A DUPLA FACE DO HERÓI
- Carlos A. Buckmann
- há 11 minutos
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A DUPLA FACE DO HERÓI
(Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS)
A madrugada sem horas, tinha a textura de um pergaminho antigo. As paredes de estuque carregavam manchas que pareciam mapas de continentes submersos, e as cadeiras de veludo vermelho estavam gastas exatamente nos lugares onde os braços descansavam, como se milhares de visitantes anteriores tivessem deixado seus cotovelos gravados na memória do estofado.
O balcão, onde eu arrumava xícaras que nunca se repetiam, tinha um pequeno entalhe em forma de estrela. Alguém, em algum tempo, havia cravado ali uma navalha, talvez para marcar o fim de uma aposta ou o começo de uma promessa.
A música de fundo era uma suíte para alaúde de Dowland, “Lachrimae”, cujas notas se arrastavam como lágrimas que aprenderam a dançar. Era a música das despedidas que ainda não aconteceram, das partidas que já ocorreram mas insistem em ecoar.
Num canto, um homem de cartola lia um livro cujas páginas se viravam sozinhas, como se o vento de outra época as movesse. Em outra mesa, uma mulher de vestido azul escrevia cartas que nunca seriam enviadas, e em cada envelope desenhava um selo de cera vermelha
Miguel de Cervantes chegou mancando, como sempre fazia, e o som de sua bengala no piso de madeira era o de um metrônomo que perdeu o ritmo. Vestia um sobretudo escuro, um pouco puído, e seus olhos, que haviam visto a batalha de Lepanto e o cativeiro em Argel, tinham a distância de quem já contou todas as estrelas e descobriu que elas não se importavam com o que ele havia contado.
“Este lugar cheira a papel e a pólvora” disse, sentando-se com um suspiro que era ao mesmo tempo um sorriso. “O cheiro de quem escreve com uma espada e luta com uma pena.”
“O senhor está enganado, Miguel”, respondeu uma voz que vinha de trás de mim, e ali estava Alexandre Dumas, imenso como um romance de mil páginas, com seu cabelo crespo e seus olhos que brilhavam como os de quem já viu todas as tramas do mundo. “Este lugar cheira a aventura. E aventura, meu caro, é o perfume que o homem usa para disfarçar o medo de sua própria mediocridade.”
Cervantes ergueu a cabeça e estudou o francês com a calma de quem examina um adversário em um duelo de palavras.
“Alexandre Dumas. O senhor escreveu histórias nas quais os heróis nunca morrem e, quando morrem, é para ressuscitar em um capítulo seguinte. O senhor cria mundos onde a justiça sempre encontra seu caminho, ainda que tortuoso.”
“E o senhor, Miguel, respondeu Dumas, sentando-se na cadeira oposta com a elegância de quem ocupa o trono do próprio destino, criou um herói que é exatamente o oposto. Dom Quixote de La Mancha. Um homem que vê gigantes onde há moinhos, e que, em vez de triunfar, termina derrotado pela própria realidade. O senhor escreveu a comédia da desilusão; eu escrevi a tragédia da esperança.”
Servi a ambos: a Cervantes, um vinho tinto que carregava o nome de La Mancha, e a Dumas, um café forte, quase negro, que fumegava como as chaminés de Paris. Cervantes tomou um gole do vinho e fez uma careta, não de desagrado, mas de reconhecimento.
“O senhor fala em esperança, Dumas. Mas a esperança, que é uma virtude cristã, é também a mais cruel das ilusões. Meu Quixote não é um tolo; é um sábio que enlouqueceu para suportar a sanidade do mundo. Ele lê romances de cavalaria e decide viver neles, porque a vida real, a vida que eu vivi, com suas algemas e suas feridas, é insuportável demais para ser vivida sem uma mentira que a embeleze.”
Dumas riu, um riso que era um trovão distante.
“E no entanto, senhor, o senhor fez mais do que qualquer outro escritor para criar a ideia do herói moderno. Não o herói que vence, mas o herói que tenta. Quixote é mais herói do que todos os meus mosqueteiros juntos, porque ele não luta pela vitória, luta pela certeza de que a luta é digna. Meus personagens, Athos, Porthos, Aramis, d'Artagnan, eles são heróis porque vencem. Mas o senhor, Miguel, teve a coragem de mostrar que a derrota pode ser mais nobre que a conquista.”
Cervantes inclinou a cabeça, e o gesto revelou a cicatriz que ele tinha na testa, uma lembrança de Lepanto, onde perdera o movimento da mão esquerda.
