O FILÓSOFO DA VIOLA
- Carlos A. Buckmann
- 29 de abr.
- 5 min de leitura

O FILÓSOFO DA VIOLA
(Da série A FILOSOFIA NA MPB)
Lembro agora, com a saudade que a gente aprende a chamar de memória, da imensa contribuição que os compositores nordestinos deram à MPB.
Gente como Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Gilberto Gil, Caetano, e tantos outros que transformaram o sertão em verso e o verso em mundo.
Nessa galhofa séria da criação, destaca-se um nome que talvez a pressa urbana tenha varrido para as beiradas do rádio: Zé Geraldo, o cantador de Alagoinhas, Bahia.
Escolho hoje, para refletir, a letra de uma de suas canções mais sábias, "Como Diria Dylan"(*). E escolho porque ela me faz lembrar o que André Comte-Sponville tão bem disse: “Muitos são filósofos sem serem profissionais de filosofia, e é melhor assim; e alguns são profissionais ou professores de filosofia, sem que por isso sejam filósofos, e azar deles”.
Zé Geraldo é desses primeiros.
Então, vamos com a calma que a filosofia nos pede.
“Hei você que tem de 8 a 80 anos / Não fique aí perdido como ave sem destino”
Aqui começa a filosofia do quintal. O que é a idade, senão um acordo coletivo com o calendário? Oito ou oitenta anos, o espanto diante do mundo não faz distinção.
Tales de Mileto, aquele primeiro filósofo grego, caiu num poço porque olhava as estrelas e não via o chão. A crônica da nossa época, porém, inverteu a queda: muita gente só vê o chão e esqueceu de erguer os olhos. Zé Geraldo chama essa gente de “ave sem destino”, e que definição mais certeira para aqueles que voam, sim, mas em círculos viciosos.
“Pouco importa a ousadia dos seus planos / Eles podem vir da vivência de um ancião / Ou da inocência de um menino”
Sêneca, o estoico romano, ensinava que a sorte favorece os audazes. Mas Zé Geraldo vai mais longe: não importa a audácia em si, importa sua origem.
O ancião e o menino têm algo que o adulto apressado frequentemente perde: a licença poética de existir fora da utilidade. O velho traz o tempo condensado em cicatrizes; o garoto, o tempo expandido em brincadeira. E entre um e outro, qual de nós não se sente às vezes um adolescente desconfiado de sua própria voz?
“O importante é você crer / Na juventude que existe dentro de você”
Zé Geraldo flerta com um existencialismo sem-tertúlias. Crer, neste caso, não é fé religiosa. É um ato de coragem íntima, quase um solipsismo bem-humorado.
Bergson falava do “élan vital”, esse impulso criador que atravessa a matéria viva. Pois a juventude interior é exatamente isso: o ímpeto que resiste à cronologia. Quantos jovens de vinte anos não são velhos de espírito, cansados, céticos, vazios? E quantos anciãos de oitenta não cultivam uma alegria que faz inveja aos passarinhos?
“Meu amigo meu compadre meu irmão / Escreva sua história pelas suas próprias mãos”
O refrão repete-se como um mantra nordestino. Sartre disse que o homem está condenado a ser livre. Zé Geraldo, com mais calor humano, diz que o homem está convidado a ser artesão de si. “Comadre”, “compadre”, palavras que saem da cozinha, do terreiro, da calçada. A filosofia acadêmica fala em autonomia da vontade; a sabedoria popular fala em “pegar o roteiro com as próprias mãos”. No fundo, é a mesma recusa em delegar a existência a outro.
“Nunca deixe se levar por falsos líderes / Todos eles se intitulam porta-vozes da razão”
Platão sonhou com o rei-filósofo. Zé Geraldo desconfia de qualquer um que se intitule porta-voz da razão, e com razão. Porque a história da humanidade está coalhada de tiranos que usaram a Razão com R maiúsculo para justificar atrocidades.
Nietzsche já avisara: quem luta com monstros deve cuidar para não se tornar monstro. Os falsos líderes são especialistas em transformar a fragilidade alheia em muleta. O recado do cantador é claro: desconfie de quem promete clareza total. A vida é opaca, e está certo assim.
