O PÁLIDO PONTO AZUL E SEUS DEUSES
- Carlos A. Buckmann
- 20 de abr.
- 3 min de leitura

O PÁLIDO PONTO AZUL E SEUS DEUSES
Li a notícia no intervalo entre um gole de café e outro.
Mais uma vez, os mesmos nomes: Israel, Irã, Palestina, Estados Unidos. Bombas que caem, muros que se erguem, discursos que inflamam, civis que sangram.
Fechei o jornal e senti aquela náusea familiar, a que vem quando percebemos que o que lemos hoje é, no fundo, o mesmo que lemos ontem, e que nossos netos lerão amanhã, apenas com os nomes trocados.
Então me veio à memória a frase de Marcel Proust, aquela que sempre guardei como um diagnóstico implacável:
“A tranquilidade é coisa desconhecida, pois estamos sempre cercados de monstros e deuses.”
E pensei: como ele tinha razão. A tranquilidade não é um estado que nos seja dado; é apenas uma trégua breve entre dois assombros.
Porque os monstros não são apenas os que vemos nos noticiários. São também os que habitam dentro de cada um de nós. E os deuses, esses, são piores: são as causas pelas quais matamos com a consciência limpa.
Sumérios, egípcios, gregos, todos guerrearam em nome de seus deuses.
A história é um rio que nunca seca, porque a fonte é sempre a mesma: a certeza de que os nossos monstros são justos e os deuses dos outros são falsos.
Mas por que agimos assim?
Hobbes diria que é o estado natural do homem: a guerra de todos contra todos, até que um Leviatã nos imponha a paz pelo medo.
“Maquiavel ensinou que os príncipes não governam com bondade, mas com eficácia. E os príncipes de hoje, que se chamem presidentes, primeiros-ministros, aiatolás ou generais, seguem à risca o manual: a tranquilidade dos súditos é moeda de troca pelo poder dos senhores.
Freud, por sua vez, nos mostrou que o mal não está apenas nas instituições, mas naquilo que reprimimos. Nós, que domesticamos nossos instintos para viver em sociedade, precisamos de inimigos externos para projetar o que não podemos admitir em nós mesmos.
Os monstros estão fora porque não suportamos olhar para os que estão dentro.
E como interromper esse círculo vicioso?
Há quem aposte na educação. Montaigne dizia que é preciso ensinar a distinguir entre conhecimento que infla e sabedoria que modera. Mas quantas gerações foram educadas para o ódio, com mapas de fronteiras móveis e histórias contadas como epopeias de eleitos?
Outros apontam para a religião. Mas os deuses, de que nos fala Proust, são justamente os que nos impedem de ver a humanidade do outro. A fé que deveria unir é a mesma que condena o infiel à morte. E quando os deuses entram em campo, a negociação cede lugar à cruzada.
Hannah Arendt talvez tenha dado a pista mais certeira: a banalidade do mal. O horror nasce de homens comuns que obedecem, que delegam a consciência.
Interromper o círculo exigiria que cada um de nós recusasse o papel de mero parafuso.
Mas recusar é difícil. Exige coragem, mas exige também tempo para pensar, e ninguém tem tempo para pensar quando a máquina de propaganda funciona vinte e quatro horas por dia, quando os algoritmos nos alimentam com o que já queremos ouvir, quando a tranquilidade nos é vendida como um prêmio para quem não questiona.
Talvez o primeiro passo seja, como sugeria Sócrates, saber que não sabemos. Admitir que os nossos deuses podem ser ídolos e os monstros do outro podem ser vítimas de sua própria cegueira.
Mas admitir isso é, para quem governa, um ato de fraqueza; para quem crê, uma heresia; para quem teme, uma traição.
Assim permanecemos, neste pequeno ponto azul que Carl Sagan descreveu com uma ternura que beira o desespero: um grão de poeira suspenso num raio de sol, onde todas as nossas certezas, as nossas guerras santas se resumem a um silêncio cósmico.
Se continuarmos a cultivar monstros e a servir deuses que exigem sangue, o que nos espera é o que sempre nos esperou,— até que não sobre mais ninguém para sonhar..
Proust sabia que a tranquilidade nos é estranha. Mas talvez devêssemos acrescentar: não porque o mundo seja inerentemente violento, mas porque preferimos o conforto dos nossos monstros conhecidos ao trabalho árduo de construir uma paz que não precise de deuses para se justificar.
Enquanto isso, fecho o jornal.
O café esfriou. Lá fora, o mundo continua, com seus mísseis, suas preces, seus mortos sem nome.
Eu, aqui, me pergunto se algum dia aprenderemos a lição mais simples de todas: “os monstros têm a nossa carne, e os deuses, quando não nos matam, são apenas o nome que damos à nossa incapacidade de ser humanos”.




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