PEDACINHOS
- Carlos A. Buckmann
- 8 de mai.
- 3 min de leitura

PEDACINHOS (*)
(Da série A FILOSOFIA NA MPB)
Era uma tarde qualquer, dessas que nos pegam desarmados, quando coloquei o velho vinil para girar.
Guilherme Arantes cantava "Pedacinhos" e, de repente, o tempo se abriu. Não foi nostalgia, foi um espanto filosófico. Como pode uma canção dos anos 80 ainda ser tão profundamente nossa?
Decidi então seguir a letra como quem segue um fio de Ariadne, para entender não o amor que acaba, mas a teimosia de quem insiste em juntar cacos.
“Pra que ficar juntando os pedacinhos / Do amor que se acabou / Nada vai colar / Nada vai trazer de volta / A beleza cristalina do começo”
Heráclito já sabia: não entramos duas vezes no mesmo rio. O amor que se foi é outra coisa, água que já correu. Mas nós, pobres metafísicos do cotidiano, acreditamos que o tempo para quando fechamos os olhos. Queremos colar o que é intrinsecamente quebradiço. A beleza cristalina do começo não volta porque nem o começo volta, ele morreu no exato instante em que nasceu.
Por que, então, tanta coleção de estilhaços?
“E os remendos pegam mal / Logo vão quebrar”
Sartre diria que tentar remendar o amor é um ato de má-fé. Mentimos para nós mesmos ao fingir que o acaso pode ser recomposto. Os remendos são visíveis, e a alma tem vergonha deles. Quebram depressa porque não suportam o peso do que se tenta esconder. Melhor um buraco limpo do que uma costura torta.
“Afinal a gente sofre de teimoso / Quando esquece do prazer”
Espinosa, tão lúcido, ensinou que a tristeza é uma paixão passiva, uma diminuição da nossa potência de agir. Pois bem: a teimosia de insistir no que já morreu é o avesso do prazer. Esquecemos que o prazer também é um guia. Não o prazer hedonista e raso, mas aquele que nos diz: “aqui já não há mais vida para você”. Sofremos porque confundimos apego com amor. E o apego, meus caros, é apenas o medo de dizer adeus.
“Adeus também foi feito pra se dizer / Bye bye, so long, farewell”
Que estranha sabedoria pop. Adeus não é um fracasso, é uma ferramenta. Como uma faca: pode cortar ou abrir caminho. Wittgenstein escreveu que os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo. Pois ao nomear o adeus, ao dizê-lo em três línguas diferentes, ampliamos o mundo.
O adeus bem dito é um ato de liberdade.
Libertar o outro, libertar a si mesmo.
Não é omissão, é coragem.
“Pra que tornar as coisas tão sombrias / Na hora de partir / Por que não se abrir / Se o que vale é o sentimento / E não palavras quase sempre traiçoeiras”
Schopenhauer notaria que a dor da partida é amplificada por nossas expectativas.
Achamos que partir exige tragédia.
Mas Arantes propõe o contrário: partir com leveza, abrir-se.
Porque o sentimento, esse sim, é verdadeiro; as palavras são mapas que às vezes escondem o terreno.
Quantos “nunca mais” foram ditos por orgulho, quantos “te odeio” por covardia?
O silêncio que sente é melhor que o discurso que trai.
“E é bobeira se enganar / Melhor nem tentar”
Sócrates morreu perguntando. Sabia que o primeiro passo da sabedoria é reconhecer a própria ignorância. Enganar-se sobre o amor que acabou é a maior das ignorâncias.
Não tentar juntar pedaços não é desistência, é lucidez. O Buda chamaria isso de desapego. Não frieza, mas a arte de deixar cair o que já não tem sustância.
O vinil girou, a música acabou.
Eu, cronista de mim mesmo, percebo que “Pedacinhos” não é uma canção sobre a perda, é uma canção sobre a respiração.
Sobre inspirar o que fica e expirar o que passa. Sobre saber que o amor não se mede pelos cacos que guardamos, mas pela inteireza com que nos despedimos.
Na tarde chuvosa de hoje, agradeço a Guilherme Arantes. Sua filosofia pop me ensinou que, às vezes, o mais belo dos gestos é não juntar pedaço nenhum.
É apenas virar a página, e ouvir o farfalhar do novo que começa.
(*) Assista o clip no YouTube




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