”
Madre Teresa acariciou a mão de Anne.
“Menina, eu também vi muita coisa. Vi crianças a morrer de fome, vi leprosos abandonados, vi gente a quem o mundo virou as costas. E aprendi que o amor é a única resposta. Não o amor romântico, não o amor das novelas. O amor que lava feridas, que segura mãos, que não pergunta se merecem.
“Mas a senhora, disse Anne, com os olhos brilhantes, nunca teve medo? Eu tive. Tive medo todos os dias, no anexo. Medo dos soldados, medo dos vizinhos, medo do silêncio que podia significar traição.”
“Tive, sim, minha filha. Muito medo. Mas aprendi que o medo é como o fogo: se o alimentamos, queima-nos; se o dominamos, aquece-nos. O que eu fazia, quando o medo apertava, era lembrar-me de que há sempre alguém pior do que eu. Alguém que precisa mais do que eu. E ia cuidar desse alguém. O medo ia-se embora, sozinho.
Gandhi observava as duas com um sorriso que era pura benevolência.
“A senhora, Madre Teresa, viveu a caridade no seu sentido mais profundo. Eu vivi a justiça. São caminhos diferentes, mas levam ao mesmo lugar: a dignidade humana. A senhora cuidava dos que o sistema abandonava; eu tentava mudar o sistema. A senhora dava o peixe; eu tentava ensinar a pescar.”
“E as minhas palavras, disse Anne, baixinho, o que faziam? Não davam peixe, não mudavam sistemas. Apenas mostravam uma menina a crescer com medo.”
“Mostravam mais do que isso, Anne, respondeu Gandhi. Mostravam que, mesmo no meio do horror, há humanidade. Que, mesmo escondida, uma pessoa pode ser livre. A senhorita não pôde mudar o mundo à sua volta, mas mudou o mundo dentro de si. E esse mundo, um dia, muitos quiseram conhecer.”
Madre Teresa tomou a mão de Anne entre as suas. - “Menina, o seu diário é como uma carta de amor para a humanidade. Mostra que o mal existe, sim, mas mostra também que há sempre uma centelha de bem, mesmo nas trevas. A senhorita escreveu: ‘Apesar de tudo, ainda acredito que as pessoas são boas de coração’. Essa frase, minha filha, vale mais do que todos os meus prémios.”
Anne corou, mas não desviou o olhar. “A senhora, Madre Teresa, também acreditava nisso? Mesmo depois de ver tanta miséria?”
“Acreditava, sim. E acredito ainda. Porque vi o bem nascer nos lugares mais inesperados. Vi um mendigo partilhar o último pedaço de pão com outro mendigo. Vi uma mãe moribunda sorrir para o filho. Vi a bondade, Anne. Existe. É rara, muitas vezes escondida, mas existe. E nós, cada um à sua maneira, fomos testemunhas disso.”
Gandhi ergueu a chávena de chá como se fosse um brinde.
“Pois é isso, meus amores. A não-violência, o amor, a escrita, tudo isso são formas de dizer: ‘Há esperança’. O mundo pode ser escuro, mas a escuridão não é eterna. O sol volta sempre. A minha Índia tornou-se livre. A Europa de Anne, um dia, deixou de ser nazi. As ruas de Calcutá, Madre Teresa, continuam cheias de pobreza, mas também de gente que ajuda. A esperança é assim: não acaba, apenas se esconde para descansar.”
“Sabem, disse Anne, num momento de silêncio, às vezes penso que a minha vida foi demasiado curta para fazer a diferença. Foram apenas quinze anos.”
“Minha filha, respondeu Madre Teresa, não é o tempo que conta, é a intensidade. A senhorita viveu mais em dois anos de esconderijo do que muitos em oitenta de liberdade.”
