OS EFEITOS DA FILOSOFIA
- Carlos A. Buckmann
- 15 de mar.
- 4 min de leitura

OS EFEITOS DA FILOSOFIA
Depois da crônica anterior onde comparei as filosofias de Sartre e Sêneca, tirei do bolso do meu colete filosófico, uma epifania: continuar comparando filosofias e filósofos.
Isso me levou a reler a “Carta Sobre a Felicidade”, de Epicuro e comparar sua filosofia com a estoicidade de Sêneca.
Fechei o pequeno volume. As palavras de Epicuro a Meneceu ainda vibravam no ar como uma melodia antiga e serena. "O prazer é o princípio e o fim da vida feliz."
A sentença, tantas vezes mal compreendida e vilipendiada, ressoa em mim com a simplicidade de uma fonte. Não o prazer dos desenfreados, dos gozos ruidosos, mas a ausência de dor no corpo e de perturbação na alma.
A “ataraxia”, o jardim, a amizade, um pedaço de queijo e uma conversa boa. Era isso.
Então voltei para o meu velho companheiro Sêneca. "Aprendendo a Viver". O outro grande mestre da felicidade, o estoico, o homem que enfrentou a cólera de Nero e a adversidade com a rigidez de uma rocha.
A comparação se torna inescapável: ambos, Epicuro e Sêneca, queriam a mesma coisa, a felicidade, a tranquilidade do espírito. Mas que caminhos tão distintos! Um, o prazer; o outro, a virtude. Um, o jardim resguardado; o outro, a ágora tempestuosa. Como conciliar essas duas vozes que, de dentro de mim, parecem disputar a minha alma?
Resolvi pô-las frente a frente.
Epicuro, com seu sorriso manso, argumenta que a felicidade é o objetivo natural de todo ser vivo. Buscamos o prazer e fugimos da dor. A sabedoria, para ele, é saber escolher: preferir os prazeres naturais e necessários, o pão, a água, a amizade e evitar os vãos e artificiais: a riqueza, a fama, o poder.
A felicidade é um estado de equilíbrio, de autossuficiência (autarkeia). "Quem tem pouco não é pobre, mas quem deseja mais é pobre", ensina. Viver no jardim, longe da política, com os amigos, cultivando a serenidade. É uma filosofia do recolhimento, da doçura.
Sêneca, de sobrancelhas franzidas, contra-argumenta. Para ele, a felicidade não está no prazer, mas na virtude. O bem supremo é uma alma racional, firme, que não se abala com os golpes da fortuna. Não podemos controlar o que nos acontece, mas podemos controlar o nosso juízo.
O sábio não busca o prazer; se este vier como consequência da virtude, que seja, mas não é o fim. O que importa é a retidão moral, a coragem, a justiça, a temperança.
Enquanto Epicuro nos aconselha a evitar a dor, Sêneca nos exorta a enfrentá-la com dignidade. "A felicidade é ter a alma livre de erros, elevada, pronta a desafiar qualquer ameaça", escreve.
Onde, então, se tocam?
Primeiro, num ponto fundamental: ambas são filosofias para a vida prática, exercícios espirituais, não meras especulações.
Ambos diagnosticam a infelicidade humana na mesma fonte: a escravidão aos desejos irracionais e às opiniões alheias. O homem que corre atrás de riquezas ou se desespera com a fama é, para ambos, um louco. Tanto Epicuro quanto Sêneca pregam a autossuficiência: a capacidade de bastar-se a si mesmo, de encontrar a felicidade dentro da própria alma, e não nos bens externos.
E ambos valorizam a amizade como um bem inestimável, embora por razões distintas: Epicuro a vê como o maior dos prazeres; Sêneca, como um campo de exercício da virtude.
Mas a contraposição é tão profunda quanto o encontro.
Para Epicuro, a virtude é um meio para o prazer; para Sêneca, o prazer (se vier) é um subproduto da virtude.
O epicurista recua diante da dor desnecessária; o estoico a abraça se for para manter a sua integridade moral. O epicurista foge da vida pública, pois ela traz perturbação; o estoico engaja-se nela como um dever, um papel a ser representado no grande teatro do mundo, mesmo sob o risco de sofrer.
Cícero, o tribuno romano imortalizado pelas Catilinárias, em "Dos Deveres", já tentava um meio-termo, valorizando a tranquilidade epicurista, mas sem abandonar a obrigação política.
Montaigne, muito depois, em seus "Ensaios", bebe nas duas fontes: adota a introspecção cética, mas também a coragem estoica de enfrentar a morte, e o prazer epicurista de uma vida simples e sábia. Ele é talvez o melhor exemplo de um homem que tenta viver ambas as sabedorias.
Na história, encontramos figuras que parecem encarnar cada um desses caminhos.
Thomas Jefferson, o autor da Declaração de Independência, declarava-se epicurista: buscava a felicidade, a liberdade, o prazer da vida simples em Monticello, entre livros e amigos.
Já Marco Aurélio, o imperador-filósofo, é o estoico por excelência: governando um império em crise, escrevendo para si mesmo meditações sobre a brevidade da vida e a necessidade de agir com justiça, sem se perturbar com o que não controla.
Eu, pobre cronista, sentado entre livros, a quem devo seguir?
Por que abraçar ambas as ideias, se elas parecem puxar para lados opostos?
Porque a vida, em sua complexidade, me exige isso.
Há dias em que a sabedoria necessária é a de Epicuro: dias de cansaço, em que o melhor é recolher-se, saborear um prazer simples, o sol da manhã, a leitura de um poema, a conversa com um amigo, um cálice de vinho, e deixar de lado as ambições tolas. É a sabedoria do contentamento.
Há outros dias, porém, em que a vida me impõe provações: uma perda, uma injustiça, um medo.
Nesses momentos, é a voz de Sêneca que me ampara. É ela que me lembra: "Não são os acontecimentos que te perturbam, mas o juízo que fazes deles." É ela que me ensina a erguer a cabeça, a aceitar o que não posso mudar e a agir com retidão no que me cabe.
Na vida, essa dupla cidadania filosófica é um tesouro.
Pela manhã, ao sair para o mundo, Epicuro me adverte: não te deixes levar pela corrida insensata; lembra-te de que o essencial é simples.
Ao longo do dia, quando os contratempos surgem, Sêneca me fortalece: isto também passará; o que importa é como tu, agora, decides responder.
Assim, entre o jardim e a fortaleza, vou tecendo a minha precária, mas sincera, felicidade.
Será que sou um “existencialista-estoico-epicurista?”
A filosofia faz isso com a gente.




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