O HOMEM INVISÍVEL
- Carlos A. Buckmann
- 1 de mai.
- 4 min de leitura

O HOMEM INVISÍVEL
(Da série A FILOSOFIA NA MPB)
“CIDADÃO”(*). Foi com essa música que Zé Geraldo, cantor e compositor mineiro, conseguiu seu maior sucesso.
Não é apenas uma canção de trabalho ou de protesto: é um tratado filosófico em versos, uma fenomenologia do esquecimento.
Ao ouvi-la pela primeira vez, ainda jovem, algo em mim se partiu como um tijolo mal queimado. Hoje, cronista maduro, decidi tomar cada estrofe como um capítulo de uma dor que não envelhece.
“Tá vendo aquele edifício moço? Ajudei a levantar… Hoje depois dele pronto, olho pra cima e fico tonto…”
Hegel já nos falava da dialética do senhor e do escravo: o trabalhador que constrói o mundo material não se reconhece nesse mundo, pois o senhor lhe nega o olhar de volta.
O prédio de pé, mas quem o levantou é tratado como suspeito.
“Tu tá aí admirado ou tá querendo roubar?”
A pergunta é o retrato da alienação. Quem criou a obra não tem direito à contemplação, seu olhar já é, para o outro, uma falta de caráter. O tédio de domingo que termina em vontade de beber é o que Sartre chamaria de náusea: a consciência aguda de que o mundo foi feito por mãos às quais o mundo não pertence.
“Tá vendo aquele colégio moço? Eu também trabalhei lá… Minha filha inocente vem pra mim toda contente: pai, vou me matricular. Mas me diz um cidadão: criança de pé no chão aqui não pode estudar.”
Rousseau, no “Discurso sobre a origem da desigualdade”, mostrou que a propriedade privada corrompe a inocência do contrato social.
A dor é mais funda porque atinge o futuro. O trabalhador não apenas não é reconhecido em seu trabalho, vê o fruto de seu suor negado à própria carne.
“Esta dor doeu mais forte”, canta Zé Geraldo. O cronista concorda. Pois não há ferida maior do que a exclusão hereditária: você fez a escola com suas mãos, e sua filha não pode entrar.
O norte, com sua seca e seu pouco plantar que ao menos dava o direito de comer, torna-se a ilha da justiça perdida. A cidade, que prometia tudo, entrega o maior dos insultos: a promessa que se volta contra quem a construiu.
“Tá vendo aquela igreja moço? Onde o padre diz amém… Pus o sino e o badalo. Lá sim valeu a pena. Tem quermesse, tem novena, e o padre me deixa entrar.”
Marx chamou a religião de “suspiro da criatura oprimida” e “ópio do povo”. Mas há no suspiro uma verdade que a filosofia não pode desprezar. A igreja, neste verso, é o único espaço onde o trabalhador é recebido como criador. O padre o deixa entrar, não como suspeito, mas como fiel.
Cristo lhe diz:
“Rapaz, deixe de tolice, não se deixe amedrontar.”
A fala divina é, curiosamente, a fala da autoria.
“Fui eu quem criou a terra, enchi o rio fiz a serra, não deixei nada faltar.”
O trabalhador se identifica com o Criador porque também criou. A diferença é que Deus ainda pode entrar nas casas, o homem, não.
A ironia é tão violenta quanto bela: o sagrado acolhe onde o profano expulsa.
“Hoje o homem criou asas e na maioria das casas eu também não posso entrar.”
Heidegger, em “A questão da técnica”, advertiu: o progresso técnico não é inocente. As asas que o homem criou (aviões, foguetes, conectividade) são o símbolo de um poder que o torna senhor da natureza, mas escravo das divisões sociais.
Você pode voar sobre o prédio, mas não pode morar nele. Pode construir o colégio, mas sua filha não pode estudar ali. Pode forjar o sino, mas sua mão calosa segue batendo à porta de uma casa que você mesmo ergueu.
O filósofo diria: a técnica desencobre o mundo, mas encobre o trabalhador.
Zé Geraldo diz melhor: “Fui eu quem criou a terra… Hoje o homem criou asas e na maioria das casas eu também não posso entrar.” A eterna atualidade dessa frase dói mais agora do que nos anos 1980. O pedreiro do condomínio de luxo, a diarista do apartamento coberto, o segurança do shopping que ajudou a erguer, todos eles são o mesmo cidadão sem cidadania.
Com essa música Zé Geraldo conseguiu seu maior sucesso, talvez porque, no fundo, todos nós, de alguma forma, fomos esse homem.
Ou conhecemos esse homem.
Ou, pior, fomos o outro, o cidadão desconfiado que apontou o dedo.
A canção não acaba: ela ecoa em cada prédio que se levanta e cada porta que se fecha.
Eu, que apenas escrevo, olho para a janela do meu apartamento, construído por mãos que não estão aqui, e sinto o mesmo tédio, a mesma náusea, a mesma vontade de beber.
Só me resta, como o trabalhador da igreja, ouvir a voz do Cristo:
“Não se deixe amedrontar.”
E continuar lembrando aos que têm olhos de ver que o edifício, o colégio, a igreja e a casa são feitos de uma mesma matéria: o suor de quem nunca será convidado a entrar.
Registro em 1º de maio de 2026 – Dia do Trabalhador
(*) Assista o clip no YouTube




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