O PODER QUE NÃO SE ESCOLHE
- Carlos A. Buckmann
- 23 de abr.
- 4 min de leitura

O PODER QUE NÃO SE ESCOLHE
(Da série A FILOSOFIA NA MPB)
Havia eu, na tarde silenciosa do escritório, mergulhado naquela velha disputa que me consome: de um lado, a liberdade radical dos existencialistas:
Sartre a gritar que estamos condenados a ser livres, que a existência precede a essência, que o homem é nada mais que o seu projeto.
Do outro, a ética serena de Spinoza, para quem liberdade não é arbítrio, mas consciência da necessidade; agimos não por vontade solta, mas pelo conatus, o esforço de perseverar no ser, sob a ordem imutável da Natureza ou da POTÊNCIA.
Foi quando a canção entrou pela janela, como um vento morno de subúrbio. “O Poder da Criação”, de Paulo César Pinheiro e João Nogueira. (*) E cada estrofe desfez, uma a uma, as minhas teias conceituais.
Entre um e outro, me perguntava: onde fica o ato criador? O samba, o poema, a invenção, nascem de um salto no vazio ou são expressão de uma causa que nos ultrapassa?
“Não, ninguém faz samba só porque prefere / Força nenhuma no mundo interfere / Sobre o poder da criação”
A primeira negativa atinge em cheio o existencialismo. Se fosse por preferência, por escolha consciente, o samba seria um ato de vontade, mas não é. Sartre diria que até o não-escolher é uma escolha; mas a música ri disso.
Criar não decorre de um decreto do eu.
Spinoza também negaria o livre-arbítrio, mas sua necessidade é cega, geométrica.
Aqui, porém, a força que não interfere não é uma corrente de causas e efeitos; é uma força que deixa ser. Nietzsche talvez entendesse melhor: a criação é afirmação, transbordamento, vontade de potência que não se comanda, mas que acontece. O criador não é senhor; é servidor de algo que o ultrapassa.
“Não, não precisa se estar nem feliz, nem aflito / Nem se refugiar em lugar mais bonito / Em busca da inspiração”
Segunda negativa: contra a romantização da criação.
Quantas vezes pensei, com os estoicos, que a arte nasceria da ataraxia, ou com os hedonistas, do prazer.
A canção desmente: nem a alegria, nem a dor são condição. E aqui lembrei de Kierkegaard, do salto da fé no abismo da angústia; mas a música não pede salto, nem abrigo. Inspiração não se busca; ela é caça que surge sem rastreador.
Bergson falava do ímpeto vital, uma criatividade imanente à própria duração. Pois bem: o samba é esse ímpeto, que não depende do meu humor. Ele vem quando quer, e onde quer, às vezes na lama, às vezes na festa.
“Não, ela é uma luz que chega de repente / Com a rapidez de uma estrela cadente / Que acende a mente e o coração”
Terceira negativa: contra o esforço metódico.
Aqui o pensamento de Platão ronda a alma: a inspiração é mania divina, furor poético que o poeta não controla.
Mas ao contrário do filósofo grego, que via nesse delírio um dom dos deuses, a canção não separa céu e terra. A luz que chega de repente é natural, estrela cadente, não revelação olímpica. E acende mente e coração juntos, sem o dualismo que tanto atormentou Descartes.
Spinoza sorriria: afinal, para ele, pensamento e afeto são atributos da mesma substância. A criação é essa centelha que unifica o que a razão separou.
“É, faz pensar / Que existe uma força maior que nos guia / Que está no ar / Bem no meio da noite ou no claro do dia / Chega a nos angustiar*
Eis o paradoxo que me angustia.
Existencialistas como Camus falavam do absurdo: o mundo é indiferente, sem sentido prévio. Spinoza falava de Deus como causa imanente, mas sem finalidade, sem guia pessoal.
Agora a canção insinua uma “força maior” que nos guia.
Isso não seria uma volta à teleologia, ao destino?
O cronista em mim se inquieta.
Mas a palavra “angustiar” salva: não é um guia paternal, benigno. É uma força que oprime e liberta ao mesmo tempo, como o vento que empurra o navegante sem perguntar seu destino.
Heidegger diria que a angústia revela o ser-para-a-morte; aqui, revela o ser-para-a-criação. A força no ar é o próprio mundo em sua potência anônima, o que os antigos chamavam de “pneuma”, os chineses de “qi”. Ela guia sem rumo, e nisso nos angustia.
“E o poeta se deixa levar por essa magia / E um verso vem vindo, e vem vindo uma melodia / E o povo começa a cantar, Laraiá”
Finalmente, a entrega.
O poeta não é agente, é paciente. “Deixa-se levar”, voz passiva, que os gramáticos condenam, mas que a vida inteira justifica. Nesse deixar-se, o verso em vindo, a melodia vem vindo, como as ondas que não pedem licença. E então o milagre: o povo começa a cantar.
O que era íntimo torna-se coletivo. O samba, que parecia solidão da criação, vira festa.
Hegel veria aí o espírito objetivo se manifestando; mas prefiro a simplicidade de Mário de Andrade: o que importa é o povo cantar.
O “Laraiá” não significa nada, e por isso significa tudo, é o grito anterior à linguagem, o ritmo anterior à melodia, a comunidade anterior ao indivíduo.
A canção termina, mas o pensamento continua.
Sartre e Spinoza ainda discutem na minha cabeça, porém, de modo mais ameno.
Talvez a criação não se deixe aprisionar nem pela liberdade absoluta, nem pela necessidade geométrica.
Ela é um terceiro caminho: aquele em que a força que nos guia não anula nossa singularidade, assim como o rio não anula a folha que flutua.
O samba não prova nenhum sistema; ele apenas acontece. E, acontecendo, revela que o poder da criação é anterior à filosofia, é a própria respiração do real.
Quase sem perceber, meus dedos batucam na mesa. E um verso vem vindo. E uma melodia vem vindo. E eu, que tanto pensei sobre a liberdade, me descubro livre exatamente por me deixar levar. Lá, Laraiá, laiá, ó, não.
* Ouça a música no Youtube: https://youtu.be/tiAa8JsI37Y?si=yD4_N6BFkCCZOKhD




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