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O QUE FAZ PULSAR O TEMPO

  • Carlos A. Buckmann
  • 20 de abr.
  • 4 min de leitura

O QUE FAZ PULSAR O TEMPO

            Sentado à janela do meu apartamento, enquanto o crepúsculo apaga seus últimos fios dourados sobre os telhados da cidade, permito-me um raro momento de intimidade comigo mesmo, não com o eu que fala, mas com o eu que escuta.

            É nesse silêncio, quase sagrado, que me pergunto: por que continuo a respirar? Por que insisto em acordar, em caminhar, em escrever, em amar, em sofrer? A vida, em sua manifestação mais crua, é um dado biológico: o coração bate, os pulmões se enchem, os dias se sucedem. Mas o que dá sentido a esse bater, a esse encher, a esse suceder?

            Então, como um relâmpago em noite de verão, surge a frase de Fiódor Dostoiévski: “O segredo da existência humana reside não só em viver, mas também em saber para que se vive.” Uma sentença aparentemente simples, mas de profundidade abissal.

             Dostoiévski, o escritor russo do século XIX, não foi apenas um mestre da literatura, mas um filósofo da alma. Torturado pela epilepsia, pelo exílio siberiano, pela fé e pela dúvida, mergulhou nos abismos do espírito humano.

            Em obras como Crime e Castigo, O Idiota e Os Irmãos Karamázov, não narra apenas histórias: desenha mapas do sofrimento, da redenção, da loucura e da graça. Sua frase não é um aforismo decorativo; é um grito existencial, um chamado à consciência.

            Ao meditar sobre ela, percebo que Dostoiévski não inventou nada, apenas nomeou o que já lateja desde os primórdios do pensamento humano.

            Platão, em sua “Alegoria da Caverna”, já falava de homens acorrentados, vendo sombras, incapazes de enxergar a luz da verdade. Para ele, viver sem saber para que se vive é permanecer nas correntes.

             Aristóteles, ao discorrer sobre a “eudaimonia”, a felicidade como realização do propósito, afirmava que o homem só é pleno quando age conforme sua “telos”, seu fim último.

            E nos estoicos, como Sêneca e Marco Aurélio, encontramos a mesma exigência: viver com intenção, com direção moral, com lucidez sobre o que é essencial. Marco Aurélio, nas “Meditações”, recorda a si mesmo: “Vives como se já tivesses partido e não cuidasses de ti. Logo, se não cuidas agora, terás partido e a ocasião não voltará.” Trata-se, pois, de uma filosofia da presença, da atenção ao instante como se fosse o último, mas também como se fosse o primeiro de uma vida com sentido.

            Essa filosofia, contudo, não é privilégio dos eruditos ou dos místicos. É um imperativo ético que deve habitar cada escolha, cada gesto, cada respiração. Individualmente, saber para que se vive é o que distingue a existência da mera sobrevivência.

             É o que transforma o trabalho em vocação, o amor em entrega, a dor em experiência significativa.

            Socialmente, é o que sustenta comunidades, culturas, civilizações. Quando um povo perde o sentido, entra em decadência, não por falta de recursos, mas por falta de razão para usá-los. Hannah Arendt, em “A Condição Humana” advertiu para o perigo da “vita activa” esvaziada de propósito, quando os homens se reduzem a “animais laborantes”, presos ao ciclo eterno da necessidade, sem jamais ascender à esfera pública onde o significado se constrói coletivamente.

            Quantos vivem, e morrem, sem jamais terem feito essa pergunta fundamental!

            Vivem como autômatos, movidos por impulsos, convenções, pressões sociais. Trabalham por dinheiro, amam por conveniência, consomem por vazio.

            São prisioneiros da vida sem porquê e, nesse cárcere, a existência se torna um simulacro. O mundo corporativo está cheio deles: executivos que sobem na hierarquia, mas descem na humanidade; empresas que crescem em faturamento, mas encolhem em ética; marcas que vendem tudo, menos significado.

            O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em “A Sociedade do Cansaço”, diagnostica essa epidemia de vazio: vivemos na era do desempenho, onde o indivíduo se explora a si mesmo até a exaustão, convencido de que é livre, quando na verdade é escravo de uma lógica que transforma tudo em mercadoria, inclusive o sentido.

            A pergunta "para que vivo?" torna-se subversiva num mundo que nos quer apenas funcionais.

            É nesse cenário que a frase de Dostoiévski se torna um ato de resistência.

            Recusar-se a viver sem saber para que se vive é um gesto revolucionário. É dizer não ao automatismo, ao consumismo, ao cinismo.

            É exigir da vida mais do que mera duração, exigir profundidade, intenção, verdade.

            Lembro novamente de Viktor Frankl, psiquiatra austríaco sobrevivente dos campos de concentração, que em “Em Busca de Sentido” narra como aqueles que mantinham um propósito, reencontrar um ente querido, completar uma obra, resistiam mais à desumanização do que os que haviam perdido toda razão para viver.

            Frankl cita Nietzsche: “Quem tem um porquê viver suporta quase qualquer como.” O sentido não elimina a dor, mas a torna suportável, integrando-a numa narrativa maior.

            Por isso, enquanto o crepúsculo se apaga e as luzes da cidade acendem, decido: não quero apenas viver.

            Quero saber para que vivo. E, nesse saber, talvez encontre, enfim, o segredo que Dostoiévski intuiu, que os filósofos buscaram e os sábios guardaram em silêncio: que a vida só é digna de ser vivida quando é vivida com propósito, e que, sem ele, tudo é pó, vento e tempo desperdiçado.

            A cada manhã, ao despertar, posso escolher entre repetir o gesto vazio ou perguntar: o que hoje dará sentido a este dia?

            Pode ser um gesto pequeno, uma palavra de conforto, uma leitura que ilumine, um trabalho feito com esmero, mas será meu.

            E nessa apropriação cotidiana do existir, talvez resida a única eternidade a que podemos aspirar: a de instantes carregados de significado, que pulsaram com a força de quem sabe por que vive.

 
 
 

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