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O FILÓSOFO DA TORRE

  • Carlos A. Buckmann
  • 20 de abr.
  • 3 min de leitura

O FILÓSOFO DA TORRE

            Subo as escadas em caracol.

            Cada degrau de pedra geme como um sábio cansado.

            No alto, a porta de carvalho está entreaberta. Empurro-a com respeito. Ali está ele: Montaigne, o homem que aprendeu a conversar consigo mesmo.

            A biblioteca cheira a mofo, cera e tempo. Os ratos não se importam com minha visita. O filósofo ergue os olhos do pergaminho.

            “Veio para filosofar?”, pergunta, sem espanto.

            “Venho para aprender a morrer”, respondo, lembrando de seu ensaio mais famoso.

            Ele sorri. Tem o sorriso cético de quem já desistiu de todas as certezas.

            “Engano seu. Ninguém aprende a morrer. Apenas se esquece de viver.”

            Sento-me no banco de madeira. Uma vela vacila entre nós.

            “O senhor acha que a filosofia é um treinamento para a morte?”

            “A filosofia é um treinamento para a vida. A morte vem sem ensaio. O que podemos é viver de tal modo que, quando ela chegar, não nos pegue distraídos.”

            Olho para as prateleiras. Centenas de vozes em silêncio.

            “E a amizade? O senhor escreveu que ela é um espelho.”

            “Espelho que não mente. Por isso é raro. A maioria prefere a solidão bem acompanhada, ele aponta para os livros. Estes são meus amigos fiéis. Não pedem nada. Só devolvem o que lhes damos.”

            Pergunto sobre o ceticismo. Sobre a dúvida como método.

            “Duvido para respirar, diz.  As certezas sufocam. O mundo é um palco de opiniões trocadas por fatos. Eu prefiro os fatos da minha própria carne: a dor, o tédio, o prazer de um queijo envelhecido.”

            Rimos. O rato também, penso.

            “O senhor seria um blogueiro hoje?”

            Montaigne franze a testa.

            “Blogueiro? Essa coisa que escreve para ser amado? Não. Eu escrevia para me entender. Se alguém lesse, melhor. Se não lesse, também. Os aplausos envenenam a alma.”

            “E as redes sociais?”

            “Solidão fingida. As pessoas têm medo do silêncio. Enchem o quarto de vozes vazias. Eu troquei a corte por esta torre. Aqui, o único eco é o meu pensamento.”

            Fico em silêncio. A vela queima mais baixa.

            Ele me encara.

            “O senhor, cronista, também conversa consigo mesmo?”

            “Tento. Mas a cidade grita.”

            “Então não tente. Apenas escreva. O resto é vaidade.

            Desço as escadas. Cada degrau agora soa como um lembrete. Lá embaixo, o mundo espera com suas urgências falsas.

            Volto à rua e penso: Montaigne foi o primeiro a se retirar para dentro de si. Não para fugir do mundo, mas para vê-lo com mais clareza. Hoje, invertemos o movimento. Saímos de nós mesmos a toda hora. Publicamos a dor, o almoço, o silêncio, transformamos a introspecção em espetáculo.

            Ele, na torre com ratos e poeira, encontrou o que procuramos nas curtidas: a paz de não precisar provar nada.

            Vivemos na era do diálogo impossível. Falamos demais com os outros e nunca conversamos conosco. Montaigne sabia que o essencial acontece na solidão da biblioteca, não na praça iluminada por telas.

            Subir aquelas escadas foi descer a mim mesmo. E, ao sair, percebi: a torre não fica na França do século XVI. Fica dentro de cada um. Só que a chave, quase sempre, está perdida entre notificações.

            Que filosofia é aprender a calar. E só então, talvez, a escrever.

 
 
 

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