O CÁRCERE DAS ALMAS
- Carlos A. Buckmann
- 20 de abr.
- 2 min de leitura

O CÁRCERE DAS ALMAS
Fechei o livro. “Cadernos do Cárcere”, volume 3.
A frase ainda ardia na retina: “O velho morre e o novo não pode nascer; nesse interregno manifestam-se os mais variados sintomas mórbidos.”
Gramsci escreveu isso em 1930, numa cela fascista. Mas parece ter ditado o diagnóstico do nosso instante.
O que é este instante?
Um interregno. O mundo que conhecíamos, a hegemonia liberal, o otimismo tecnológico, a promessa de uma globalização virtuosa, agoniza lentamente.
E o novo?
Não nasce. Apenas se anuncia em espasmos confusos.
Percebo, então, o gênio de Gramsci. Ele não se preocupava apenas com o Estado, com os tanques e as leis. Sua filosofia era mais fina: a hegemonia se conquista primeiro na sociedade civil, na escola, na imprensa, na igreja, nos afetos.
Hoje, a guerra cultural é total. Não se vence apenas com votos, mas com narrativas.
Quem define o que é senso comum? Quem ocupa os algoritmos? Gramsci chamaria os influenciadores digitais de “intelectuais orgânicos” de um novo bloco histórico, ainda que, em sua maioria, a serviço do caos.
A sociedade atual é um campo de batalha de hegemonias fragmentadas.
O consenso se desfez. Restaram bolhas que se odeiam. E nesse vazio, o “sintoma mórbido” prolifera: a pós-verdade, a política como espetáculo, a nostalgia autoritária.
Lembro de Theodor Adorno, que via na indústria cultural a administração do espírito. Gramsci completaria: é a administração do consenso. Mas hoje já não há um centro que administre. Há uma orquestra sem maestro, cada músico tocando sua própria fanfarra.
O fascismo que Gramsci combateu não voltou igual. Voltou como fantasia de ordem, como meme, como estética de punho erguido e coração vazio. Sem programa, sem teoria, apenas pulsão. É o “sintoma mórbido” em seu grau mais febril.
O que fazer? Gramsci diria: guerra de posição, não apenas de movimento. Construir lentamente, no subterrâneo da cultura, uma nova direção moral e intelectual. Mas quem tem paciência para trincheiras quando tudo exige like e cancelamento?
Eis a tragédia do interregno: as ferramentas para o novo já existem, cooperação digital, saberes periféricos, ecologias políticas, mas faltam os sujeitos coletivos que as articulem. Faltam os intelectuais orgânicos verdadeiros, não os porta-vozes do entretenimento.
Volto à frase inicial.
Ela ecoa agora como um aviso. O velho morre, sim. O liberalismo econômico definha. O Estado-nação clássico se desmancha. A democracia representativa geme.
Mas o novo, uma democracia profunda, uma economia do cuidado, uma internacional dos comuns, ainda é apenas um nome em cadernos de cárcere.
Enquanto isso, os sintomas mórbidos nos distraem.
E nós, leitores de Gramsci, fechamos o livro e saímos para a rua.
A rua que é, também, uma cela.
Porque o interregno, quando se prolonga demais, deixa de ser passagem e vira morada.
E toda morada sem futuro é, no fundo, uma prisão.




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