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QUE AS CRIANÇAS CANTEM LIVRES

  • Carlos A. Buckmann
  • 28 de abr.
  • 3 min de leitura

QUE AS CRIANÇAS CANTEM LIVRES(*)

(Da série A FILOSOFIA NA MPB)

            Continuo meu percurso solitário pela filosofia na MPB, folheando canções como quem examina pergaminhos antigos.

            E me deparo com essa letra de Taiguara.

            Encanto-me. Não há “sophía” sem espanto, disse Aristóteles, e sou tomado por um assombro doce diante destes versos.

            Escolho, esta melodia para ser meu texto de hoje, porque ela não canta apenas o tempo: ela o analisa. Como se a música fosse um bisturi e o tempo, um corpo aberto.

            “O tempo passa e atravessa as avenidas.”

            Bergson nos lembra que o tempo real é duração, não sucessão. Mas Taiguara o vê como algo que atravessa,  que rasga o espaço urbano, que impõe seu fluxo às construções humanas.

            “O fruto cresce, pesa, enverga o velho pé.”

            Eis a maturação: todo presente é um peso que dobra o passado. Depois, o vento forte quebra telhas e vidraças.

            Heráclito sorri: a mudança é violenta. E,  “o livro sábio deixa em branco o que não é”. Que filosofia espantosa! O saber verdadeiro não preenche tudo; sua sabedoria reside em reconhecer o vazio, o não-ser. Parmênides negaria. Taiguara abraça.

            “Pode não ser essa mulher o que te falta.”

            A canção desmonta nossas certeiras fixações. Sartre diria que estamos condenados à liberdade, mas também condenados a projetar nos objetos e pessoas aquilo que nos falta.

            “Pode não ser esse calor o que faz mal            Pode não ser essa gravata o que sufoca            Ou essa falta de dinheiro que é fatal.”

            A mulher, o calor, a gravata, a falta de dinheiro, cada um pode ser um falso fetiche. O que sufoca não é o nó do tecido, mas o nó da necessidade que inventamos. O que é fatal não é a escassez, mas a crença de que ela é a única causa. A música relativiza todas as amarras. E, ao fazê-lo, liberta.

            “Vê como um fogo brando funde um ferro duro.”

            Espinosa nos ensina que a potência da ação não está na força bruta, mas na constância. O fogo brando é a paciência do ser.

            “O asfalto é teu jardim se você crê.”

            Nietzsche aparece aqui, com seu amor pelo devir e pela transmutação dos valores. A fé não é religiosa, é criadora: crer no asfalto como jardim é instaurar um novo mundo sobre o velho.

            “E o sol nascente avermelha o céu escuro, chamando os homens pro seu tempo de viver.”

            Heidegger falaria do “Dasein” como o ser-para-a-morte; mas Taiguara inverte: o ser-para-o-amanhecer. O chamado não é do nada, é da luz.

            “E que as crianças cantem livres sobre os muros. “E ensinem sonho ao que não pode amar sem dor.”

            A súplica derradeira. As crianças, os que ainda não foram totalmente domesticados pelo tempo cronológico.

            Cantam livres sobre os muros: em cima das divisões, das fronteiras, das cicatrizes do passado. Ensinem os sonhos de criança.

            “E que o passado abra os presentes pro futuro”

            Walter Benjamin falava do anjo da história, que olha para as ruínas enquanto o progresso arrasta tudo. Mas Taiguara quer que o passado abra os presentes pro futuro. Não um futuro que nega o ontem, mas que o incorpora como abertura.

            “Que não dormiu e preparou (que não dormiu e preparou).O manhã é seu, o amanhã é seu, o amanhecer. O amanhã é seu, o amanhã é seu, o amanhecer.”

             A repetição não é vício, é rito.

            Cada “amanhã é seu” dissolve a ideia de um futuro inalcançável. O amanhecer não é um evento astronômico, mas uma decisão. O amanhã pertence a quem o afirma.

            A música termina sem terminar, como um mantra que devolve ao ouvinte a responsabilidade de ser o seu próprio tempo.

            Continuo estudando filosofia na MPB, e esta letra fica em mim como um cristal que refrata todas as horas.

            Penso no menino que fui, que acreditava que o tempo era uma linha reta. Taiguara me mostra que é um círculo de cantos e muros.

            E que as crianças, mesmo as que ainda dormem em nós, podem cantar livres.

            Se o amanhã é meu, então o instante em que escrevo esta linha já é uma pequena aurora.

            E o livro sábio, por fim, deixa em branco o que não é, para que eu mesmo escreva, com minha vida, o que ainda não foi dito.

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