O MALUCO E O SEGREDO
- Carlos A. Buckmann
- 24 de abr.
- 7 min de leitura

(Da série "A FILOSOFIA NA MPB")
O MALUCO E O SEGREDO
Organizava , na tarde silenciosa, os nomes para o texto seguinte da minha coletânea “A Filosofia na MPB”.
Vinha de Chico Buarque e sua dialética do oprimido; passava por Caetano e sua antropofagia existencial; pensava em Gil e sua fenomenologia do axé.
Mas faltava um. Um que não se deixasse classificar nem pela Escola de Frankfurt nem pelo estruturalismo francês. Alguém que merecesse o título que o próprio povo lhe deu: Maluco Beleza.
Raul Seixas. Escolhido o nome, fui à sua obra em busca do que há de mais filosoficamente profundo. Não “Sociedade Alternativa”, que já é uma cátedra de anarquismo espinozista. Não “Ouro de Tolo”, que é um tratado sobre a má-fé sartriana. O mais profundo, e sinto o paradoxo antes mesmo de ouvir, é aquele em que ele canta para a própria morte(*). Pois que maior filosofia que pensar o fim, como ensinou Cícero? E maior paradoxo que um maluco beleza convidar a morte para dançar?
Coloquei o disco. E cada estrofe, como um soco e como um abraço, desmontou o que eu pensava saber sobre morrer.
“Eu sei que determinada rua que eu já passei / Não tornará a ouvir o som dos meus passos / Tem uma revista que eu guardo há muitos anos / E que nunca mais eu vou abrir”
Aqui, a primeira lição: contra a ilusão do sempre. Heidegger escreveu que o ser-para-a-morte autentifica a existência, pois cada instante pode ser o último.
Raul canta essa autenticação sem nenhum “pathos” trágico. A rua que não ouvirá seus passos não é uma perda, é um fato. A revista que nunca mais abrirá não é um lamento, é uma constatação. E nessa constatação, paradoxalmente, há uma leveza.
O existencialismo heideggeriano muitas vezes pesa como lápide; aqui, o peso se dissipa na cadência da voz. Não é o medo, é a clareza. Montaigne, que escreveu que “filosofar é aprender a morrer”, reconheceria nesses versos um estágio superior: não aprender, apenas saber.
“Cada vez que eu me despeço de uma pessoa / Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez”
Segunda estrofe: o outro como espelho da finitude. Simone de Beauvoir, em “A Força das Coisas”, fala da despedida como rito da consciência infeliz. Mas Raul não sofre. Ele apenas diz: pode ser. Não é certeza, é possibilidade. Isso transforma cada despedida num instante sagrado.
Os estoicos recomendavam o “memento mori” para valorizar o presente; Raul vai além: o “memento mori” não é um lembrete fúnebre, mas um convite para olhar nos olhos de quem se vai e pensar “talvez”. Esse “talvez” tenha sido o que há de mais filosófico, nem negação, nem certeza. Suspensão. Kierkegaard diria que a angústia nasce dessa suspensão; Raul parece dizer que nasce também a beleza.
“A morte, surda, caminha ao meu lado / E eu não sei em que esquina ela vai me beijar / Com que rosto ela virá? / Será que ela vai deixar eu acabar o que eu tenho que fazer? / Ou será que ela vai me pegar no meio do copo de uísque? / Na música que eu deixei para compor amanhã? / Será que ela vai esperar eu apagar o cigarro no cinzeiro? / Virá antes de eu encontrar a mulher, a mulher que me foi destinada / E que está em algum lugar me esperando / Embora eu ainda não a conheça?”
Aqui o paradoxo se instala em mim, cronista. Até então, eu pensava a morte como evento biológico, algo externo que interrompe uma vida. Mas Raul a coloca como companheira de caminhada, “surda”, o que é curioso: surda aos pedidos, surda às negociações.
As perguntas que ele faz são todas sobre o quando e o como, não sobre o “se”.
Epicuro, para acalmar os ânimos, dizia: “A morte não é nada para nós, pois quando nós somos, ela não é; quando ela é, nós não somos”. Raul rejeita esse consolo. Para ele, a morte é tudo: ela define cada gesto, cada copo de uísque, cada cigarro, cada música adiada, cada mulher ainda não encontrada. E nisso há uma angústia lúcida que lembra Sartre, mas Sartre teria dito que a morte é a derrota final de todos os projetos; Raul diz: mesmo derrotado, ainda estou perguntando. Enquanto há pergunta, há vida. E que pergunta bela: “Será que ela vai esperar eu apagar o cigarro?” É a dignidade do pequeno rito.
“Vou te encontrar vestida de cetim / Pois em qualquer lugar esperas só por mim / E no teu beijo provar o gosto estranho / Que eu quero e não desejo, mas tenho que encontrar”
Chegamos ao refrão-núcleo. Cetim: a morte não é esqueleto nem caveira; é noiva. E aqui Raul se aproxima de um pensamento quase místico, que ecoa em Rilke (“Ó Senhor, dá a cada um a sua própria morte”) e em Pascal, que falava do “pari passi” com a morte.
Mas o que impressiona é o “gosto estranho” que se quer e não se deseja. Isso é a ambivalência absoluta.
