O REJUVENESCER NA MATURIDADE
- Carlos A. Buckmann
- 20 de abr.
- 3 min de leitura

O REJUVENESCER NA MATURIDADE
Há dias, ao reencontrar um livro esquecido na estante, deparei-me com essa frase de Hermann Hesse. E ela me feriu como um espinho doce:
“Como pode a maturidade nos tornar mais jovens? Não seria o contrário, o desgaste, a ruga, o cansaço?”
Foi justamente essa contradição que me levou a reler o velho mestre suíço-alemão. Ele escreveu esses textos aos quarenta e três anos, idade em que muitos já se sentem em pleno declínio, e os guardou até o fim da vida. Morreu quase aos oitenta e cinco.
Li. Reli. E entendi.
Hesse não nos oferece receitas contra o envelhecimento. Nada de cremes ou promessas de eternidade. O que ele faz é mais sutil: ensina a aceitar o tempo como quem aceita o outono.
“Como sempre, gostamos da vida e desejamos a ela permanecer fiéis”,
Escreve. E compara a amizade e o amor a vinhos de boa origem: não se deterioram com os anos. Ganham corpo. Ganham valor.
É disso que fala a maturidade. Não de resistir ao tempo, mas de envelhecer bem. Como o vinho. Como a madeira. Como a paisagem que amadurece na luz da tarde.
Li em voz alta o poema que encerra o livro, e confesso que me emocionei:
“Para os velhos é bom e são
Borgonha tinto ao pé da lareira.
E depois uma morte ligeira.
Porém só mais tarde, hoje não!”
A morte ligeira, sim, mas não agora. Há ainda a lareira. Há ainda o vinho. Há ainda a alegria de estar vivo, mesmo sabendo que a partida é certa.
Isso não é juventude? Essa fome de presente, esse desejo de postergar o fim? Talvez a velhice verdadeira não seja a dos ossos, mas a da alma que já não deseja nada.
Hesse reencontra Nina, uma velha amiga no Tessin. Descreve-a como exemplo de isolamento sem amargura, alguém que “despreza o mundo e jamais se curva diante dele”. Que liberdade! Que juventude inquebrantável.
Depois, em “Experiências outonais”, encontra Oto. Outro velho. E anota: “No fundo, todos os velhos raciocinam em termos históricos”.
Sim, porque acumularam história. Mas não como peso. Como sabedoria. Quem tem história não precisa correr atrás do futuro. Pode, enfim, contemplar.
Eis o que aprendi com esse livro delicado e feroz: envelhecer é desapegar-se da ilusão da permanência. É aceitar que a primavera não volta, mas que o outono tem sua própria beleza. É parar de lutar contra o espelho e começar a lutar contra o tédio, a mesmice, a falta de espanto.
Por isso Hesse diz que a maturidade nos torna mais jovens. Porque o jovem verdadeiro não é aquele sem rugas, é aquele que ainda se admira com a manhã, que ainda deseja, que ainda ama.
O velho de espírito é o que já desistiu de aprender. Esse, sim, envelheceu de verdade.
E, no entanto, e aqui faço minha crítica, vivemos numa época que cultua o jovem como ideal e abandona o velho como sobra.
Mas Hesse nos lembra, com sua calma suíça, que essa é uma batalha perdida. E pior: uma batalha que nos torna mais infelizes. Pois lutar contra o tempo é lutar contra a vida.
O que nos torna jovens, no fim das contas, não é a pele lisa. É a capacidade de ainda se surpreender. De ainda se indignar. De ainda sentir o gosto do vinho e a companhia do fogo.
“Com a maturidade fica-se mais jovem”.
Quantos, porém, têm coragem de envelhecer a ponto de conquistar essa juventude?
O próprio Hesse, quase octogenário, ainda escutava as mensagens que vinham de fora.
“Talvez antes de uma nova aurora, em minha casa eu possa estar.”
Essa esperança, essa disposição para a chegada, é o que verdadeiramente nos mantém vivos.
Não a idade. Mas a abertura.
Morreremos um dia. Mas enquanto isso, que sejamos como Nina: isolados, porém firmes. Desprezando o mundo que nos quer jovens a qualquer preço, e jamais nos curvando diante dele.
Porque a única juventude que vale é aquela que a maturidade nos dá.
E essa, meus caros, ninguém tira.




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