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O CRIME E O ESPETÁCULO

  • Carlos A. Buckmann
  • 5 de mai.
  • 3 min de leitura

O CRIME E O ESPETÁCULO (*)

(Da série A FILOSOFIA NA MPB)

            Há cronistas que escrevem com máquina de escrever. Outros, com violão e poesia.

            João Bosco e Aldir Blanc são desses: fazem do samba uma coluna de jornal, do verso uma reportagem de esquina. Em “De Frente pro Crime”, não inventaram nada que a realidade já não tivesse encenado mil vezes.

            Apenas pararam o tempo num instante qualquer de uma madrugada brasileira, e cantaram a filosofia bruta que ali pulsa.

            O corpo está lá. Mas o que é um corpo, quando vira paisagem?

            “Tá lá o corpo estendido no chão / Em vez de rosto, uma foto de um gol / Em vez de reza, uma praga de alguém / E um silêncio servindo de amém.”

            O rosto foi apagado.

            Emmanuel Levinas diria que a ética começa justamente ali, no rosto do outro, que me convoca à responsabilidade. Mas e quando o rosto vira cartaz de futebol? Quando a identidade da vítima cede lugar a um ídolo de mentira, a morte perde o nome. Resta a praga, pois a fé já não alcança. Resta o silêncio que, pior que a blasfêmia, faz as vezes de oração. Amém. Aceitação passiva. O horror normalizado.

            “O bar mais perto depressa lotou / Malandro junto com trabalhador / Um homem subiu na mesa do bar / E fez discurso pra vereador.”

            O espetáculo está montado.

            Hannah Arendt alertou para a banalidade do mal, mas talvez faltasse a ela ver a cena brasileira: o mal não é apenas banal, é “divertido”. Lotam-se os bares. Malandros e operários confraternizam. Um oportunista sobe na mesa e discursa. Uma deputada corre armada atrás de um homem negro. O morto? Coisa secundária. A política, o comércio, o entretenimento, tudo converge para a mesma vitrine. Guy Debord reconheceria ali a Sociedade do Espetáculo: a vida real sendo substituída por suas representações.

            “Veio o camelô vender / Anel, cordão, perfume barato / Baiana pra fazer / Pastel e um bom churrasco de gato.”

            O capitalismo tem um faro extraordinário para o luto.

             Walter Benjamin falava do “comércio como essência do moderno”, mas não imaginou o camelô instalado diante do cadáver. Tudo vira mercadoria: a bijuteria, a fome, até o gato que vira churrasco. A morte gera movimento, gera renda, gera pequenos negócios. Não há sacrilégio nisso. Apenas lógica de mercado. Bauman chamaria de modernidade líquida: tudo flui, inclusive o sangue pela sarjeta.

            “Quatro horas da manhã / Baixou o santo na porta bandeira / E a moçada resolveu / Parar, e então:”

            O sagrado ainda desce. Mas desce onde? Numa porta bandeira, espécie de terreiro precário, de esquina.

            Nietzsche já havia denunciado a permanência do religioso mesmo após a morte de Deus: o vazio não se sustenta, precisa de novas possessões. A moçada para. Para quê? Para dançar? Para rezar? Para simplesmente suportar? O “e então” suspende a resposta. Talvez porque não haja resposta. Apenas o intervalo entre duas indiferenças.

            “Sem pressa, foi cada um pro seu lado / Pensando numa mulher ou no time / Olhei o corpo no chão e fechei / Minha janela de frente pro crime.”

            Eis o núcleo filosófico da canção. Cada um volta à sua vida privada, ao amor miúdo, ao clube do coração.

            Ninguém corre. Ninguém chama a ambulância.

            O cronista, que sou eu nesse instante, fecha a janela. Mas não se engane: fechar a janela não é virar as costas. É aceitar que se mora justamente ali, de frente para o crime.

            Sartre falaria de má-fé: a tentativa de negar o que se vê, sabendo que se viu. Levinas, de novo, cobraria o rosto, que não está mais ali.

            É aí que percebemos: a canção tem quase meio século, mas a janela é a mesma.

            Abro o noticiário, corpo estendido. Abro as redes, discurso de vereador. Abro o bolso, camelô. Abro a fé, santo baixando em porta bandeira. Tudo igual. Tudo de novo.

            A filosofia da MPB não está nos tratados.

            Está no asfalto, na madrugada, na prosa fina de Aldir Blanc e nas cordas de João Bosco.

            Eles não resolvem a violência, apenas mostram sua anatomia. O resto é conosco. De frente ou de costas.

            De noite, ainda ouço o samba. E penso: talvez a única reza possível seja não aceitar o silêncio como amém. Talvez o único rosto que possamos devolver ao morto seja o de não transformá-lo em paisagem.

 

            Fecho a janela. Mas, desta vez, deixo um vão. Para ver. Para não me acostumar.

            Porque, como disse o poeta em outra canção: “o homem é homem, e o crime é crime, e a vida é vida”, e eu não quero apenas assistir.


(*) Assista o clip no YouTube

 
 
 

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