“O senhor escreve sobre o rei, Dumas. Sobre a França, sobre a honra, sobre o poder. O senhor tinha o favor da corte; eu tinha a miséria de um carcereiro que me negava papel. Quando escrevi a primeira parte de Dom Quixote, estava na prisão de Sevilha e escrevi porque a prisão era o único lugar onde minha imaginação podia ser livre. O senhor sabe o que é escrever sabendo que suas palavras serão lidas por aqueles que podem mandá-lo calar?”
Dumas silenciou por um momento, e a música de Dowland parecia mais lenta, como se as lágrimas dançantes tivessem resolvido parar.
Cervantes sorriu, e o sorriso era tão amargo quanto o vinho que bebia.
Dumas pegou a xícara de café e a girou lentamente, observando os redemoinhos que se formavam na superfície. Depois ergueu a xícara, num brinde.
“O senhor, Cervantes, criou o romance moderno. Antes do senhor, as histórias eram sobre deuses e heróis. Depois do senhor, puderam ser sobre um homem qualquer que cavalga um “Rocinante” e conversa com seu escudeiro. O senhor inventou a prosa como forma de sabedoria. Os filósofos escrevem tratados; o senhor escreveu um romance. E o romance, Miguel, ensina mais sobre o ser humano do que mil tratados.”
Cervantes baixou os olhos, e pela primeira vez vi uma lágrima que ele não tentou esconder.
“Escrevi o Quixote porque precisava rir da minha própria desgraça. Estive em Lepanto, onde perdi o movimento da mão. Estive em Argel, onde fui escravo. Estive nas prisões da Espanha, onde fui caluniado. A vida, Dumas, foi cruel comigo. Mas a literatura foi minha vingança. Quixote é a vingança de um homem que não pôde vencer na vida e decidiu vencer na imaginação. O senhor, que venceu na vida, escreveu sobre a vida. Eu, que perdi na vida, escrevi sobre o sonho. Quem é mais verdadeiro?”
O homem da cartola, naquele momento, fechou o livro que lia sozinho, e o som das páginas foi como o bater de asas de um pássaro que finalmente encontra seu ninho. A mulher do vestido azul terminou sua última carta e selou-a com um beijo, como se o beijo pudesse viajar sem o envelope.
Dumas pousou a xícara e estendeu a mão sobre a mesa, na direção da mão de Cervantes, sem tocá-la.
“Ambos somos verdadeiros, Miguel. O senhor, porque mostrou que a loucura pode ser mais sábia que a razão. Eu, porque mostrei que a ação pode ser mais nobre que a contemplação.”
“E a resposta, disse Cervantes, levantando-se com dificuldade, equilibrando-se na bengala, a resposta é que não há resposta. Mas há o caminho. E o caminho, Dumas, é o que importa. Não o destino. O caminho que Quixote percorre, e que d'Artagnan percorre. O caminho que o escritor percorre com eles, mesmo sem sair de sua cadeira.”
Dumas também se levantou, e os dois se encararam por um longo momento: o espanhol mirrado e o francês colossal, a derrota e a vitória, a tragédia e a aventura.
“Vamos, Miguel, disse Dumas, a aventura nos espera. Não a aventura que escrevemos, mas a que ainda não foi escrita.”
“Vamos, Alexandre, respondeu Cervantes, que a aventura, como a esperança, é sempre um engano, mas é o engano mais belo que conhecemos.”
E saíram juntos pela porta que não levava a lugar nenhum, suas vozes se perdendo em um riso que era ao mesmo tempo triste e alegre, como a música de Dowland que ainda ecoava nas paredes.
Quando o café ficou vazio, peguei meu caderno de guardanapos. Aprendi, naquela noite, que a literatura não é a arte de contar histórias, é a arte de inventar a vida que a vida não nos deu. Cervantes inventou a loucura para suportar a razão; Dumas inventou a aventura para suportar a monotonia. Ambos nos ensinaram que o herói não é aquele que vence, mas aquele que persiste e que a persistência, mesmo na derrota, é a forma mais sublime de vitória.
Escrevi, com a caneta que parecia ter memória própria:
"O herói não é o que derrota o inimigo, mas o que transforma a derrota em dignidade."
E guardei o guardanapo no livro de pergaminho que guarda todos os outros, sabendo que cada encontro no CAFÉ ENTRE FLUXO deixava mais do que palavras, deixava a marca de que a história, mesmo quando termina, nunca está terminada.




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