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O REINVENTAR-SE DIÁRIO

  • Carlos A. Buckmann
  • 13 de mar.
  • 3 min de leitura

O REINVENTAR-SE DIÁRIO

            Retomo, no silêncio que precede a aurora, as páginas amareladas de “O Existencialismo é um Humanismo”.

            O texto, transcrição da conferência proferida por Jean-Paul Sartre no Club Maintenant, em 1945, surgiu como uma defesa vigorosa contra as acusações de quietismo e subjetivismo gratuito.

            Ali, Sartre cristaliza a premissa de que a existência precede a essência: não há um molde prévio, um determinismo biológico ou divino que nos defina. O homem é, antes de tudo, um projeto que se lança no futuro. Quando ele afirma que “o homem tem de se inventar todos os dias”, não nos oferece um convite ao otimismo pueril, mas nos condena à liberdade absoluta, uma liberdade que pesa tanto quanto a própria responsabilidade de ser o único legislador do seu destino.

            Observando, da minha janela, a cidade vazia na madrugada, me deparo com o vulto de um caminhante solitário, sob a garoa fina que cai, e percebo que essa "invenção de si" tornou-se um simulacro na sociedade contemporânea. Para onde vai esse homem, de onde vem esse homem, qual seu propósito, quais seus desejos, o que ele inventou para hoje?

            O que Sartre via como uma angústia ética, o mundo atual transformou em uma mercadoria estética. Já não nos inventamos através da ação moral ou do engajamento existencial; somos "inventados" por algoritmos que antecipam nossos desejos e por vitrines digitais que exigem a curadoria constante de uma identidade performática. A subjetividade, que deveria ser um campo de batalha interno, tornou-se um produto de prateleira.

            Nesta análise, encontro ecos em Friedrich Nietzsche, para quem a superação do homem (Übermensch) exigia a coragem de destruir velhas tábuas de valores para criar as próprias.

            Também Simone de Beauvoir, em sua ética da ambiguidade, reforça que o ser humano só se realiza através de sua constante transcendência.

            Até mesmo Søren Kierkegaard, o precursor cristão desse movimento, já nos alertava sobre a vertigem da liberdade, a angústia de saber que cada escolha é um corte, um sacrifício de infinitas outras possibilidades.

            A realidade, contudo, é um carrasco implacável para essas teorias.

            Enquanto filósofos pregavam a “auto invenção”, a história recente nos mostra uma humanidade que clama pela servidão voluntária.

            O surgimento de regimes autocráticos que operam por meio da desinformação, gerando bolhas de conflitos e guerras que se sabe como começaram, mas que não se tem ideia de como terminarão, o colapso dos grandes ideais de fraternidade frente ao individualismo predatório e a degradação do meio ambiente em nome de um progresso insustentável, são fatos que depõem contra qualquer esperança de "invenção" virtuosa.

            O homem não está se inventando; ele está se desintegrando.

            Encerro estas meditações com um sabor amargo, mais denso que o café que esfria na xícara. O projeto “sartreano” de uma humanidade que se autodefine com consciência parece ter fracassado tragicamente.

            Recebemos o fardo da liberdade, mas, incapazes de suportar o peso da angústia, entregamos nossa autonomia a estruturas invisíveis de controle e ódio.

            O "homem" de hoje não se inventa; ele se repete, exausto, em um ciclo de consumo e indiferença.

            Se a existência precede a essência, a essência que estamos deixando para trás é o vazio.

            A humanidade não é um projeto em construção; é um naufrágio que, por vaidade, ainda insiste em descrever a beleza das ondas que o devoram.

Beto Buckmann

Crônicas entre ideias e pólvora.

 

 
 
 

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