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OVELHA NEGRA

  • Carlos A. Buckmann
  • 10 de mai.
  • 3 min de leitura

A OVELHA NEGRA E A FILOSOFIA DA LIBERDADE (*)

(Da série A FILOSOFIA NA MPB)

            Não poderia, em sã consciência, deixar de fora da minha antologia a eterna rainha do rock brasileiro.

            Rita Lee Jones de Carvalho, paulistana de 1947, foi uma daquelas raras criaturas que transformaram a própria existência numa obra de arte subversiva.

            Filha de mãe dentista e pai imigrante americano, aprendeu cedo que ser diferente não era defeito, mas assinatura. Nos Mutantes, desafiou a ditadura com sua voz que parecia rir do perigo. Depois, seguiu solo, sempre com a língua afiada e o coração exposto. Morreu em 2023, mas deixou para nós, os que ainda tropeçamos na busca por nós mesmos, um testamento musical que pulsa como víscera.

            "Levava uma vida sossegada / Gostava de sombra e água fresca / Meu Deus quanto tempo eu passei / Sem saber."

            A primeira armadilha da existência: o sono anestésico do cotidiano.

            Espinosa diria que vivemos sob a servidão das paixões tristes, contentes com a pequena sombra e a água morna. Não saber é, paradoxalmente, um estado de graça, mas graça de quem ainda não despertou para o abismo.

            Quantos anos perdi dentro de quartos arrumados, de horários previsíveis, de conversas que não diziam nada? A ovelha negra, descobri, não nasce negra: torna-se negra no instante em que a lã branca começa a coçar.

            "Foi quando meu pai me disse filha / Você é a ovelha negra da família / Agora é hora de você assumir / e sumir."

            O pai, ou a mãe, ou a sociedade, ou o olhar do outro, sempre chega com o veredito. Para Sartre, o inferno são os outros; mas aqui o inferno é também um presente: ser nomeado o estranho, o descarrilhado, a mancha no brasão.

            "Sumir" não é desaparecer fisicamente, é romper com o rebanho. É o gesto corajoso de que falava Kierkegaard, o salto para a fé em si mesmo. Assumir a pecha de ovelha negra é aceitar que a família, por vezes, é apenas o primeiro círculo de convenções a ser rompido.

            "Baby baby / Não adianta chamar / Quando alguém está perdido / Procurando se encontrar."

            Perder-se, para a filosofia, não é erro de rota. É método.

            Foucault andou pelas margens; Cioran se perdeu de propósito nos labirintos do ceticismo. Quando alguém procura se encontrar, todas as vozes que gritam "volte para cá" são ruídos. O chamado da mãe, do chefe, do vizinho que diz "você está louco", tudo isso compõe a paisagem sonora que se deve calar. Perder-se é um verbo intransitivo: não se perde algo, perde-se a si mesmo para, quem sabe, ganhar-se outro.

            "Não vale a pena esperar, oh não / Tire isso da cabeça / E ponha o resto no lugar."

            A urgência estoica de Sêneca: não esperes o tempo certo, porque o tempo certo é agora. "Isso" que deve ser tirado da cabeça são as amarras, o medo do julgamento, a memória dos afetos que pesam, a ilusão de que um dia tudo se resolverá por si. "O resto" é o mundo que se organiza depois da decisão.

            Camus, no Mito de Sísifo, nos lembra que o absurdo não se resolve, se enfrenta. E enfrentar exige que se troque a contemplação pela ação. Tirar da cabeça é, afinal, um imperativo ético.

            "Ovelha negra da família / não vai mais voltar."

            O retorno é vetado. Não por maldade, mas por necessidade ontológica. Quem atravessou a linha que separa o manso do selvagem compreende que não há como desatravessar.

            Heráclito sabia: nunca entramos duas vezes no mesmo rio. A ovelha que se fez negra não renega a família, apenas constata que o rebanho, com seu pasto cercado e seu pastor de chicote, já não lhe serve.

            A atualidade disso dói. Quantos jovens hoje, ao se assumirem LGBTQIA+, ao escolherem uma arte em vez de um concurso, ao preferirem a solidão criativa ao aconchego opressor, ouvem o mesmo "suma" que se transforma, depois, em "não volta mais"?

            Retorno a lembrança de Rita Lee, que  foi a ovelha negra máxima da nossa música, mas que, ao sumir, criou um pasto novo para todas as ovelhas que viriam depois.

            Ela não voltou, e ainda bem. Porque sua ausência é uma presença mais viva do que muitas presenças mornas. Dizia ela em outra canção: "amor, é um livro, se alguém já escreveu, ninguém se lembrou de ler".

            Talvez a filosofia inteira seja isso: aprender a ser ovelha negra, rasgar a página do rebanho, e escrever, com a lã suja de mundo, a única história que valha a pena ser contada.

            A minha. A sua. A nossa, cada um no seu deserto florido.

(*) Veja o clip no YouTube

 
 
 

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