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O INDOMÁVEL

  • Carlos A. Buckmann
  • 20 de abr.
  • 4 min de leitura

O INDOMÁVEL

            A tarde caía devagar sobre a garrafa de tinto.

Eu e um amigo, desses de décadas, que já perderam a conta de quantas vezes compartilharam pão e desencanto, estávamos ali, na varanda, vendo o sol se pôr como quem vê um velho conhecido fazer sua saída de cena.

            “Sabes o que eu estava pensando?  ele disse, enchendo novamente meu cálice. Trabalhamos uma vida inteira. Salários que davam para viver com dignidade, mas nunca para acumular. E agora, o que temos?”

            Olhei para minhas mãos. Tinham calos antigos, desses que o tempo suaviza, mas não apaga.

            “Temos o que sempre tivemos, respondi. Só que agora, talvez, tenhamos coragem de usar.”

            Ele riu, mas era um riso que vindo de um lugar fundo, onde a seriedade e a alegria se confundem.

            “Pois eu decidi, disse.  Vou escrever. Talvez não para publicar, não para fama. Só para viver o que nunca vivi enquanto assinava papéis que outros ditavam.”

            Então lembrei a frase de Erasmo, aquela que sempre guardei como um talismã silencioso:

            “Definir-me seria dar-me limites, e minha força não conhece nenhum.”

            “Escuta, comecei, enquanto o vinho tingia nossas palavras de ouro velho. -  Durante todos esses anos, fomos definidos. Pela função no crachá, pelo salário na conta, pelo lugar na hierarquia. Definir-se, para a maioria, é aceitar a jaula dourada e chamá-la de destino.”

            Meu amigo sorriu, com aquela ironia doce que só os que sobreviveram aos escritórios conhecem.

            “E agora, vamos nos definir como escritores?” - provocou.

            “Não. Vamos nos negar a definição. O escritor não é quem tem um rótulo, mas quem se põe em movimento. Escrever é, justamente, desfazer os limites que nos impuseram.”

            Então falei para mim mesmo, sem me importar com o sol que morria no horizonte.

            Outros já pensaram assim. O velho Nietzsche dizia que o homem é algo que deve ser superado; que fazemo-nos ao caminhar, não ao chegar. Definir-se, para ele, seria petrificar o devir. E Sartre, com sua lucidez incômoda, insistia: “a existência precede a essência. Ninguém é aquilo que é; somos aquilo que escolhemos fazer de nós”.

            Byung-Chul Han, pensador contemporâneo, denunciou a tirania da positividade, essa mania de nos encaixarmos em categorias para sermos produtivos. Definir-se é, sob a lente do coreano, entregar-se à máquina que quer nos classificar como peças úteis.

            Mas há quem tenha vivido essa recusa com a força que Erasmo descreve.

            Bukowski, que por décadas trabalhou nos Correios dos Estados Unidos, um dia largou tudo, não porque tivesse certeza de ser poeta, mas porque a recusa a se definir como “funcionário postal” era mais forte que o medo. E escreveu como um condenado à liberdade.

            Murakami, dono de um pequeno jazz bar em Tóquio, assistiu a um jogo de beisebol, sentiu um estalo na alma e decidiu: “Quero escrever”. Fechou o bar, sentou-se à mesa e fez do ofício uma travessia sem mapa.

            Kafka, que nunca se definiu como escritor profissional, queimou boa parte do que escreveu e deixou instruções para que o resto fosse destruído. E, no entanto, é um dos nomes que mais nos ensinam sobre a condição humana. Sua força não estava no título, mas na recusa a se contentar com os limites que o mundo lhe oferecia.

            Meu amigo, agora já com o rosto aquecido pelo vinho e pela ideia, ergueu o copo:

            “Então, ao que não se define”.

            Bebemos. O sol já se pusera, e as primeiras estrelas pareciam pequenos pontos de interrogação no céu.

            “E se falharmos?” perguntou ele, depois de um silêncio.

            “Falhar? Falhar para quem? Para o mercado? Para o que chamam de sucesso? A força de que Erasmo fala não é a que vence; é a que não se curva. Escreveremos mal, bem, com glória ou sem leitores. Mas não seremos mais os que se deixaram limitar pelo que deveriam ter sido.

            O que me anima, e o que espero que anime meu amigo, e talvez você, não é a certeza do triunfo, mas a coragem de quebrar o molde.

            Vivemos numa época que nos pede, a todo instante, uma definição: sua profissão, seu perfil, seu nicho, sua identidade.

            Erasmo, no século XVI, já sabia: definir-se é um ato de rendição. Não porque as definições sejam mentirosas, mas porque a vida, a verdadeira, a que pulsa, transborda qualquer gaveta.

            Quantos talentos jazem sepultos sob rótulos? Quantos escritores nunca nasceram porque antes os definiram como “advogado”, “contador”, “dona de casa”? Quantas obras-primas deixaram de existir porque alguém, no cair da tarde, olhou para o copo de vinho e achou que já era tarde demais para começar?

            Agora aposentados de tudo o que nos definiu por décadas, decidimos: não haverá um novo rótulo. Não somos “escritores aposentados”, nem “talentos tardios”. Somos, apenas, gente que descobriu que a força não está em ser “alguma coisa”, mas em recusar a jaula.

            A garrafa se esvaiu. A noite caiu por completo.

            Pela primeira vez em décadas, senti que a força de que falava o velho humanista de Roterdã não era apenas um conceito bonito. Era, ali, naquela varanda, o que nos restava de mais precioso: a liberdade de não saber o que somos, e o prazer de nos fazermos a cada linha em branco.

            Levantamo-nos. Nos despedimos com um abraço que valia por todas as horas de trabalho que não viveríamos mais.

            “Vamos escrever” - disse ele.

            “Vamos viver!” respondi.

 

 
 
 

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