O DISCURSO QUE NÃO FIZ
- Carlos A. Buckmann
- 20 de abr.
- 3 min de leitura

O DISCURSO QUE NÃO FIZ
“Eu não vim fazer um discurso.”
Eis a mais honesta declaração que um homem pode fazer antes de abrir a boca. Porque todo discurso, no fundo, é uma armadilha. Promete verdades, entrega conveniências. Promete alma, entrega personagem.
Quando gosto de um autor, não me contento com um livro apenas. Leio tudo. De Platão a Harari, de Sêneca a Adam Grant. Quero conversar com eles. Literalmente, se possível. Metaforicamente, se necessário. O que importa é o diálogo.
Assim me aconteceu com Gabriel Garcia Márquez. Li Cem Anos de Solidão, li Ninguém Escreve ao Coronel, li Crônica de uma Morte Anunciada, li o Amor nos Tempos do Cólera. E mais, e mais. Até que um dia encontrei sua coletânea de discursos.
Vinte e um ao todo. O primeiro, de 1944. Ele tinha dezesseis anos.
“Eu não vim fazer um discurso”, disse o menino aos colegas de turma em Zipaquirá. “Pude escolher para hoje o nobre tema da amizade.” E lá estava ele, já então, a fazer exatamente o que dizia não fazer.
Há nisso uma filosofia que me perturba. O que somos senão aquilo que negamos ser?
Percorri os discursos. Venezuela, México, Suécia, Cuba, Colômbia. Em cada lugar, um tom. Em cada tom, um homem diferente. Mas o mesmo homem, também.
Aos setenta anos, escreveu sobre o amigo presidente Belisário Betancur. Disse que a história não fora tão truculenta com ele. E por quê? Porque Betancur não era um governante que amava a poesia. Era um poeta a quem o destino impôs a penitência do poder.
Penitência. Palavra forte. Governar como castigo. Quantos de nós vivemos penitências disfarçadas de vocações?
Conta Márquez que Betancur, ainda no ensino médio, odiava a aridez do professor de latim. Escreveu então uns versos: “Senhor, Senhor te rogamos, e rogamos sem fim, que caiam raios de merda, no professor de latim.”
O primeiro raio caiu nele mesmo. Expulsão imediata.
A ironia é a forma mais elegante da verdade.
Em 1996, falou para um evento militar. Não disfarçou seu antagonismo. Mas encerrou com uma frase que guardo como joia: “Creio que a vida de todos nós seria melhor se cada um dos senhores levasse sempre um livro na mochila.”
Contundente. Simples. Quase ingênua. Talvez por isso mesmo, revolucionária.
Mas o discurso que me deixou marca indelével foi outro. Caracas, 4 de março de 1990. Chama-se “Prefácio para um novo milênio”.
Vejam o que ele disse: “O longo amanhecer de um mundo presidido pela libertação total de pensamento, para que ninguém seja governado por ninguém mais que sua própria cabeça.”
Nada estaria escrito de antemão. Não haveria lugar para ilusões consagradas. Muitas coisas que ontem foram verdade não o seriam amanhã.
E então veio o verso que me fez pegar a caneta:
“Mais paz para sempre, mais tempo e melhor saúde, mais comida quente, mais rumbas saborosas, mais de tudo de bom para todos. Em duas palavras: MAIS AMOR.”
Meu Deus. Quando chegaremos a isso?
E chorei.
Chorei porque a beleza da profecia só revela a feiura do presente.
Chorei porque o homem que não veio fazer discurso fez o mais bonito de todos.
E nós, que só fazemos discursos, não conseguimos viver uma linha sequer do que ele escreveu.
“Eu não vim fazer um discurso.” E aqui estou eu, escrevendo esta crônica, que é um discurso disfarçado. O menino de Zipaquirá virou Nobel. Eu, nem menino sou mais. Faz tempo.
Falamos de amor, liberdade e livros na mochila. Mas o mundo continua governado por cabeças alheias. E o professor de latim, coitado, nunca levou um raio de verdade.
Talvez falte a nós, cronistas de plantão, a coragem de calar a boca. E fazer, enfim, o que pregamos.




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