“E a diferença, acrescentou Gandhi, não se mede pelos resultados, mede-se pelas sementes. A senhorita plantou sementes que ainda hoje germinam. Quantos jovens, ao lerem o seu diário, descobriram que a palavra é mais forte que a bala? Quantos aprenderam que a humanidade resiste, mesmo quando tudo parece perdido?”
A conversa alongou-se pela noite dentro. Falaram de projetos: Gandhi contou como organizou a marcha do sal, como a simplicidade pode ser a arma mais poderosa; Madre Teresa falou das Missionárias da Caridade, como começou com doze irmãs e agora estavam em todo o mundo; Anne mostrou as páginas do diário, as palavras escritas com letra de menina que se tornaram património da humanidade. Falaram das repercussões: Gandhi, da admiração que inspirou, mas também das críticas, dos que achavam a não-violência uma utopia; Madre Teresa, do Nobel da Paz, mas também das vozes que a acusavam de não atacar as causas da pobreza; Anne, da fama póstuma, do milhão de exemplares vendidos, das escolas que levam o seu nome.
A noite avançava e os outros clientes iam saindo. O rabino fechou a Cabala e despediu-se com um aceno; a freira pagou o chá e saiu a sorrir para o invisível; o poeta levantou-se, deixou na mesa um poema imaginário e partiu; o velho filósofo fechou Epicteto e murmurou: "Até amanhã, se os deuses quiserem".
Só eles ficaram, os três, na mesa redonda, a vela ainda acesa, a chama mais viva do que nunca.
Aproximei-me para lhes perguntar se queriam mais alguma coisa. Gandhi pediu água; Madre Teresa, outro chá; Anne, um copo de leite, "como nos velhos tempos", disse com um sorriso. Aproveitei para perguntar:
Perdão, mestres, mas permitam-me uma questão. Os senhores viveram em tempos difíceis, enfrentaram o ódio, a guerra, a indiferença. E hoje? O mundo parece ter esquecido as vossas lições. Há guerras, há refugiados, há crianças a morrer na praia, há ódio a crescer como erva daninha. O que diriam aos homens e mulheres do século XXI?
Gandhi respondeu primeiro:
“Diria o mesmo que disse sempre: sede a mudança que quereis ver no mundo. Não esperem que os políticos resolvam, não esperem que os exércitos salvem. Cada um, no seu pequeno círculo, pode fazer a diferença. Uma palavra amável, um gesto de paz, uma recusa em odiar. Tudo isso conta.”
Madre Teresa tomou a palavra:
“Eu diria: amai-vos uns aos outros como Deus ama cada um de vós. Não é fácil, eu sei. Há dias em que o amor parece impossível. Mas é nesses dias que ele é mais necessário. O amor não é sentimento, é decisão. Decidir amar, mesmo quando não se sente.”
Anne Frank, a mais nova, a mais frágil, a mais eterna, falou por último:
“Eu diria: não desistam de acreditar. Eu acreditei, escondida num sótão, com os tanques a passar lá fora. Acreditei que, apesar de tudo, as pessoas são boas. Se eu, uma menina condenada, pude acreditar, como podem os adultos, livres, duvidar? A esperança não é ingenuidade, é resistência.”
Quando a madrugada começou a despontar, levantaram-se. Gandhi deixou sobre a mesa um fuso de tear, desses que usava para fiar o algodão, símbolo da autossuficiência e da paz. Madre Teresa deixou um terço, simples, de madeira, gasto de tanto rezar. Anne deixou uma caneta, dessas de tinta permanente, com que escrevera as últimas páginas do diário.
Limpando as mesas, ainda pensei: Três vidas, três caminhos, uma só mensagem: o amor é possível, a paz é possível, a esperança é possível. Não porque o mundo seja bom, mas porque há sempre alguém disposto a torná-lo melhor.
No meu livro de guardanapos, com a caneta de tinta invisível, escrevi a frase que Anne murmurou ao sair:
"Apesar de tudo, ainda acredito que as pessoas são boas de coração. E essa crença, sozinha, já é uma revolução."




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