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O DIPLOMATA DA BOEMIA

  • Carlos A. Buckmann
  • 20 de abr.
  • 3 min de leitura

O DIPLOMATA DA BOEMIA

            Sento-me à mesa. O livro pesa suavemente nas mãos, mas é um peso vivo. 

            Folhear “Para Viver um Grande Amor” é abrir uma janela para o Rio que já não existe no mapa. 

            Ainda assim, ele pulsa. Pulsa em cada vírgula de Vinícius de Moraes. 

            Eu, cronista das horas vagas, encaro o Poetinha com a reverência de quem tenta pescar o vento. 

            Como pode um só homem ser, ao mesmo tempo, o rigor do Itamaraty e a frouxidão lírica de uma madrugada em Ipanema? 

            Vinícius não viveu uma vida. Viveu uma antologia. 

            Nasceu na Gávea, em 1913. Carregava a elegância dos salões diplomáticos num bolso. No outro, o copo de uísque. Seu “cachorro engarrafado”.  

            Casou-se nove vezes. Não por leviandade.  Por uma fidelidade absoluta ao sentimento do momento. 

            Cercou-se de deuses: Tom Jobim, Toquinho, Baden Powell, Manuel Bandeira. 

            Transformou a vida social em arte. 

            Certa vez, Drummond disse: 

            “Vinícius é o único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão. Ele não apenas escreveu a poesia; ele a encarnou.” 

            Publicado em 1962, o livro é uma criatura híbrida.  A crônica pede licença à poesia para dançar. 

            A peça homônima abre como um estatuto da alma: “Para viver um grande amor, primeiro / É preciso sagrar-se cavalheiro...” 

            Vinícius destila o extraordinário do cotidiano. 

            Oferece a Receita de Mulher: “As muito feias que me perdoem / Mas beleza é fundamental.” 

            Ele transita com uma facilidade absurda entre a estrutura rígida do soneto, como o imortal "Soneto de Fidelidade", e a liberdade da prosa ligeira.

            E, logo depois, afunda em crônicas confessionais. Medos. Saudades. Um passarinho na janela. 

            O livro passeia pela infância, pelo Rio antigo, pela própria natureza do fazer poético. Há uma doçura melancólica em “O Exercício do Olhar”. 

            Ele ensina a ver o que o mundo ignora. 

            Transita com facilidade absurda entre o soneto clássico e a prosa ligeira. 

            Manuel Bandeira, com sua precisão de carpinteiro do verso, resumiu:

            “Vinícius é o poeta que se humanizou para que a poesia não fosse apenas um objeto de luxo, mas o pão de cada dia.” 

            E então sou assaltado por uma pergunta sussurrada pelo próprio Vinícius: “E se não houvesse amanhã?”

            Para ele, o amanhã era uma abstração desnecessária. 

            Diante da urgência do agora, viver “sob o signo da paixão” é agir como se o sol não tivesse compromisso de voltar. 

            Se o mundo acabasse no próximo pôr do sol, Vinícius estaria com um violão no colo, um amor ao lado. 

            E a certeza de que a vida, embora breve, foi infinita enquanto durou. 

            Ler Para Viver um Grande Amor é aceitar esse convite perigoso e belo: 

o de consumir-se no fogo do presente, sem reservas, sem medo. 

            Nós, que admiramos Vinícius de longe, transformamos sua coragem em espetáculo. 

            Queremos o verso, mas recusamos a encarnação. 

            Queremos a paixão, mas domesticamos o instante. 

            Ele foi diplomata da Boemia, um homem que serviu a dois senhores irreconciliáveis: o Estado e a noite. 

            Nós, ao contrário, servimos apenas à segurança de não sentir. 

            Vinícius continua ali, entre o rigor e a frouxidão. 

            E eu, que ouso chamar-me cronista, pergunto:  de que adianta folhear suas páginas se não tenho coragem de ser, como ele, um pouco menos sério diante do abismo?

 
 
 

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