“Pouco importa o seu tráfico de influências / Pois os compromissos assumidos quase sempre ganham subdimensão”
Maquiavel estudou o príncipe; Zé Geraldo estuda o falso profeta. O tráfico de influências é a moeda de um jogo onde os pobres sempre perdem.
E o que dizer dos compromissos que se dissolvem? Espinosa chamaria isso de paixão triste: a palavra empenhada que vira vento. O filósofo popular da canção nos lembra que o verdadeiro líder, aquele que mora dentro, não precisa de alianças fictícias. Precisa apenas de coerência, essa virtude raríssima.
“O importante é você ver o grande líder que existe dentro de você”
Ecoa um pensamento estoico de novo: o governo de si mesmo. Epicteto afirmava que não controlamos os acontecimentos, mas controlamos nossos juízos sobre eles. O “grande líder interior” é exatamente essa instância que decide, em meio ao caos, qual atitude tomar. Não se trata de arrogância, mas de soberania moral.
“Não se deixe intimidar pela violência / O poder da sua mente é toda sua fortaleza”
Vivemos temerosos. As notícias são um caldeirão de horrores. Mas o compositor nos convida a uma espécie de epicurismo resistente: a fortaleza interior é o único muro que ninguém derruba sem nosso consentimento.
Pascal falava do “espírito de fineza” contra o “espírito de geometria”. Zé Geraldo fala da mente como fortaleza, não uma fortaleza bélica, mas uma cidadela ética. Meditar não é fugir do mundo; é criar dentro de si um quarto de vidro blindado pela razão sensível.
“Pouco importa esse aparato bélico universal / Toda força bruta representa / Nada mais do que um sintoma de fraqueza”
Que frase! E que filosofia profunda.
Era uma vez um imperador chamado Maomé II, que mandava construir canhões gigantes. E era uma vez um sábio humilde, Diógenes, que dormia num tonel e pediu a Alexandre que se afastasse um pouco, pois lhe tirava o sol.
A força bruta, diz Zé Geraldo, é sintoma de fraqueza. Confúcio já ensinava que a verdadeira força é a benevolência. O tanque de guerra não teme o punho; mas teme o sorriso irônico, a desobediência calma, a recusa coletiva de comer o pão que o diabo amassou.
“O importante é você crer / Nessa força incrível que existe dentro de você”
A crença aqui é laica e militante. É a “pistis” filosófica, diferente da fé dogmática. É o ato de apostar na própria potência, mesmo quando a estatística e o senso comum dizem o contrário.
Hannah Arendt chamava isso de natalidade: a capacidade humana de começar algo novo, de interromper o automatismo do já-sabido. Zé Geraldo, em versos que parecem conversa de bar, está dizendo a mesma coisa que a filósofa alemã: dentro de você há uma força inaugural.
“Meu amigo meu compadre meu irmão / Escreva sua história pelas suas próprias mãos”
Escrever a própria história não é negar a herança, o acaso ou o outro. É, ao contrário, assumi-los com tal consciência que se torna possível, como queria Kierkegaard, viver para frente mesmo sabendo que só se compreende para trás. A mão que escreve é a mesma que afaga, que trabalha, que ergue o copo e que aponta a estrela.
Zé Geraldo, esse nordestino de Alagoinhas, nunca frequentou uma faculdade de filosofia. Nem por isso deixou de ser, em cada verso, mais filósofo do que muitos doutores que complicam o óbvio até fazê-lo desaparecer. Sua contribuição à MPB não é apenas musical, é uma contribuição ao pensamento vivo, à sabedoria que se canta e se dança.
Porque, no fundo, o que ele nos ensina com a simplicidade de quem toma um café na soleira da porta é que a filosofia não mora nos livros empoeirados. Mora na desconfiança do falso líder, na recusa do medo, na aposta na juventude que resiste ao calendário.
Mora, sobretudo, na coragem de escrever a própria história com as próprias mãos, ainda que a tinta seja suor, ainda que o papel seja a vida, ainda que a conclusão seja apenas mais um começo.
E você, que tem de oito a oitenta anos: já pegou a caneta hoje?
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