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O Espectro da Utópica Eficiência

  • Carlos A. Buckmann
  • 9 de mar.
  • 3 min de leitura

O Espectro da Utópica Eficiência

            A neblina sobre o Guaíba nesta manhã, anunciando que o outono está próximo, parece entrar pelas frestas das janelas do meu apartamento, confundindo-se com o pó acumulado sobre a obra de Ernst Bloch e sua "Ontologia do Não-Ainda".

            Olho para as estantes e vejo os fantasmas das Grandes Narrativas, aqueles tomos pesados que prometiam um Telos, um fim glorioso para a história, onde a transformação marxista finalmente reconciliaria o homem consigo mesmo.

            Passamos o século XX embriagados pela promessa da mudança estrutural. Acreditávamos que, ao girar a chave da economia e da política, abriríamos as portas do paraíso terrestre.

            No entanto, aqui estou eu, quarenta anos depois, já transcorrido um quarto do século XXI, observando o movimento apressado na Rua dos Andradas, percebendo que o mundo de fato se transformou, mas não da maneira que os profetas da dialética previram. A "transformação" ocorreu, sim, mas como uma ironia cruel da razão.

            A grande contradição do nosso tempo reside no fato de que realizamos a transformação do mundo através de um pragmatismo que esvaziou a própria alma do que chamávamos de "mudança".

            O século XX buscou o "Homem Novo"; o século XXI entregou o "Usuário Otimizado".

            A transformação de que Marx falava, pressupunha uma libertação da alienação. Contudo, o que testemunhamos é a transmutação da alienação em entretenimento. A técnica, que deveria ser o braço armado da filosofia para libertar o proletário, tornou-se o sistema nervoso central de uma vigilância invisível.

            Onde se esperava a emancipação do trabalho, recebemos a "uberização" da existência, uma transformação que não rompeu as correntes, apenas as tornou sem fio e de alta velocidade.

            Criamos o Pragmatismo como Dogma. Hoje, a única transformação permitida é aquela que gera "valor" imediato. O pensamento crítico foi substituído pelo "Design Thinking". Não se muda o mundo para torná-lo mais justo, mas para torná-lo mais "fluido".

Vivemos o Capitalismo Realista. Como bem notou Mark Fisher, vivemos no "Realismo Capitalista", onde é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do sistema atual. A transformação tornou-se cosmética: mudamos a interface, mas o código-fonte da desigualdade permanece intocado.

            Essa mudança de paradigma nos trouxe a um presente paradoxal. Se outrora os filósofos interpretavam e os revolucionários agiam, hoje os algoritmos fazem ambos por nós. A humanidade, cansada da complexidade de pensar a própria libertação, entregou-se a um misticismo tecnológico.

            Vemos o povo, desprovido de uma base intelectual sólida, fruto de um projeto deliberado de sucateamento do ensino, ser arrastado por correntes de "verdades" fabricadas em laboratórios de manipulação psicológica.

            A ideologia não é mais uma visão de mundo; é um pacote de dados injetado no ressentimento popular. A transformação prometida por Marx, que deveria ser o auge da racionalidade histórica, foi sequestrada por uma irracionalidade programada.

            Neste cenário, pensadores como Theodor Adorno e Max Horkheimer ririam amargamente. Eles já previam, na sua "Dialética do Esclarecimento", que o progresso técnico, sem a devida reflexão ética e filosófica, retornaria ao mito e à barbárie (desnecessário citar nomes). E é onde estamos: cercados de gadgets de última geração, mas operando mentalmente em um tribalismo pré-iluminista.

            Da minha poltrona, cercado pelo silêncio dos meus livros, sinto o peso da 11ª tese sobre Feuerbach: “Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo”.  O problema não é que falhamos em transformar o mundo. O problema é que o transformamos demais e da forma errada.

            Ignoramos a interpretação necessária para focar em uma ação cega, guiada pelo lucro e pela eficácia técnica.

            A transformação que o mundo clama hoje não é mais a da infraestrutura produtiva apenas, mas a da reconquista da subjetividade. Se "os filósofos apenas interpretaram o mundo", talvez o erro tenha sido acreditar que poderíamos transformá-lo sem continuar a interpretá-lo a cada passo.

            A realidade que vejo lá embaixo, no vaivém da metrópole, é a de uma humanidade que corre freneticamente para transformar tudo em mercadoria, enquanto se esquece de transformar a si mesma em algo além de um dado estatístico.

            Retornar à frase de Marx hoje, sem para isso ser necessário ser comunista, é um ato de resistência: temos que transformar o mundo, sim, mas precisamos primeiro resgatar a capacidade de interpretá-lo para que não sejamos apenas os arquitetos da nossa própria prisão.

            A neblina sobre o Guaíba me traz a dura realidade e me diz:

            Infelizmente, “Não-Ainda”.

 

 
 
 

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