Nietzsche, em “Assim Falou Zaratustra”, exaltava a morte voluntária, a morte que vem no tempo certo. Raul vai além: sua vontade é involuntária, seu querer é contraditório. Quer a morte porque ela é o encontro final; não a deseja porque deseja a vida. E essa contradição não é resolvida, é cantada. A filosofia muitas vezes tenta dissolver paradoxos; a música os faz dançar.
“Vem, mas demore a chegar / Eu te detesto e amo morte, morte, morte / Que talvez seja o segredo desta vida”
O ápice lírico-filosófico. “Vem, mas demore”, a mesma estrutura do amante que pede o abraço, mas quer que o abraço dure. Detestar e amar o mesmo objeto: isso é, para a lógica aristotélica, uma contradição; para a experiência humana, a mais pura verdade.
Cioran, o filósofo do desespero, escreveu que “só se ama verdadeiramente o que nos pode destruir”. Raul amava a morte antes de Cioran escrever. E a frase final da estrofe, “que talvez seja o segredo desta vida”, é o golpe de mestre. A morte não é o fim da vida; é o seu segredo. O que significa segredo? Algo que está oculto, mas que, se revelado, transforma tudo. Freud diria que o segredo é o inconsciente; Raul diz que é a morte. E se a morte é o segredo, então viver é um jogo de esconder e revelar. Cada dia é um trecho da revelação.
“Qual será a forma da minha morte? / Uma das tantas coisas que eu não escolhi na vida / Existem tantas... Um acidente de carro / O coração que se recusa a bater no próximo minuto / A anestesia mal aplicada / A vida mal vivida, a ferida mal curada, a dor já envelhecida / O câncer já espalhado e ainda escondido, ou até, quem sabe / Um escorregão idiota, num dia de Sol, a cabeça no meio-fio”
Aqui Raul se torna o anti-herói do controle. Spinoza ensinou que somos determinados, que a ilusão do livre-arbítrio vem da ignorância das causas. Raul aceita essa determinação com uma ironia feroz. “Uma das tantas coisas que eu não escolhi”, ele lista as mortes possíveis como quem lista os cardápios de um restaurante do qual não se escolhe o prato.
E a mais pungente é “um escorregão idiota, num dia de Sol, a cabeça no meio-fio”. Idiota: a palavra grega para o privado, o individual, o tolo. A morte idiota é a morte sem sentido. Meu amigo Neto sempre me lembra: “O que mata velho, é tombo e caganeira”
Os existencialistas clamam por dar sentido à morte; Raul admite que ela pode ser puro acaso. E nessa admissão, ele nos liberta da tirania de ter que transformar a morte em espetáculo heroico.
“Oh morte, tu que és tão forte / Que matas o gato, o rato e o homem / Vista-se com a tua mais bela roupa quando vieres me buscar / Que meu corpo seja cremado e que minhas cinzas alimentem a erva / E que a erva alimente outro homem como eu / Porque eu continuarei neste homem / Nos meus filhos, na palavra rude / Que eu disse para alguém que não gostava / E até no uísque que eu não terminei de beber aquela noite”
A estrofe final é uma ética completa. “Oh morte, tu que és tão forte”, eco de um salmo ou de uma prece pagã. Mas o pedido seguinte é inesperado: não para que ela o poupe, mas para que venha bonita. Isso é a dignidade estoica traduzida em tango rock. E a cremação, as cinzas alimentando a erva, a erva alimentando outro homem, aqui Raul ensina o que Espinosa já insinuava: a substância é una e eterna; o indivíduo é modo; morrer é mudar de forma. “Eu continuarei neste homem” não é ressurreição pessoal, mas imanência pura.
Continua na palavra rude que disse, no uísque que não terminou. Isso é mais profundo que qualquer metafísica: é a aposta na permanência do gesto. O que fui permanece no que fiz. E o que fiz não se desfaz.
A música terminou. O silêncio da madrugada parece outro: povoado de perguntas que não exigem respostas. Raul Seixas, o Maluco Beleza, não resolveu o problema da morte; ele o dissolveu em beleza.
Enquanto eu pensava em Heidegger, ele pensava no uísque. Enquanto eu lia Espinosa, ele beijava a morte de cetim.
No final, sua filosofia é simples, tão simples que a academia a desprezaria: a morte não é o oposto da vida, é o seu segredo. E segredo, por definição, não se explica, se canta.
Escrevo grifado e em fonte alta: Raul Seixas, filósofo da contradição vivida, cantor do beijo que se quer e não se deseja, arauto do escorregão idiota no dia de Sol. Ele nos ensinou que morrer não é deixar de ser; é continuar na palavra que não se calou, no uísque que não se acabou, no cigarro que ainda fumega no cinzeiro. E que talvez, só talvez, o segredo desta vida seja exatamente isso: ter a coragem de convidar a morte para dançar, e pedir a ela, com doçura: “vem, mas demore a chegar.”
Então eu mesmo tomo um último gole do meu uísque.
Não sei se será o último. Mas, por via das dúvidas, escreverei amanhã a crônica que deixei para depois.
(*) Assista no YouTube: https://youtu.be/Ul6-b-Tnwrw?si=41QrwqON-Xx4kgXl




Comentários